Saúde

“O enfermeiro faz tudo: atende telefones, se for preciso desinfeta macas ou limpa o chão”

Numa altura em que os recursos humanos não chegam, a enfermeira Sara Quarenta conta à NiT o cenário que se vive nos hospitais.
Os profissionais de saúde estão exaustos.

Para muitos é mais um dia de teletrabalho, mas quem está na linha da frente não tem essa opção. Sara Quarenta, enfermeira desde setembro de 2019, apenas alguns meses antes de se conhecer a infeção de Covid-19, nunca imaginou que a sua carreira começasse com um desafio tão grande como enfrentar a maior pandemia do século.

Com 24 anos e, atualmente com cerca de um ano e meio de experiência, confessa à NiT que naquela altura havia apenas duas hipóteses: queria aprender e estava no hospital para tudo de si, ou simplesmente não era capaz.

A jovem enfermeira escolheu a primeira opção e garante que esta doença a fez crescer muito comparado com aquilo que se espera de um recém-licenciado. Neste momento, trabalha no internamento do Hospital de Cascais, em Alcabideche, e nas urgências do Hospital de São Francisco Xavier, em Lisboa. Em dois sítios ao mesmo tempo, diz estar esgotada e que não faz mais nada se não trabalhar.

À NiT, queixa-se da falta de recursos humanos e confessa que há mortes que poderiam ser evitadas caso houvesse mais profissionais de saúde. Sara Quarenta contou-nos a realidade que se vive por esta altura nos hospitais onde trabalha. Leia a entrevista.

Quando ouviu falar neste vírus, qual foi o seu primeiro pensamento?
Posso começar por dizer que sou enfermeira há pouco tempo e não estava de todo à espera começar a minha carreira com uma pandemia, até porque achava que não estava preparada psicologicamente. Mesmo a nível de capacidades para desempenhar as minhas funções também não. Então, pensei que fosse uma coisa mais alarmante e nunca que tomasse estas proporções. Esperava, no fundo, que fosse um exagero. Quando começou a acontecer, percebemos que era a sério e que isto ia mudar as nossas realidades tanto no hospital como na forma como crescemos a nível da profissão. Até agora, acho que cresci imenso daquilo que se espera de uma pessoa licenciada há tão pouco tempo. Na urgência, aguentamos, queremos aprender e estamos lá, ou não dá.

Quais foram os maiores desafios até agora?
A falta de recursos humanos dificulta muito o nosso trabalho. Se quiséssemos tínhamos mais ventiladores, mais máquinas, mais materiais. Mas de nada adianta se não temos pessoas para o colocar a funcionar. Acho que o facto de termos de fazer muitas coisas sozinhos e ao mesmo tempo dificulta o nosso trabalho e a nossa capacidade de reação. Além disso, leva-nos a um nível emocional exaustivo. Parece que não, mas estamos constantemente rodeados de pessoas que morrem ou que estão numa situação que não conseguimos controlar, ou que poderíamos controlar numa outra situação que não esta. O desgaste é muito maior quando comparado com aquilo a que chamávamos o dia a dia normal de um enfermeiro.

E os surtos entre profissionais de saúde também não ajudam.
Sem dúvida. Primeiro, os profissionais de saúde não têm direito à mobilidade entre sítios. Ou seja, não se pode contratar nem despedir, e acabamos por ter que nos virar com o que está disponível e o que está disponível é pouco — e ficamos sobrecarregados. Depois, há surtos nos serviços e ficam menos pessoas a trabalhar durante algum tempo. Isso verificou-se no meu serviço e eu própria já estive muito tempo em casa com Covid-19, na altura em que não havia o intervalo de dez dias e tínhamos de estar em casa até estarmos negativos. Mas os surtos entre profissionais dificultam ainda mais o nosso trabalho. Trabalhamos o dobro das horas, uma sobrecarga do turno dos outros colegas e acaba por ser ainda mais exaustivo.

Sara Quarenta antes de mais um turno no São Francisco Xavier.

Como é que é um turno seu neste momento?
Eu trabalho um pouco mais do que o normal porque trabalho em dois hospitais a tempo inteiro. Portanto, estou sempre a trabalhar, não tenho folgas. No Hospital de São Francisco Xavier não faço todos os setores da urgência. Tirando a reanimação de doentes muito críticos, faço o resto. Às vezes, como os recursos humanos são poucos, incluindo auxiliares, acabamos por fazer um trabalho que nem sempre são apenas as nossas competências. O enfermeiro faz tudo: atende telefones, trata de papéis, se for preciso vai desinfetar macas ou limpa o chão. Não há como não fazer as coisas, nem como ignorar, porque nem sempre há pessoas para fazer esse trabalho. A nível do internamento, do qual faço parte no Hospital de Cascais, acaba por ser um turno mais rotineiro porque não tenho ambulâncias a entrar por ali dentro com pessoas a morrer. Regra geral, passa muito por manter o doente no estado em que está e avisar as famílias, o que não implica que seja igualmente desgastante. 

