Saúde

O miúdo sem pernas nem braços que dizia que vinha de Marte e que é um exemplo de vida

Paulo Azevedo tem novo livro com histórias dos seus “heróis reais”.
Créditos: Mário Santos/Contraponto

Estamos a 29 de outubro de 1981, na Maternidade Dr. Bissaya Barreto, em Coimbra. Ainda antes do segundo raio-x no oitavo mês de gravidez, uma adolescente entra em trabalho de parto. O médico que acompanha o parto não esconde o momento de choque quando o bebé que nasce surge sem mãos nem pernas. Nunca ali se tinha visto nada assim.

O tal médico precisa de sair por momentos, de chorar e respirar fundo, antes de voltar a estar com a mãe da criança, já com as palavras certas. Nada nesta situação é simples: o parto é aquele momento da realidade que vai tratar de testar os sonhos dos meses anteriores. Neste caso, há sonhos quebrados num simples instante. Aquela mãe, ainda jovem, prepara-se para o futuro com uma frase: “Podia ser pior”.

Esta é uma das histórias de Paulo Azevedo em “Não há Impossíveis”, livro em que andou a trabalhar durante o tempo de confinamento com Paulo M. Morais. Paulo Azevedo é já figura conhecida, entre palestras que deu e reportagens que sobre ele se fizeram ao longo dos anos. É também um exemplo de vida — um que nos lembra que há limites e depois há o que tentamos fazer com eles.

Há um lado de comunicador natural no Paulo que vem rapidamente ao de cima na conversa com a NiT. “Como já deves ter reparado, sou muito falador”, diz-nos. Esse lado é hoje algo profissional, em palestras que até já o levaram ao balneário do Real Madrid (nos tempos de José Mourinho, Pepe e Cristiano Ronaldo; mas já lá vamos). Mas é uma característica que estava lá desde cedo.

Com uma limitação tão notória, a vida de Paulo poderia ter sido bem diferente. O mundo à sua volta foi por isso essencial. “primeiro há um choque, depois a aceitação e o assumir um compromisso, que era o de me dar o máximo de conforto. Mas há algo muito importante que a minha família e os meus amigos me deram: deixaram que fosse eu a arriscar”. Arriscar, muitas vezes, implica falhar. “Mas na vida não se ganha sempre, não nos dizem sempre que sim”. Essa lição ficou.

No livro, as histórias de Paulo são acima de tudo histórias de outros. Dos que o acompanharam na vida e daqueles com quem se cruzou. “Sou um mero peão, os outros é que me constroem”, conta-nos. Não por acaso chama-lhes “heróis reais”.

Enquanto crescia, descobriu também que era o tipo de miúdo com piada. Podia não conseguir correr como os outros mas não se escondia. “Eu brincava: dizia que vinha de Marte, que tinha as unhas encravadas, nas aulas brincava com os professores quando diziam que era preciso levantar o braço para falar”. Esse lado de humor foi algo importante — para o próprio, sim, mas também para os outros. Com o tempo, juntou também isso ao à vontade de abordar as pessoas que o olhavam com estranheza e explicar as coisas.

“Agora já não vejo os olhares como algo mau”, explica. “As pessoas iam para casa percebendo que eu não era um coitadinho, e sorriam porque percebiam que eu era feliz”. O que não quer dizer que não continue a passar por algumas situações caricatas.

“Às vezes as autoridades quando me mandam parar de carro ainda têm aquele choque”, conta a rir. Certa vez, precisou de ir às urgências às três da manhã. Pegou no carro e lá foi sozinho. Quando o médico o viu disse-lhe logo : “olhe que você devia vir acompanhado” “Há aí uma rapaz que não tem pernas mas esse consegue fazer tudo, agora, você, não sei”. A enfermeira ali ao lado é que o aviso: “mas doutor, esse rapaz é este”. “Ah, então pronto”, respondeu o médico já descansado.

Mesmo com todo este apoio e o seu bom humor, Paulo acredita que dificilmente teria chegado aonde chegou sem o seu próprio lado de luta, um que já lá estava quando com apenas quatro anos enfrentava as dores para arriscar equilibrar-se nas próteses. “Às vezes tens as ferramentas todas para atingir o sucesso mas não usas porque não queres. Aí dou o mérito também a mim próprio. Sempre soube que era diferente mas podia ter as bases todas e optar por desistir”. Não o fez. Mesmo quando isso o obrigou a ter que insistir.

Créditos: Mário Santos/Contraponto

Lições para a vida

Quando tirou o curso de treinadores, pediu para fazer estágio nos três grandes do futebol nacional mas quase por acaso surgiu na altura a possibilidade de fazerem chegar um email seu a José Mourinho, O email foi enviado e três dias depois a resposta chegou, pelo próprio Mourinho, a convidá-lo para ir lá. O treinador português prontificava-se até a pagar a viagem. “E eu fui, claro”, conta.

“Na altura disse-lhe: sabe, mister, gostava de vir para aqui [Madrid] a conduzir de carro mas tenho carta há pouco tempo, para mim deve ser impossível”, recorda. “Sabes o que é que ele fez? Cancelou o meu estágio e mandou-me embora. Disse que só aceitava o meu estágio quando fosse de carro para lá”.

Paulo assim fez e lá voltou a Madrid de carro. “Quando estacionei, ele estava à minha espera com o Rui Faria e disse: ‘olha, Paulo, o teu pior inimigo és tu. Porque és tu que constróis as tuas barreiras’. E eu percebi que ele tinha razão”.

As palestras no Real Madrid foram uma curiosa surpresa: à sua frente estava uma equipa de futebolistas mundialmente conhecidos. “Comecei a falar para os jogadores e percebi algo muito importante: a grandeza não está no clube ou no dinheiro, está no coração das pessoas”.

Aquele lado humano reencontrou mais tarde quando passou pelo Belenense e pela Académica. Perseguir sonhos é algo que se mantém independentemente da camisola do clube. “Eles [os jogadores] são todos iguais, o que muda é o parque de estacionamento”.

Mourinho voltaria a surgir na sua vida mais recentemente. É dele o prefácio para este “Não há Impossíveis” (15,5€). O livro da Contraponto já está à venda nas livrarias. Além de palestras, Paulo Azevedo mantém a sua ligação ao desporto e à ficção. Foi ele o primeiro ator com deficiências na ficção televisiva portuguesa, na novela “Podia Acabar o Mundo”. Apenas mais uma das conquistas de alguém que sabe que não começou no mesmo patamar que os restantes. E que ainda assim não deixou de fazer o seu caminho.

Já está à venda.

 

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