Saúde

“Não esperávamos que a StayAway Covid fosse um sucesso fantástico à primeira tentativa”

À NiT, Francisco Maia, um dos responsáveis pela criação da app, frisou que do ponto de vista técnico ela “é um sucesso”.
Ainda há quem tenha esperança

Foi anunciada pelo governo como uma arma valiosa na luta conta a propagação da Covid-19, usá-la deveria ser “um dever cívico”, sublinhou o primeiro-ministro, que se mostrou tentado a implementar a obrigatoriedade. Cinco meses depois, os números mostram que a esperança deu lugar à desilusão.

Francisco Maia, investigador do INESC TEC — o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, responsável pela criação e coordenação do sistema —, mostra-se mais otimista. À NiT, revela que do ponto de vista técnico, a StayAway Covid “é um sucesso”, sobretudo pela forma como uniu investigadores europeus e de todo o mundo na procura de uma solução inédita para um problema global.

Perante os números mais recentes que revelam que após 2,9 milhões de downloads, existem atualmente apenas 1,1 milhões de utilizadores ativos — num número em tendência decrescente —, admite que o investimento feito deveria ter culminado em “melhores resultados”.

Na opinião do investigador, nem tudo está perdido. Trabalham-se em novas melhorias à aplicação e seu funcionamento que geram otimismo entre os criadores: “A situação pode ser invertida”.

O número de utilizadores da StayAway Covid reduziu significativamente desde outubro. Isso significa que a eficácia está comprometida?
Não desceu tanto quanto o que foi noticiado. Estamos a falar de um número que está abaixo do que seria a expectativa inicial. Imaginando que todo o sistema estava a funcionar perfeitamente, com códigos a serem entregues, ter 1,1 milhão de utilizadores ativos como temos agora, significa na mesma um benefício, porque a eficácia não depende apenas da percentagem global de pessoas que instalam a app. Claro que quanto maior for, mais capacidade tem.

Não se deve, portanto, a problemas técnicos.
Do lado técnico da aplicação, não encontrámos problemas significativos. Desse ponto de vista, é um sucesso. Há poucas aplicações instaladas de forma tão massiva em tantos dispositivos diferentes — sobretudo com tecnologia nova, que usa por exemplo o Bluetooth de uma forma para a qual não foi desenhada.

Se tecnicamente está tudo bem, o problema é externo à aplicação? Falou-se muito da dificuldade em gerar os códigos que depois seriam inseridos pelos infetados na aplicação. O número é, aliás, residual. O que é que correu mal?
No início falou-se muito da privacidade e a parte do funcionamento da app ficou meio esquecido. Muitas das decisões do desenho da app foram tomadas para assegurar total privacidade. A questão dos códigos é uma delas.

”Poderá não ter sido passada aos médicos a ideia do quão importante eram os códigos”

Como é que funciona esse processo?
O código é entregue após o diagnóstico e tem que o ser feito, diz a lei, por um médico. Para evitar que houvesse cruzamento de dados ou risco para a proteção dos mesmos, todo o sistema StayAway Covid é independente das bases de dados do SNS. Existe um botão no sistema TraceCovid a que todos os médicos conseguem aceder para gerar os códigos. O que teria que acontecer é que, após um teste positivo e confirmado o diagnóstico, o médico deveria, no contacto com o doente, gerar um código e transmiti-lo. É um processo manual.

Essa implementação também foi da vossa responsabilidade?
Nós fornecemos o software que gera os códigos. A integração, o local onde aparece o botão, não é da nossa responsabilidade.

Há muitos relatos de dificuldades nesse processo, de médicos que não sabiam ou não conseguiam gerar códigos. Se o programa está bem feito, onde está o problema? Na comunicação?
Terá a ver com alguma falta de comunicação, sabemos que a informação foi passada aos médicos, mas talvez não tenha sido feita de forma consistente e repetida. Pode ter existido um problema de comunicação. É bastante plausível que no meio de todos os procedimentos que lhes eram pedidos, poderá não ter sido passada a ideia do quão importante era esta questão dos códigos.

”A comunicação e sensibilização [para o uso da app] ficou muito aquém do que poderia ser feito”

Há também uma enorme disparidade entre códigos emitidos e inseridos. Isso significa que eles chegam às pessoas, mas que elas não os inserem?
É uma falsa questão. Nem todos os códigos gerados vão ser inseridos, mas isso vai acontecer sempre: a pessoa pode não ter a app instalada ou o código não foi entregue a tempo. Na prática, o que nos chegava ao suporte técnico eram relatos de pessoas que queriam inserir o código. Pode acontecer que algumas não o insiram, mas não me parece que seja esse o grande travão. Percebo o argumento, mas não sei se será o principal.

Entretanto avançou-se com uma novidade para resolver o problema: o código ser gerado e enviado automaticamente para o telemóvel do paciente. Porque é que não se fez logo isso? Porquê só agora?
A decisão de não avançarmos para essa automatização teve a ver com a proteção de dados. A alternativa automática estava pensada desde o início e havia quatro ou cinco formas de entregar os códigos.

Descartaram a alternativa por causa da privacidade?
Não se previa que a entrega manual do código fosse tão complexa na prática, porque o que se imaginaria era que havendo obrigatoriedade do seguimento de um doente Covid, a entrega do código não seria um fardo muito pesado. Mas sim, a motivação principal para separar estas questões prende-se com a proteção de dados, porque a alternativa é automaticamente eu saber o número de telemóvel da pessoa e enviar o SMS com o código, em vez de ser o médico a ligar a dá-lo.