Houve um crescimento de doentes com Covid-19 após o Natal ou já estava a acontecer nos dias anteriores?
No internamento, verificou-se um crescimento exponencial, mas aqui [Hospital de São Francisco Xavier] notou-se muito mais. Os casos aumentaram após essa época, mas também porque houve mais testes depois do Natal. Quanto mais testes realizados, mais resultados. No Natal, talvez as pessoas tenham esquecido um pouco que existia Covid e a propagação do vírus. Foi do género: “Que se lixe. Vamos estar com a família, vai tudo correr bem.” Esqueceram que nem tudo corre bem e que podemos estar infetados sem sabermos. Este é o perigo de estar com as pessoas. Nota-se muito nos idosos, que ficam muito mais vezes infetados, e na população mais jovem que é menos assintomática mas que quando é mais assintomática é mais perigosa até. Notou-se imenso na urgência.

Há, efetivamente, mais casos de infeção em jovens neste momento?
Sim, há mais casos, mas continuamos a ter também muitos velhinhos. Os surtos nos lares são horríveis e, como têm mais morbidades, ficam muito dependentes e quase sempre acaba num desfecho menos favorável.

Houve algum dia ou momento que a tenha marcado mais durante esta pandemia?
No internamento de Cascais, acontece muitas vezes quando são pessoas mais novas que acabam por ter de ser ventiladas na medicina para depois descerem para a unidade e sabemos que acabaram por falecer. Às vezes, se não fosse a pandemia e tivéssemos mais recursos humanos e, consequentemente, mais tempo para olhar para aquele doente, evitaríamos que chegasse a um estado tão mau e morresse. Isso, como de certa forma acabamos por viver a desgraça dos nossos doentes — passo muito tempo no hospital e vivo mais a vida dos meus doentes e menos a minha —, sendo o que marca mais. Acabo por ir para a casa a pensar nisso e no que podia ter feito de diferente para aquela vida existir ainda, inclusive se houvesse mais recursos. 

“Quando temos de retirar o ventilador a alguém e essa pessoa acaba por morrer (…) ficamos sempre com um peso e remorsos”

E na urgência do Hospital São Francisco Xavier?
É tudo tão rápido que nem temos tempo para assimilar essas coisas. Mas é claro que quando temos de retirar o ventilador a alguém e essa pessoa acaba por morrer, aquela escolha entre a quem vamos aplicar uma terapêutica e a quem não vamos porque não há recursos — porque existe uma escolha —, ficamos sempre com um peso e remorsos. Saímos daqui a pensar que não é suficiente o que fazemos, mas que é tudo o que está ao nosso alcance. Neste momento, faz-se medicina de catástrofe. Se as pessoas tivessem mais noção disso, ficavam em casa. Ficar em casa é tão simples, enquanto vir para aqui não. É esgotante. Escolhemos muitas vezes quem recebe o quê. 

Quem vive e quem morre?
Sim, é mesmo. É verdade.

Qual é o estado psicológico dos profissionais de saúde?
Estamos esgotados. Mas todos os dias estamos aqui porque achamos que há mais alguém que podemos salvar, mais alguma coisa que podemos fazer e acho que no fundo sentimos: “Está um lindo dia para salvar vidas. Vamos lá.” Na realidade, as nossas vidas estão todas em stand by porque não conseguimos prever quando vamos ter uma vida normal outra vez ou se o normal vai voltar a existir, e a nível psicológico é difícil estar aqui todos os dias, mas é o que gostamos de fazer.

Gostava de deixar algum apelo?
Ao governo peço que acabem com esta lei de não permitir mobilidade de enfermeiros entre sítios. Nós não vamos deixar de exercer, nem deixar de praticar a nossa função, vamos simplesmente estar a fazê-lo noutro sítio. Isto já é complicado psicologicamente e fica ainda mais difícil se estivermos a trabalhar contrariados. Que é isso que acontece comigo e com muitas outras pessoas que querem trabalhar noutros sítios. Esta é uma altura em que é mais fácil conseguir trabalho onde queremos e há muita gente aqui de outras partes do País que sabe de oportunidades de trabalho incríveis e não pode ir atrás delas porque estão agarradas a estes sítios. 

E aos portugueses, quer deixar alguma palavra?
Sim, uma coisa simples: ficar em casa. Sabemos que custa porque não nos permite ter a nossa vida normalmente, mas ninguém tem. Nós não temos. Se eu pudesse ficar em casa, ficava. Peço que cumpram as regras de etiqueta respiratória, para se manterem em casa e fazerem coisas divertidas em casa. É a única forma que temos de controlar isto.

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