As dores latejantes típicas das enxaquecas afetam 2,15 milhões de portugueses. Já as enxaquecas crónicas fazem parte do dia a dia de aproximadamente um milhão e são mais comuns nas mulheres. No entanto, há uma arma secreta para acabar finalmente com esta doença: o botox.
Esta é uma patologia com forte componente genética, de origem familiar, à semelhança do que acontece noutras doenças. como a diabetes. “Há pessoas que têm genes que facilitam ter enxaqueca e há famílias onde isso é mais comum”, conta a especialista à NiT.
Além da predisposição genética, existem fatores que contribuem para o aparecimento e agravamento dos sintomas, como as hormonas, o que ajuda a explicar a sua maior prevalência nas mulheres — que “sofrem o dobro de um homem devido às dores”.
Caso nunca tenha enfrentando uma, caracteriza-se pela recorrência de crises em que a dor de cabeça é o sintoma principal, geralmente de carácter latejante e de intensidade severa quando não é tratada, sendo muitas vezes suficientemente forte para interromper ou impedir as atividades do dia a dia.
Também podem surgir sintomas como náuseas, vómitos, diarreia, falta de apetite e intolerância a estímulos sensoriais. “O barulho, o movimento ou até tocar na cabeça incomoda muito”, refere Raquel Gil-Gouveia. As crises podem durar entre 24 e 72 horas e ocorrer com uma frequência variável, desde uma vez por mês até uma vez por semana. Nos casos de enxaqueca crónica, os doentes sofrem de dor de cabeça em mais de 15 dias por mês.
É neste contexto que o botox, ou toxina botulínica, surge como uma opção terapêutica relevante, sobretudo para os doentes com enxaqueca crónica. Trata-se de uma toxina purificada que atua ao nível do sistema nervoso. Embora muitas vezes se pense que os neurónios se localizam apenas no cérebro, existem também alguns fora dele, responsáveis pela ligação entre o cérebro e os músculos.
O botox liga-se não só aos neurónios motores, mas também aos nociceptores, ou seja, as fibras nervosas que transmitem a dor. O tratamento consiste na aplicação de injeções em múltiplos pontos da cabeça, entre a frente, os lados e a nuca. “São entre 30 a 40 pontos”, explica a neurologista.
Ao impedir a comunicação química entre os neurónios, a toxina reduz a potenciação da dor, levando a uma melhoria progressiva. Com o tempo, há uma diminuição significativa do número de dias com dor de cabeça, bem como da sua intensidade e persistência.
Em Portugal, este tratamento já é utilizado há vários anos em diferentes centros hospitalares. Segundo Raquel Gil-Gouveia, existem casos tratados com botox desde cerca de 2015, embora não exista uma contabilização exata do número de doentes abrangidos. Uma das grandes vantagens deste tratamento é a sua tolerabilidade. “Não tem nenhum efeito no organismo”, sublinha, destacando ainda que pode ser utilizado em doentes que já tomam outros medicamentos para a enxaqueca.
Os efeitos secundários são geralmente ligeiros e transitórios, podendo incluir algum bloqueio muscular no local da injeção, como dificuldade em franzir a testa, mas apenas por um período limitado.
A duração do tratamento varia consoante a resposta terapêutica de cada doente. Em pessoas com mais de 15 dias de dor de cabeça por mês, a resposta começa a ser avaliada entre os três e os seis meses. O tratamento é habitualmente mantido durante cerca de dois anos, até que o efeito esteja estabilizado, podendo depois ser progressivamente reduzido ou suspenso. “Pode ser um ano, dois, três ou até cinco”, resume.

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