Saúde

O que é o hantavírus, a doença que levou à morte de três turistas num cruzeiro?

Armazéns, espaços pouco ventilados ou locais onde haja acumulação de poeiras contaminadas são cenários de maior risco.

A morte de três passageiros a bordo de um cruzeiro que atravessava o Atlântico, em direção a Cabo Verde, voltou a colocar o hantavírus no centro das atenções. Outros três passageiros também podem estar infetados, revelou a Organização Mundial da Saúde (OMS) este domingo, 3 de maio.

O surto está a gerar preocupação entre turistas, sobretudo por se tratar de uma doença pouco comum, mas potencialmente grave em determinados contextos. Apesar do alarme, os especialistas sublinham que não se trata de uma doença nova. 

A infeção humana acontece de forma acidental. Segundo o que o infecciologista João Ribeiro explica à NiT, o vírus está normalmente presente em roedores — especialmente ratos — que o eliminam através da urina, fezes e saliva. Quando estas partículas secam, podem transformar-se em poeiras microscópicas que ficam suspensas no ar. “Ficam em partículas pequeníssimas e nós inalamos. O pulmão é o primeiro órgão a entrar em contacto”, diz.

Os sintomas iniciais podem passar despercebidos, já que são semelhantes aos de uma gripe comum. Febre, dores no corpo, dores de cabeça e mal-estar geral são os sinais mais frequentes numa primeira fase. No entanto, pode evoluir para quadros mais graves, dependendo do tipo de vírus e da resposta do organismo.

Na Europa e na Ásia, são mais comuns as formas associadas a febres hemorrágicas, que afetam o sangue e os rins e podem provocar hemorragias difíceis de controlar. Já na América do Sul predominam formas que atingem o sistema respiratório e podem causar inflamações pulmonares graves.

Apesar do potencial de gravidade, a maioria dos casos é ligeira e resolve-se sem complicações. Ainda assim, há grupos mais vulneráveis — como pessoas mais velhas — que podem desenvolver sintomas mais severos. Foi precisamente isso que levou às três mortes no cruzeiro.

“O que acontece é semelhante ao que vimos na Covid-19. A maioria recupera bem, mas há uma pequena percentagem em que a doença evolui de forma mais grave, muitas vezes devido a fatores como a idade ou outras condições de saúde”, explica João Ribeiro.

A transmissão está fortemente associada a ambientes fechados e à presença de roedores infetados. Armazéns, espaços pouco ventilados ou locais onde haja acumulação de poeiras contaminadas são cenários de maior risco. “Em espaços abertos, o risco é muito menor porque as partículas dispersam-se”, acrescenta.

Em termos de incidência, o hantavírus continua a ser raro, sobretudo na Europa. Os números apontam para entre 0,4 a 1 caso por cada 100 mil habitantes. Ainda assim, a taxa de mortalidade pode ser significativa nas formas mais graves, especialmente nas que afetam o sistema respiratório, podendo atingir os 30 a 40 por cento.

Não existe, até ao momento, um tratamento específico dirigido ao vírus. A abordagem médica passa sobretudo por aliviar os sintomas e apoiar o organismo durante a recuperação. Nos casos ligeiros, isso pode significar apenas medicação para a febre e dor. “Nos casos mais simples, resolve-se sozinho”, realça. Já nas situações mais graves, pode ser necessário internamento nos cuidados intensivos.

Quanto a sequelas, tudo depende da gravidade da infeção. A maioria das pessoas recupera totalmente, mas nas infeções em que há um envolvimento pulmonar significativo podem ficar cicatrizes que afetam a capacidade respiratória a longo prazo.

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