Saúde

O ator português que deixou a carreira em pausa para ajudar na luta contra a Covid-19

José Carlos Pereira, que brilha em “Golpe de Sorte”, na SIC, está 100% dedicado à medicina.
É médico há cerca de dois anos e meio.

Pode vê-lo todas as noites em “Golpe de Sorte”, a série de sucesso da SIC, na qual interpreta Vitinho, mas o cenário de José Carlos Pereira neste momento é outro: os hospitais. O também médico colocou a carreira em pausa para se dedicar à sua outra vocação a 100 por cento, numa altura em que sabe ser mais preciso para ajudar os doentes do que no set de gravações. 

Quando a pandemia chegou, o ator estava precisamente a gravar a série. Ao mesmo tempo, trabalhava como médico, mas fazia apenas urgências um ou dois dias por semana, na unidade de Abrantes. Tal como todos os portugueses, recebeu com surpresa a notícia da chegada de um novo vírus.

Na altura, não sabíamos o que era. Não tínhamos conhecimento absolutamente nenhum sobre o vírus. Quando se começou a falar de uma pandemia, ou da possível ocorrência de uma pandemia, foi uma surpresa para todos, sobretudo para nós, profissionais de saúde. É sabido por todos que foram meses de muito, muito trabalho, pouco descanso, muita resiliência e poucas horas de sono”, conta à NiT José Carlos Pereira, que é médico desde 4 de julho de 2018.

Questionado sobre o cenário que se viveu em países como Espanha e Itália ser uma realidade no nosso País, revelou que existe o receio de passarmos por isso, ou seja, de escolher quem vive e quem morre. “Não nos devia caber a nós escolher entre dois pacientes, quem sobrevive e quem morre. Nunca devia ser a decisão de um médico”, diz.

Recorda-se perfeitamente quando foi avisado, assim como o restante elenco e equipa de “Golpe de Sorte”, de que as gravações da série iam ser interrompidas, “exatamente por causa do aumentar de casos de infetados em Portugal”. De repente, é “recrutado” para fazer mais dias de urgência, já que na altura foi necessário reforçar a urgência geral no Centro Hospitalar do Médio Tejo, no qual trabalha. Paradas as gravações, o ator teve mais disponibilidade para poder assegurar mais dias de urgência — e foi precisamente isso que fez, entre março e final de abril, aquela que considera como a fase “mais crítica”.

José Carlos Pereira deparou-se com uma realidade cansativa. “Cada vez que entramos no covidário, como nós lhe chamamos, ou na sala onde temos doentes suspeitos de Covid, temos de nos equipar, vestir os equipamentos de proteção individual, as viseiras, três pares de luvas, as botas, etc”, desabafa o ator de 42 anos. 

E continua: “Não é nada confortável ficar várias horas com aquilo. Mas fazemos isto pela causa. Médicos, enfermeiros, auxiliares, todos estivemos a trabalhar para um bem comum — e acho que até tivemos bons resultados na altura, embora as coisas agora estejam um pouco piores, novamente.”

Lembra-se perfeitamente de receber a primeira notificação de um possível doente Covid, que estava em observação e depois testou positivo. “Estive em contacto com vários infetados, uns assintomáticos, outros sintomáticos, outros com mais dificuldades respiratórios e outros sem absolutamente nada, que pareciam ter apenas uma gripe.”

Tendo a Covid-19 um espectro largo de sintomatologia, nem todos eram doentes graves, recorda. “Havia muita gente que estava completamente assintomática e esse é o grande problema, ele [o vírus] está disseminado na população neste momento. Nós temos é de travar esta linha de contágio que está a acontecer cada vez mais.”

Não se recorda de nenhum caso marcante, mas lembra-se bem que havia pessoas que estavam aparentemente bem e em dois dias já estavam nos cuidados intensivos. No entanto, ressalva que isto acontece com a Covid-19 e com o mundo da medicina no geral.