”Não previmos que a entrega manual dos códigos fosse tão complexa na prática”

Como irá funcionar esse novo sistema, caso seja aprovado pela Comissão Nacional de Proteção de Dados?
A ideia é que não seja necessário [o médico] carregar no botão. O processo seria automático assim que no sistema se confirma o diagnóstico Covid. O código é gerado e enviado automaticamente.

Porque é que essa alternativa não avançou logo em setembro?
Foi uma questão decidida em conjunto. Queríamos ter o desenho mais privado possível e a salvaguarda de ser um médico a gerar o código tem a ver com a validade do diagnóstico. Quando o médico gera o código, também introduz no sistema a data de início dos sintomas — que é usada para avaliar o risco de contágio — e isso está ligado a um diagnóstico médico. Ficou no desenho inicial essa opção porque nos pareceu a melhor opção possível tendo em conta as restrições de privacidade. Hoje em dia, tendo em conta a dificuldade que houve nesse processo, parece-nos que a automação pode ser uma ajuda.

Vão sacrificar alguma proteção em prol de uma aplicação mais eficaz?
Na prática não sacrificamos nada de especial porque são informações que já existem na base de dados. Não há uma alteração grande no contexto da privacidade, embora haja sempre um tratamento diferente desses dados e daí que seja necessário um parecer da CNPD. É também preciso ver se esta automatização é compatível com o que foi publicado em lei, sobre ser uma ação do médico. Acreditamos que será, porque o diagnóstico continua a ser médico.

”A entrega automática dos códigos [aos infetados] não sacrifica nada de especial na privacidade”

Há outra medida que acha que poderia ser implementada para melhorar o desempenho da StayAway Covid?
A comunicação. Foi feita alguma sensibilização mas, do nosso ponto de vista, ela ficou muito aquém do que poderia ter sido feito. Fiquei com a sensação de que foram amplamente divulgados pareceres e opiniões quase apocalípticos sobre o que ela fazia e sobre os dados, mas pouco sobre a sua razão de existir e os benefícios que traz.

Muitas pessoas acreditavam que a aplicação devia apitar quando estavam perto de infetados. Até políticos usaram esse argumento. É disso que fala?
Sim. Concedo que este é um tipo diferente de aplicação e que não seja fácil de entender de imediato, mas podia também ter sido feito um esforço maior para o comunicar, até da comunicação social. É evidente que a privacidade é importante, mas para nós esse foi sempre um tema muito importante. Parece-me é desadequado focar apenas esse aspeto, numa app que é super-privada e que tem um benefício que foi largamente esquecido. Inclusivamente pela incompreensão de alguns médicos. Quando se diz que não sabem onde se geram os códigos, isso é sinal de que algo não foi bem transmitido.

Não é só a StayAway Covid que está em dificuldades. As taxas de utilização noutros países também são baixas. Estas apps estavam condenadas ao fracasso?
Não sei se estariam, gosto de ver isso por outra perspetiva. Foi a primeira vez que se usou uma tecnologia deste tipo para este fim, portanto não esperaria que isto fosse um sucesso absolutamente fantástico à primeira tentativa, muito menos tendo em conta todas as restrições de tempo que tivemos no desenvolvimento. A questão do sucesso ou insucesso é multifatorial. Em Portugal há muita desconfiança, que será comum a muitos países. Esta app é um pouco egoísta, porque o seu uso é mais para os outros — e isso levanta uma questão de educação, de sociedade, que também não estará suficientemente desenvolvida. Se a app impediu seis, 12, 30 ou 60 cadeias, isso já é um sucesso, porque não estamos a tentar fazer — e essa nunca foi a ideia inicial — algo que resolva o problema, mas que ajude a combater a pandemia.

”Quando [os médicos] dizem que não sabem onde se geram os códigos, é sinal de que algo não foi bem transmitido”

Mas foi vendida como uma arma essencial contra a doença que custou 400 mil euros e que, afinal, não foi assim tão eficaz. O resultado é, até ao momento, dececionante.
Claro que sim, o facto de ter sido vendida dessa forma, tendo tido a ambição de ser um sucesso. Parece mais grave do que é. Mas se não tivermos a ambição de fazer as coisas para tentar resolver um problema, isso também não faz muito sentido. Relativamente ao valor, é importante perceber que uma app não é barata e esse não é o valor que custou fazer o código. Estamos a falar de tudo o que envolveu o projeto, de várias dezenas de pessoas a trabalharem em muitas coisas. É difícil dizer que determinado investimento foi ou não um sucesso.

Essa é a pergunta que todos fazem: afinal ele foi bem investido ou nem por isso?
Acho prematuro avaliar já. O investimento que se fez é, obviamente, para ter melhores resultados do que temos até agora. Isso é claro. Mas esta foi também uma primeira tentativa na história de fazer algo deste género e aquilo que se aprendeu com isto — e não só o caso português, mas da cooperação europeia e mundial —, acho que irá ser muito valioso no futuro, numa pandemia ou noutro tipo de desafio global.

”É prematuro avaliar se foi um bom investimento (…) mas obviamente que o que se fez, seria para ter melhores resultados do que temos até agora”

Chegados a este ponto, onde o número de utilizadores está a diminuir, há algo que ainda seja possível fazer para salvar e tornar a app numa arma eficaz?
Continuamos a acreditar que é possível. Vamos lançar a interoperabilidade, que vai permitir que apps diferentes de cada país cooperem a nível mundial para um sistema global com um único fim. É um esforço mundial no combate a um desafio que é de todos, independentemente de alguns resultados não serem tão bons. Nós acreditamos que conseguimos resolver também esta questão dos códigos, seja porque melhoramos o processo em si ou porque conseguimos implementar alguma otimização. Achamos que a situação pode ser invertida.

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