Saúde

“Não temos direito à vacina e não recebemos qualquer remuneração. Mas estamos lá”

O testemunho de uma estudante de enfermagem, que fala em nome de muitos colegas, está a destacar-se nas redes sociais.
Um desabafo emocionante.

Quando se fala nos profissionais de saúde que estão na linha da frente no combate à pandemia de Covid-19, talvez por esquecimento, raramente se enaltece o trabalho dos estudantes da área da saúde, como é o caso daqueles que querem ser enfermeiros. Também eles estão lá todos os dias, apoiam os doentes e têm marcas no rosto e no corpo deixadas pelo equipamento que os protege.

Uma publicação feita no Instagram a 24 de janeiro, que continua a ser partilhada no dia de hoje, sob o nome “Retratos de Estudantes de Enfermagem”, mostra o rosto de vários estudantes que estão na luta contra esta doença. A acompanhar está um testemunho de uma “colega, amiga e futura excelente Sra. Enfermeira Ana Maria Ramos”, como é descrita pela autora daquela conta, Valéria.

“Poucas são as palavras que consigo utilizar para expressar a coragem, resiliência e persistência de cada uma destas pessoas. Somos Estudantes de Enfermagem, em estágio nos hospitais e centros de saúde. Não temos direito à vacina e não recebemos qualquer remuneração. Mas estamos lá. Estamos presentes diariamente, junto dos doentes”, começa por escrever.

E continua: “Estamos presentes diariamente, para aprender e para dar o nosso apoio às equipas de enfermagem. Estamos constantemente em período de adaptação, seja à instituição, ao contexto do serviço e aos profissionais. Estamos constantemente com medo de contrair o vírus e levá-lo para a nossa casa. Estamos constantemente metidos no meio de surtos que, infelizmente, são cada vez mais recorrentes. Estamos constantemente a ver o cansaço na cara dos profissionais. Estamos constantemente a ver o cansaço na cara dos doentes.”

Alguns dos estudantes na linha da frente.

A futura enfermeira diz que também eles presenciam a morte de doentes e dão apoio numa altura em que é impensável receber visitas dos amigos e familiares. Relembram que também eles têm as testas e os narizes marcados pelo equipamento individual de proteção. Ana Maria Ramos conta que sorriem atrás da máscara numa tentativa de promover conforto e que sentem a dor dos doentes e ouvem as máquinas a apitar.

“Vivemos diariamente com a sensação de que a Enfermagem não é valorizada e de que os enfermeiros não recebem o reconhecimento devido. Mas estamos lá. Estamos lá porque um dia seremos nós. Estamos lá porque, independentemente das circunstâncias, o bem-estar do doente é a prioridade. Estamos lá porque valores mais altos se levantam em altura de pandemia. Estamos lá porque é este o nosso trabalho”, desabafa.

Segue-se um apelo por todos os profissionais de saúde, desde os enfermeiros e médicos aos auxiliares de ação médica e funcionários da morgue: “Fiquem em casa. Pela saúde física e emocional de todos os profissionais. Pela vossa saúde. Pela saúde da vossa família. Pelo SNS. Por todas as vítimas que a pandemia já originou.”

A estudante de enfermagem confessa que nem sempre souberam responder quando lhes perguntaram que tipo de enfermeiros querem ser. Agora, a resposta é fácil: querem ser o tipo de enfermeiros com os quais lidam diariamente. “O tipo de enfermeiro que resiste a uma pandemia. O tipo de enfermeiro que não baixa a cabeça e muito menos os braços. O tipo de enfermeiro que dá o que tem e o que não tem pelos doentes. O tipo de enfermeiro que não abandona a equipa.”

Numa nota final, deixar, em nome de todos, um sincero obrigado pela coragem e dedicação. Aos estudantes de enfermagem de todo o País, relembra que fazem “este caminho juntos até ao fim”.

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