Saúde

Nuno superou o “impossível”. Tem paralisia cerebral e é instrutor de cycling

Os médicos sempre disseram que não conseguiria andar, mas aos sete anos tudo mudou. Com força de vontade, conseguiu realizar o seu sonho.
O cycling tornou-se na paixão de Nuno.

Quando Nuno Ribeiro nasceu, os pais receberam uma notícia inesperada. O filho sofria de paralisia cerebral e o prognóstico era muito reservado. Segundo os médicos, poderia nunca conseguir andar. Hoje com 33 anos, vive no Barreiro e superou o que diziam ser impossível: após anos de fisioterapia, cirurgias e força de vontade, tornou-se instrutor de cycling.

A deficiência, relacionada com o sistema nervoso central, foi diagnosticada logo à nascença, mas Nuno só começou realmente a ter consciência da sua condição quando tinha 5 ou 6 anos. “O cérebro não envia os comandos corretos para o corpo, por isso tenho problemas de equilíbrio e desloco-me com um andar desengonçado e uma locomoção mais lenta”, explica à NiT.

Nuno, que é também auxiliar administrativo, refere que nunca se sentiu diferente dos outros miúdos. Na escola, esteve sempre inserido em “turmas normais”. “Na pré-escola e no ensino básico, os meus colegas de turma sempre me incluíram nas brincadeiras para que eu conseguisse participar”, afirma.

E também jogava à bola nos intervalos: “Ficava como guarda-redes, encostado à parede, era a única maneira de me equilibrar sozinho.” Nas aulas, “a única diferença eram os testes. Ou eram mais curtos, porque escrevia mais devagar que os meus colegas, ou então tinha mais tempo para os fazer”. Mais tarde, já no terceiro ciclo, começou a ser vítima de bullying. Mas isso não o parou. Tinha uma enorme vontade de se superar.

O instrutor de cycling começou a andar aos sete anos, após ter sido submetido à primeira operação para alongamento dos tendões. “Até então só me equilibrava agarrado a alguém ou a alguma coisa. Ainda tinham sido realizadas poucas cirurgias com esta técnica em Portugal, por isso, não sabiam qual seria o resultado. Foi um sucesso, mas os médicos disseram aos meus pais que podia ser necessário repeti-la mais tarde, na adolescência devido ao crescimento”, conta Nuno.

Após um “longo processo de recuperação, comecei a caminhar sozinho, sem precisar do apoio de ninguém”, diz. Mais tarde, aos 16 anos, voltou a ser operado, como lhe haviam dito que aconteceria. “Tive de fazer outra cirurgia, uma vez que os tendões não acompanharam o crescimento e foi necessário um novo alongamento dos mesmos”, refere, acrescentando que a cirurgia, dividida em três fases, voltou a ser um êxito.

Apesar de a sua infância e juventude terem sido passadas entre médicos e fisioterapia, Nuno confessa que tentou aproveitar esses anos da forma “mais normal possível”. “Na adolescência, tirando a escola e algumas atividades que pudessem existir, fui e ainda sou uma pessoa que passa muito tempo em casa. Mas ainda assim, não me posso queixar relativamente a esses anos”, indica.

Nuno sente-se “agradecido” à fisioterapia que, em conjunto com as cirurgias, fez com que começasse a andar. Porém, aos 18 anos começou a sentir-se “estagnado”. “Não piorava, mas também já não via grande evolução para o que pretendia para mim, então pensei: ‘Não tenho nada a perder, vou tentar mostrar mais uma vez que não há impossíveis.’” Inscreveu-se num ginásio e a sua vida deu uma volta de 180 graus.

Sentia-se num “ambiente completamente novo”, por isso, optou por pedir ajuda a um personal trainer, para que pudesse ser supervisionado. Queria aprender a trabalhar com as máquinas e fazer treinos feitos à sua medida. Afinal, Nuno não queria colocar em causa todo o trabalho feito na fisioterapia.

“O meu personal trainer tinha feito um estágio na Associação de Paralisia Cerebral do Porto, por isso não podia estar mais bem entregue, era um profissional que estava totalmente habilitado a dar-me treino. Os exercícios que fazia na altura, que são os que ainda faço hoje para ganhar massa muscular, de equilíbrio, mobilidade e alongamentos assistidos”, adianta.

Num destes treinos, percebeu que o personal trainer dava aulas de cycling. Mesmo tendo sido avisado de que seria uma modalidade “difícil” para si, Nuno quis, ainda assim, experimentar. “Desde essa primeira vez, a paixão nunca mais desapareceu.”

Nuno Ribeiro tem agora 33 anos.

O cycling é uma aula de grupo que existe nos ginásios e estúdios de fitness feita em bicicletas estacionárias. Os exercícios são conduzidos por um instrutor, num ambiente indoor. É uma modalidade que proporciona um treino intenso de condicionamento cardiovascular, queima de calorias e fortalecimento muscular das pernas e do core.

Através desta prática desportiva, Nuno consegue fazer uma “simulação daquilo que é pedalar através da resistência que coloca na bicicleta. Uma vez que não há vento nem de frente, nem de costas, torna-se um ambiente seguro, algo que não acontece na rua”.

Esteve apenas quatro anos como aluno. Nuno queria dar o passo seguinte e tornar-se professor. Nessa altura conheceu o master instrutor Pedro Maia, que já tinha dado formação a outras pessoas com algumas limitações. Foi ele que o motivou a concretizar o seu sonho. “Acabei por me inscrever na formação e concluí-a com sucesso. Ter recebido o certificado de instrutor foi ainda mais uma lufada de dar ar fresco na minha motivação, pois consegui superar-me em algo que nunca pensei ser possível.”

Nuno deu a primeira aula quando tinha “vinte e poucos anos”, mas lembra-se como se fosse hoje. “Foi uma substituição de uma colega e foram passados 15 dias de ter tirado a formação. Estava super nervoso, porque não sabia como os alunos iriam reagir por terem como instrutor uma pessoa com deficiência, mas o feedback foi incrível e só me perguntavam quando é que eu voltava lá”, conta. Ao longo destes anos, já deu várias aulas e participou em eventos como instrutor. Atualmente, não está em nenhum ginásio. “Optei por dar aulas consoante apenas o tempo que tenho e durante a semana é muito complicado.”

Durante as sessões, Nuno consegue estar do princípio ao fim em cima do palco e utiliza muito a comunicação verbal e a própria motivação. “Existe uma frase que utilizo sempre durante as minhas aulas: se eu consigo, vocês conseguem.”

Apesar da sua condição, o atleta garante que consegue ter uma vida dita “normal”: “Vou e venho todos os dias do trabalho, utilizo transportes públicos — em hora de ponta é uma confusão tremenda —, vou para o ginásio aonde voltei a treinar com um personal trainer e quando aparecem aulas lá vou eu viver mais um bocadinho a minha paixão.” 

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