Saúde

Não há motivo para tanta preocupação: gene que põe Hemsworth em risco não é determinante

O ator encarou o diagnóstico com reserva. Especialista diz que foi mal aconselhado — não é certo que venha a desenvolver Alzheimer.
O ator vai tirar um tempo para a família.

Muito se tem falado sobre o gene APOE4 nos últimos dias. O tema ganhou destaque com um anúncio de que Chris Hemsworth, de 39 anos, iria fazer uma pausa na carreira por causa dele. O ator australiano, que ficou conhecido por interpretar Thor nos filmes da Marvel, descobriu que tem uma predisposição para desenvolver Alzheimer — uma doença degenerativa que causa a deterioração dos sistemas cognitivo e neurológico.

Hemsworth submeteu-se a vários testes e análises no âmbito do seu documentário “Limitless“ e foi assim que ficou a saber que tem “entre oito a dez vezes mais” de probabilidade de desenvolver a doença, do que uma pessoa comum. Os especialistas analisaram o ADN do ator e descobriram que tem duas cópias do gene APOE4 — do pai e da mãe. Os estudos associam a presença deste gene um maior risco de desenvolver a patologia.

Porém, Marta Amorim, médica especialista em genética do Hospital Lusíadas de Lisboa, disse à NiT estar chocada com o impacto que a notícia está a ter. Hemsworth revelou, em declarações à revista “Vanity Fair”, que o diagnóstico é um motivo de preocupação e que a dupla ocorrência do gene indica que maior predisposição para desenvolver a patologia. E o histórico familiar não o tranquiliza. A Alzheimer não é uma desconhecida da família — avô do protagonista de “Thor: Amor e Trovão” foi diagnosticado com a doença e portanto, fazia sentido, no seu caso, fazer o teste.

Habitualmente encarada com medo, a Alzheimer é uma das patologias mais comuns nas cerca de 50 milhões de pessoas diagnosticadas com algum tipo de demência, segundo os dados mais recentes divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Normalmente, em cerca de 95 por cento dos casos, começa a evidenciar-se tardiamente — a partir dos 65 anos”, começa por explicar a médica. “Depende de vários fatores como o ambiente, a dieta e o estilo de vida”, continua. “Apenas cinco a dez por centos dos casos têm um início precoce.”

De acordo com a especialista em genética, o risco é algo com que se preocupar, mas não é um diagnóstico definitivo. “É verdade que o gene APOE4 é uma mutação de risco, está associado ao aumento (de oito a 12 vezes) da probabilidade de vir a ter a patologia. Mas este gene não é determinante“. “Por exemplo, 42 por cento das pessoas com Alzheimer não tem este alelo”, da mesma forma que, “ter os dois alelos — do pai e da mãe, como acontece com o ator — não significa que vá desenvolver a doença”.

Para Marta Amorim, o facto de Chris Hemsworth ter ficado tão afetado revela que “foi mal aconselhado e acompanhado”, porque este fator não é suficiente para ser motivo de ansiedade. “Só demonstra a importância do aconselhamento pré e pós teste”, diz. E aproveita também para deixar um alerta para a necessidade de cuidado na utilização deste tipo de testes.

Faz sentido fazê-los, sim, quando há um “historial familiar forte ou existe já a presença de uma demência precoce”. Ter um parente com uma fase tardia de Alzheimer aumenta um pouco o risco de ter a doença, mas de forma pouco impactante. A situação torna-se preocupante quando há, pelo menos, dois familiares de primeiro grau, com menos de 65 anos e de gerações consecutivas (pai e filho, por exemplo), diagnosticados com a patologia.

“O que determina de forma mais precisa a possibilidade de ter ou não a doença são os fatores de risco”. Pessoas hipertensas, diabéticas, analfabetas, sedentárias, com déficit auditivo não corrigido ou com alguma dificuldade visual, por exemplo, estão incluídas no grupo mais propenso ao Alzheimer. Indivíduos que sofrem com distúrbios do sono, principalmente a apneia, também correm um risco maior.

No entanto, o recomendado a essas pessoas não é submeterem-se a exames genéticos. “Saber da presença do alelo só gera um impacto grande na família, e um stress psicológico”. O correto é manter atitudes preventivas, existindo ou não a presença do gene.

Uma das medidas preventivas é estar exposto a atividades que estimulem a cognição, como fazer quebra-cabeças, palavras cruzadas, jogar damas ou xadrez, tocar um instrumento musical, dançar ou estudar uma nova língua. Estas iniciativas aumentam a neuroplasticidade (capacidade do cérebro de aprender e de se reprogramar) e reduzem o risco de qualquer tipo de demência.

Vale ressaltar, porém, que estar atento aos primeiros sinais de Alzheimer também é essencial. Caso a pessoa tenha esquecimentos simples, como um percurso comum, ou tenha memória de coisas antigas mas não se lembra do que almoçou, há necessidade de procurar ajuda. Quadros de muita apatia ou dificuldade para fazer planos, traçar ou executar objetivos, também merecem uma consulta com um neurologista para ser feita uma avaliação e o acompanhamento.

Se for estabelecida a necessidade de realizar um exame genético, deverá ser feito por aconselhamento médico. “O teste é feito através do ADN, que pode ser recolhido no sangue ou na saliva” — sendo o primeiro mais frequente. Quando feito em instituições privadas “é caro”, afirma Marta Amorim, podendo custar “entre os 600€ e os 900€”.

Leia também este artigo da NiT sobre a primeira aldeia do mundo segura para doentes com Alzheimer.

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