Saúde

O mistério insondável da humanidade: afinal, porque é que bocejamos?

Teorias há muitas. Respostas é que nem por isso. Só sabemos que é muito, mesmo muito contagioso.
Provavelmente está a bocejar neste preciso momento

Bocejar. O simples mencionar da palavra é capaz de induzir um par de bocejos. São altamente contagiosos e surgem inexplicavelmente a qualquer hora do dia. Apesar de ser um fenómeno comum, a ciência continua a ter muitas dificuldades em explicá-lo.

É um reflexo que surge associado a algumas situações. Bocejamos quando estamos cansados, por vezes quando temos febre e até quando estamos sob stress. Até aqui, os diversos estudos feitos por investigadores são unânimes. Mas é também a partir daqui que o enigma se torna mais misterioso.

Ver alguém a bocejar é suficiente para provocar uma reação semelhante. Em certos casos, o simples som serve de gatilho. E ver uma foto ou pensar sequer no fenómeno, pode ter um resultado semelhante.

Dada a incerteza, ao longo das décadas foram sendo formuladas muitas teorias sobre qual a origem e, mais importante, qual o propósito dos bocejos.

“Há tanta coisa que os provoca. Os paraquedistas afirmam que tendem a bocejar antes de um salto. Polícias garantem que tendem a bocejar antes de avançarem para uma situação complicada”, explica ao “The New York Times” Adrian Guggisberg, professor de neurociência da Universidade de Genebra. 

“A resposta real é que, até ao momento, não sabemos porque é que bocejamos. Não há qualquer efeito fisiológico observável e por isso especulamos. É possível que bocejar não tenha qualquer efeito.”

Muitos especulam que o ato de abrir a boca, inspirar ar e expirar rapidamente, associado à sua natureza contagiante, não é mais do que uma forma de comunicação primitiva entre humanos e animais — porque o bocejo é comum a todos. Poderá ser uma forma de comportamento sincronizado e, portanto, uma espécie de tique evolutivo sem grande utilidade na idade moderna. Outros vão mais longe na explicação.

Em tempos, acreditou-se que a associação à respiração, poderia indiciar um mecanismo para encher os pulmões em momentos em que os níveis de oxigénio eram baixos. Hoje, sabe-se que não é esse o caso, até porque os fetos também bocejam — e no interior líquido do útero, os pulmões não estão sequer ventilados. 

Outra teoria aponta para o bocejo como uma forma de arrefecer o cérebro, de forma a “promover o estado de alerta”, nota o professor de psicologia Andrew Gallup ao “The New York Times”, especialista na matéria. 

Bocejar aumenta o fluxo de sangue ao crânio, o que pode ter várias funções ou interpretações. “Quando a nossa temperatura corporal aumenta, sentimo-nos mais cansados e com sono, o que pode explicar os bocejos de final de noite, de forma a “combater a tendência para adormecer” e “manter-nos alerta”.

Estudos mais recentes revelam que, em ratos de laboratório, a estimulação de uma região específica do hipotálamo no cérebro provocava bocejos nos animais. E nessa zona produz-se a ocitocina, uma hormona que, quando injetada em partes específicas do cérebro, provocava igualmente bocejos.

Concluiu-se também que os pacientes de Parkinson tendem a bocejar muito menos do que outras pessoas — um reflexo associado aos habituais níveis baixos de dopamina destes pacientes. Outra hormona, o cortisol, tem a capacidade de provocar bocejos. Tudo isto aponta para uma relação íntima com a empatia, stress e consequentes libertações de dopamina. 

Infelizmente, apesar de todas as teorias, ainda não foi possível encontrar a resposta à pergunta do milhão de euros: porque é que bocejamos? Por enquanto, temos que nos ficar pela explicação mais simples: porque sim.

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