Saúde

“O principal risco de uma gravidez de gémeos é a prematuridade” — e pode ser dramática

Em mais de metade das gestações gemelares os bebés nascem antes do termo. Os filhos de Gio e Ronaldo terão nascido às 37 semanas.
Os riscos de uma gravidez de gémeos.

Cristiano Ronaldo e Georgina Rodríguez anunciaram na passada segunda-feira que perderam um dos gémeos que estavam à espera. O craque português comunicou através das redes sociais o falecimento de um dos bebés durante o parto. Ainda não foram divulgados mais pormenores sobre o que poderá ter levado a este desfecho trágico. Porém, poderá estar relacionado com os riscos associados a uma gravidez gemelar.

Partindo do princípio que na data de anúncio da gravidez dos gémeos, Georgina Rodriguez estaria de, pelo menos, 12 semanas, (ou seja, no final do primeiro trimestre, altura em que é habitual tornar público o estado de graça). Considerando a data em que a trágica notícia foi conhecida é possível concluir que os gémeos terão nascido por volta das 37 semanas. Porém, Gio não revelou detalhes sobre o desenrolar da gestação.

Segundo a obstetra Mariana Torres, a morte de um dos gémeos durante o parto “é algo incomum, principalmente em países com um bom acesso a cuidados de saúde, mas é mais frequente do que numa gravidez com apenas um bebé“.

A probabilidade de complicações quer para a mãe quer para os bebés é mais elevada numa gestação de gémeos. “O principal risco é a prematuridade, ou seja, nascerem muito antes do tempo, o que pode levar a dificuldades no imediato e no futuro”, explica a especialista em obstetrícia.

“Outros motivos de preocupação são a restrição do crescimento dos bebés e, em gémeos que partilham a placenta, a síndrome da transfusão feto-fetal. Nesta patologia existe um desequilíbrio na distribuição do fluxo sanguíneo entre os fetos o que aumenta o risco de complicações”. 

“As gestações gemelares de gémeos dicoriónicos (ou seja, com dois sacos amnióticos e duas placentas, como no caso dos bébes de Ronaldo) a taxa de natimortalidade é cinco vezes mais elevada em comparação com gestações únicas”, indica um estudo publicado na revista médica “BMJ”.

A diabetes gestacional e pré-eclâmpsia, são outros dos maiores receios de uma grávida, situações que podem representar sérios riscos — que aumentam substancialmente no caso de uma gravidez múltipla.

“Por tudo isto, há uma preocupação no mundo da obstetrícia em diminuir as gravidezes de gémeos decorrentes de processos de procriação medicamente assistida (que correspondem a um terço das gravidezes gemelares). Antigamente fazia-se a transferência de mais do que um embrião com maior frequência”, admite a obstetra. 

Aborto espontâneo e vanishing twin

Segundo Mariana Torres, “não é incomum no início da gravidez visualizarmos uma gravidez gemelar e a certa altura no primeiro trimestre apenas um dos bebés continuar a crescer”. Esta situação é conhecida como “vanishing twin” e pode acontecer até num terço dos casos de gravidezes inicialmente gemelares.

“Nestas situações, a maioria das vezes a gravidez continua normalmente, mas apenas com um bebé”, acrescenta. Também pode acontecer a morte de um dos bebés mais tarde na gravidez, mas é mais raro, principalmente quando existem duas placentas.

Um dos fetos pode crescer mais do que o outro durante a gestação. A obstetra diz à NiT que é “comum e é uma das coisas a que estamos [profissionais] mais atentos numa gravidez gemelar. Nesses casos temos que fazer uma vigilância ainda mais apertada do bem-estar dos bebés”. “As situações mais graves costumam ser quando existe apenas uma placenta (em vez de duas) mas qualquer tipo de gémeos tem esse risco de restrição de crescimento”.

A estimativa ecográfica do peso dos bebés utiliza as medidas do perímetro cefálico, perímetro abdominal e comprimento do fémur. “Existem várias fórmulas matemáticas para o fazer e diversas tabelas para calcular o percentil, no entanto, a mais utilizada é a Hadlock”, explica a médica.

“Se chegarmos à conclusão que um ou os dois bebés estão a crescer menos do que seria esperado, temos que ir vigiando os sinais de bem-estar para percebermos se em algum momento é mais vantajoso acontecer o parto do que continuar a gravidez”, revela. Os gémeos com restrição de crescimento têm uma maior probabilidade de morte intrauterina do que os bebés com crescimento normal. “A cada momento temos que pôr na balança esse risco com o risco de nascer prematuro”, sublinha.

Parto vaginal ou cesariana

Apesar de muitas vezes se pensar o contrário, o parto vaginal é possível no caso de gémeos. Segundo a especialista “é mais provável ser necessária uma cesariana numa gravidez gemelar do que numa gravidez simples. Porém, continua a ser viável, numa grande parte dos casos, o parto acontecer por via vaginal”. A cesariana acontece, por exemplo, “quando o primeiro gémeo (o que está mais próximo do colo do útero) não está de cabeça para baixo ou quando ambos estão dentro da mesma bolsa (em vez de em bolsas separadas)”.

Em relação aos riscos, além dos mais comuns, associados à anestesia e a um maior risco de infeção, hemorragia ou tromboembolismo venoso, a médica indica à NiT que “no caso específico da gravidez gemelar, a principal preocupação numa cesariana é o risco de hemorragia pós-parto. Neste tipo de gestação, como o útero ficou tão distendido, tem uma dificuldade extra em contrair depois do parto para manter a perda de sangue controlada”.

Também pode acontecer que um dos gémeos nasça de “forma natural” e outro por cirurgia. Mariana Torres diz que “não é incomum. Acontece em quatro a 10 por cento dos partos planeados para serem vaginais”. Os principais motivos são o estado do segundo gémeo não ser tranquilizador, acontecer o prolapso do cordão umbilical ou o segundo gémeo ficar mal posicionado.

“O acompanhamento do parto gemelar é semelhante ao acompanhamento numa gravidez simples, fazendo a vigilância do bem-estar da grávida, dos batimentos cardíacos dos bebés e da evolução do trabalho de parto”. Nesse sentido, as complicações que podem ocorrer são as mesmas que numa gravidez simples, ainda que sejam mais prováveis nas gemelares. “Preocupa-nos, por exemplo, o prolapso do cordão e o descolamento da placenta que levam à necessidade de uma cesariana de emergência”, refere Mariana Torres.

 

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