Saúde

O lado negro do turismo dentário: “Acabam por perder inúmeros dentes, se não todos”

São casos em que "o barato sai caro". A NiT falou com dois dentistas que descrevem os perigos dos serviços na Turquia.
Todos querem um sorriso branco e alinhado.

A hashtag #TurkishTeeth parece estar por todo o lado nos feeds das redes sociais. A expressão serve de porta de entrada para um tipo de turismo diferente. Têm sido as palavras usadas para aliciar jovens e adultos portugueses a viajarem para a Turquia com a promessa de um sorriso branco e alinhado.

Muitas vezes, os pacientes apresentam apenas problemas menores, que ficariam resolvidos com um branqueamento ou aparelho. Nas clínicas turcas são tratados com procedimentos invasivos que tendem a correr mal. Os resultados são artificiais e “terríveis de descrever”. E, no final, muitos pacientes acabam a desenvolver infeções e outros problemas graves.

Basta uma pesquisa rápida nas redes sociais para encontrarmos milhares de vídeos com testemunhos sobre o tema. Ao abrirmos um percebemos o esquema. É oferecido um pacote turístico completo, com viagens, estadia, refeições e um tratamento dentário que promete “um sorriso perfeito, em tempo recorde e a preços baixos”. Tudo por cerca de seis mil euros. Ora, tendo em conta que em Portugal colocar implantes na boca toda pode custar, em média, entre 10 e 12 mil euros, à primeira vista parece compensar.

Os tratamentos incluídos são, normalmente, os implantes e as facetas dentárias. Os primeiros são pequenas peças constituídas por um componente metálico com um revestimento próprio, colocado no osso da maxila ou da mandíbula, e vai substituir a raiz do dente. O implante serve para colocar uma coroa e são usados para substituir um dente que teve de ser extraído.

As facetas são dos tratamentos mais populares. Trata-se de capas colocadas sobre a superfície externa de alguns dentes — regra geral os mais visíveis, como os incisivos ou os caninos. O intuito é atenuar eventuais defeitos e recriar a aparência natural. Porém, para serem colocadas, os dentes naturais têm de ser desgastados, para a coroa depois encaixar.

O que acontece na Turquia é que os profissionais que atendem os turistas acabam por ou desgastar demasiado a dentição, e podem até extraí-la na íntegra, sendo substituída por implantes. Isto implica procedimentos muito invasivos e, no final, acabam por ficar com um sorriso muito artificial. Em alguns vídeos partilhados no TikTok é possível perceber que os pacientes ficam com um género de placa, toda unida, com um branco fluorescente, pouco natural.

Quem, na ilusão de um sorriso perfeito, recorre a estes serviços, acaba envolvido em verdadeiras histórias de terror. A NiT falou com dois dentistas, que nos revelaram que existem cada vez mais casos de pacientes com o sorriso arruinado devido aos “turkish teeth” (em português dentes turcos).

“Já tive pelo menos quatro doentes que queriam que eu os ajudasse a voltar ao sorriso que tinham antes de ir para a Turquia. E não é só estético. Muitos acabam com problemas sérios porque os dentes foram todos trocados por implantes ou facetas”, admite Pedro Ferreira Lopes, dentista da Prime Dental Clinic. Já Pedro Cosme, da Malo Clinic, garante que perdeu a conta à quantidade de pessoas que atendeu na mesma situação.

“Não consigo uma contabilização exata, até porque provavelmente por vergonha, muitos não revelam onde se trataram, mas temos tido vários casos e o número tem claramente tendência a aumentar”, refere.

Os lesados têm, por norma, entre 25 e os 45 anos e têm sido aliciados, através das redes sociais, para o turismo dentário. Normalmente é-lhes oferecido um pacote que envolve a viagem de ida e volta para a Turquia, a fim de colocarem implantes, ou facetas. Todas as despesas estão incluídas e o custo é de cerca de 6 mil euros. “Muitos acreditam que vão conseguir um tratamento igual ao que conseguiriam em Portugal, mais rápido e muito mais barato.”

O pesadelo turco

Assim que lá chegam, são encaminhados para as clínicas, onde são realizados “tratamentos extremamente agressivos, para colocação de implantes, que não eram necessários inicialmente”. Quando veem o resultado, muitos ficam aterrorizados e até envergonhados, porque acabaram “enganados”.

“Os dentes são geralmente muito mais cortados do que seria necessário para colocar coroas e próteses cerâmicas, o que acaba por afetar o nervo e criar infeções. A única solução acaba por ser desvitalizar ou extrair”, revela Pedro Cosme.

As condições em que os procedimentos são feitos, como é possível ver nos vídeos, deixam “muito a desejar.” “Além disso, são usados materiais de má qualidade, como implantes, cerâmicas ou resinas usadas em restauração, que acabam por durar muito menos tempo do que deviam e criar infeções ósseas ou dentárias.”

Pedro Cosme põe em causa a decisão, no sentido em que a maioria tinha apenas um sorriso mais amarelado, ou um pouco torto. Detalhes tratados com tratamentos minimamente invasivos. “No final acabaram por perder inúmeros dentes, se não todos”, adianta o dentista da Malo Clinic.

Para o especialista em medicina dentária da Prime Dental Clinic, dos quatro doentes que atendeu nesta situação, só um é que estava numa situação de possível “salvamento”. “Um jovem português, com 33 anos, procurou este serviço porque queria um sorriso branco e alinhado e foi-lhe prometido um resultado rápido e barato. Acabou com os dentes todos desgastados para colocarem coroas de qualidade duvidosa e os posteriores pareciam pequenos cubos. O dinheiro que gastou para o primeiro tratamento e nas viagens consecutivas para inverter o resultado, deixou-o sem forma de pagar uma recuperação cá.”

Porém, o pior caso, para Pedro Ferreira Lopes, foi uma senhora a quem tinha sido prometido a colocação “de implantes e dentes fixos nos mesmos”. Quando aterrou em Portugal tinha apenas as próteses. “Foi impossível reabilitar a situação como ela queria”, explica.

Mesmo após tratados, os turkish teeth acabam por ter um impacto “devastador” que se prolonga para o resto da vida. “Podem desenvolver infeções repetidas e problemas de mastigação e fala pela perda de dentes.” E há até quem tenha de ser internado, devido à gravidade dos abcessos.

“Estamos a falar de situações em que os dentes inicialmente eram bons ou razoáveis, ou seja, com tratamentos adequados poderiam manter-se na boca por muitos anos. Com isto vão precisar de tratamentos extensos, agressivos, caros e com necessidade de manutenção para o resto da vida”, alerta Pedro Cosme.

A Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) está consciente do problema e emitiu em outubro deste ano um comunicado a alertar para as práticas. “Em abril a Entidade Reguladora da Saúde (ERS) identificaram em flagrante um profissional não habilitado a aliciar doentes num hotel no Porto para realizarem tratamentos médicos dentários na Turquia”, adianta a OMD.

Na atura recolheram indícios de “prática de cuidados de saúde por profissional não habilitado”, “participados ao Ministério Público”. A ordem soube da atividade através das redes sociais, onde surgem milhares de publicações no Facebook e TikTok referentes ao fenómeno.

@carlos_aleluia

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