“Já conhecemos mais do que conhecíamos, como funciona, até onde vai e o que podemos esperar, agora temos é de aprender a viver e a conviver com ele — e não sei se isto acabará tão cedo, vamos ver”, diz à NiT.

O desafio de conciliar as duas vocações e o medo pelo futuro da cultura

José Carlos Pereira, assim como a maioria dos portugueses, vê na vacina uma esperança, mas destaca que não se sabe se isto vai ser uma coisa sazonal, “se para o ano teremos uma nova estirpe”. Portanto, “temos de aguardar para ver”.

O profissional de saúde, que também exerce medicina estética na Clínica Milénio, em Lisboa, e na Clínica Lisderma, em Leiria, demonstra preocupação pelo número de internamentos e de camas disponíveis. 

“A disponibilidade humana e de meios dos hospitais é realmente o que nos preocupa. Obviamente, quando mais infetados houver, maior é a cadeia — e nós temos de tentar travar essa cadeia. Tudo isto é muito proporcional mas, neste momento, estamos a atingir um bocadinho uma sobrelotação. Há que tentar travar esta cadeia para que não haja mais infetados. É isto que estamos a tentar para que possamos dar valência e assegurar um bom sistema de saúde a todas as pessoas que realmente necessitam.”

À NiT, o ator revela que espera, sinceramente, que Portugal não passe pelo mesmo que Espanha e Itália. “Espero que a população tenha noção do risco e dos sacrifícios que estamos todos a fazer.”

Quando se fala em sacrifícios, o ato refere os setores da restauração e da cultura. Sobre este último, confessa, “é um setor que está a sofrer imenso e eu, como ator, identifico-me e sei o quanto os meus colegas estão a passar por isso, acho que é horrível o que está a acontecer, mas a verdade é que estamos perante uma situação nova a nível global”.

José Carlos Pereira defende que o Estado tem realmente de disponibilizar apoios fortes para a cultura, para a restauração e para a hotelaria, que são, no seu ponto de vista, os três campos mais afetados por esta pandemia. Ainda assim, tem esperança: “Acho que o próximo ano vai ser o ano da bonança, depois da tempestade que foi o 2020 que vivemos. Espero que assim seja.”

Quanto ao ator, confessa que conciliar as duas coisas foi complicado. “São duas vidas muito díspares mas, felizmente, sou afortunado por poder fazer duas coisas que amo. Tento ser o mais empenhado e profissional nas duas.”

Porém, confessa à NiT que chegou a uma altura em que teve de tomar uma decisão e foi o que fez agora. “Dediquei-me única e exclusivamente à medicina, nunca fechando portas à representação”, revela, acrescentando que atualmente está muito focado na formação, na medicina estética e tudo o que engloba o seu trabalho enquanto médico. 

“Portanto, estou médico a 100 por cento. Para o ano logo se vê. Tenho noção de que, neste momento, sou mais preciso do que nunca. Vivo um dia de cada vez, sem pensar muito no futuro.”

Uma mensagem para os portugueses

“Acho que o povo português temos sido um povo resiliente”, começa por dizer, acrescentando que isto não é uma corrida mas uma maratona. “Acredito que o último esforço de resiliência, perseverança e de algum confinamento que vamos, infelizmente, ter, vai trazer bons resultados a médio/longo prazo. Portanto, vamos aguardar pelo início do próximo ano.”

E continua: “Agora, quer que saibam que eu e todos estamos aqui para um bem maior, que é salvar os nossos entes queridos e tentar controlar esta linha de contágio que está a acontecer. Vamos fazer um último esforço para que levemos isto a bom porto. Temos de controlar, não diria erradicar, mas aprender a viver com esta doença.”

Sobre o Natal, lembra que “não é o estarmos juntos que muda o amor que temos uns pelos outros”. “Quanto mais nos amamos, mais percebemos porque é que este Natal vai ter de ser diferente.”

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