Saúde

Mieloma múltiplo: o cancro que continua a assustar milhares de portugueses

A NiT e a médica Manuela Bernardo dão-lhe um guia prático para esclarecer todas as dúvidas sobre esta doença mais comum do que se pensa.
Todos os anos há centenas de diagnósticos no País.

Há palavras capazes de nos fazer tremer só de as ouvirmos. Cancro é um desses casos. O avanço da ciência tem-nos permitido combater de forma mais eficaz vários tipos de cancro. Mas há desafios que se mantém. Este mês de setembro é precisamente dedicado à consciencialização das doenças hemato-oncológicas. Manuela Bernardo, coordenadora de hematologia da CUF Oncologia e oncologista nos hospitais CUF Tejo e Santarém, lembra à NiT alguns sinais a que vale a pena estar atento e desmistifica algumas dúvidas sobre um problema que tem origem no sangue mas é nos ossos que faz sentir a sua violência.

Estima-se que cerca de 300 portugueses sejam diagnosticados todos os anos com mieloma múltiplo. A incidência é ligeiramente maior nos homens e é mais frequente a partir dos 60 anos, mas pode surgir em pessoas mais jovens.

Esta é uma doença com contornos complexos, que pode começar com sintomas quase impercetíveis e evoluir para complicações severas. Pelo meio, condiciona a mobilidade, afeta a qualidade de vida e pode até ter um impacto pouco comum, como diminuir a altura da pessoa.

Esta é uma doença para a qual ainda não há uma cura total prolongada, como explica a Associação Portuguesa Contra a Leucemia. Apesar de tudo, o que se tem aprendido nas últimas duas décadas tem permitido consideráveis melhorias. “A esperança média de vida, que antigamente era de três anos, é atualmente muito superior, sendo possível que alguns doentes possam vir a ser mesmo curados”, explica a médica.

Todas as dores ósseas levam a suspeitar de cancro?

De modo nenhum. Na maioria devem-se a problemas inflamatórios ou degenerativos – artroses, hérnias discais, inflamações tendinosas, mesmo fraturas por osteoporose. São mais comuns nas pessoas idosas, e portanto muito frequentes.

Há formas de distinguir?

Sim. Qualquer dor persistente localizada, ou que agrava rapidamente, deve ser valorizada. Também dores que vão surgindo em locais múltiplos, em especial na coluna, ancas ou costelas, bem como dores que não melhoram com o repouso, devem levar a consultar o médico .

Quais os tumores que mais frequentemente causam dores ósseas?

O mieloma múltiplo é a doença de sangue em que é típica a presença de dores ósseas. Outros tumores, em especial os que têm origem na próstata, mama ,pulmão, rim e tiróide, podem manifestar-se deste modo. Isso significa que a doença está já numa fase disseminada e, neste caso, estas lesões chamam-se metástases.

Como surgem as metástases?

Enquanto os tumores crescem, existe a possibilidade de algumas células se separarem e passarem para outros órgãos, pela corrente sanguínea ou pelos linfáticos, atingindo outros órgãos. Os locais de metastização são diferentes para os vários tumores. No caso do mieloma, que se origina na medula óssea (cavidade dos ossos) a invasão da parte externa do osso é muito comum e é a causa das dores. Há também um desequilíbrio entre a formação de células ósseas novas e a reabsorção das mais antigas, conduzindo a uma rarefação do osso.

O exercício físico provoca estas doenças?

O exercício físico pode ser benéfico na prevenção de algumas doenças malignas, reduzindo a obesidade. Melhora também o funcionamento articular, tendinoso e muscular, e deve ser mantido em todas as idades. No entanto, se for efetuado já na presença de lesões malignas dos ossos, pode provocar aumento da dor e até fraturas. O facto das dores ósseas se agravarem com o exercício é outro fator de alarme.

Pode haver fraturas sem traumatismo? Como se detetam?

Sim. Como os ossos ficam muito frágeis, qualquer pequeno movimento pode provocar uma fratura – chamada fractura patológica”. São situações em que a dor é particularmente violenta, e, no caso dos membros inferiores, impede que a pessoa se ponha de pé.

Há esperança em tratar tumores com envolvimento dos ossos?

Sim. Doenças como o mieloma e tumores da mama ou mesmo do pulmão podem melhorar muito com os tratamentos. Mas quanto menos lesões e fraturas houver, melhor. Em alguns tumores, como o mieloma, é comum haver fraturas e zonas de destruição a que chamamos “lesões líticas”. Neste caso, mesmo que as células malignas sejam erradicadas, o osso não fica normal e a dor pode não melhorar completamente.

A cirurgia é suficiente para o tratamento?

Não. No caso de fraturas patológicas ou doença óssea provocada por tumores, deve ser efetuado tratamento de quimioterapia e /ou radioterapia.
Outros tratamentos que podem ajudar são produtos que melhoram a formação de osso novo e reduzem a sua destruição, chamados bisfosfonatos.

Há pessoas com mieloma que diminuem a altura. Porquê? Isso pode melhorar com o tratamento?

No mieloma, a rarefação óssea faz com que as vértebras, que suportam o peso do corpo, vão ficando achatadas, como caixas de cartão ocas, com muito peso em cima. A situação mais grave é a fratura com compressão das raízes nervosas, causando muita dor. Há situações em que as pessoas ficam a medir menos 10 cm. Não é uma situação reversível, mas pode estagnar com o tratamento.

A vitamina D pode evitar as lesões ósseas?

Não evita, mas a sua falta pode ser um fator de agravamento da doença, já que a sua carência leva ao enfraquecimento ósseo, pela maior dificuldade na fixação de minerais como o cálcio e fósforo, sendo um factor adicional das dores e possíveis fraturas em caso de tumor. A carência de vitamina D tem sido também identificada como um fator predisponente ao aparecimento de alguns tumores.

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