Saúde

O que é um pneumotórax, o problema que pôs Constança Braddell nos cuidados intensivos?

Nota da redação: este artigo da NiT foi publicado antes da morte de Constança Braddell, que ocorreu no domingo, 11 de julho. A causa oficial da sua morte ainda não foi revelada.
Doença da jovem é fator de risco.

Constança Braddell, a jovem de 24 anos que deixou todo um País a torcer pelo seu tratamento contra a fibrose quística, encontra-se internada nos cuidados intensivos.

Foi a própria família da jovem que revelou a situação no sábado, 3 de julho, numa publicação no Instagram, que revelava que, uma semana e meia antes, a jovem dera entrada nos cuidados intensivos, onde permanecia.

Já na segunda-feira, 5 de julho, Vera Marques, irmã da jovem, explicou à antena da “CMTV” que na origem do problema que a levou aos intensivos terá estado um pneumotórax. “Começou com um pneumotórax, depois terá havido um agravamento do quadro clínico. Porém, ainda estão a ser apuradas as causas, que não podem ser atribuídas somente à fibrose quística. O prognóstico é grave e pouco esclarecedor. A equipa está a fazer o melhor possível”, adiantou.

A NiT procurou saber o que está em causa quando falamos de um pneumotórax. Rui Algarvio, especialista em medicina geral, explica-nos que este problema médico pode ser dividido entre espontâneo e adquirido.

No caso do adquirido, “normalmente vem na sequência de um trauma, a pessoa tem um acidente de viação por exemplo”. Já o espontâneo “é quando não existe uma causa externa.”

Este segundo tipo de pneumotórax, ainda se pode dividir em primário ou secundário. “O primário é quando não temos uma causa, patologia pulmonar que explique aquela situação”. Aqui não há uma explicação mas há alguns fatores de risco que têm vindo a ser identificados, como o facto de se ser homem, alto, magro e fumador.

“Quando é um pneumotórax secundário já existe uma causa e é secundária a uma doença do pulmão. Aqui poderá ser uma doença pulmonar obstrutiva crónica, por exemplo, ou mesmo fibrose quística”. São outro tipo de patologias que podem fragilizar a pessoa, aumentando a probabilidade de esta vir a desenvolver um pneumotórax.

O que isto quer dizer é que a fibrose quística em si não é a razão solitária para provocar um pneumotórax. Na verdade, pode haver diferentes fatores. O que está em causa é que o risco de alguém que sofre desta doença é maior de sofrer deste colapso pulmonar do que uma pessoa saudável.

No limite, um pneumotórax pode mesmo ser mortal. Felizmente, quando tratado a tempo “o prognóstico é excelente”, realça o médico Rui Algarvio. E há vários sintomas que podem ajudar a identificar o problema.

Entre os sintomas pode estar uma maior dificuldade respiratória, com sensação de falta de ar, tosse e o aumento dos batimentos cardíacos. Mas o sintoma que ajuda muitas vezes a servir de alerta é a dor.

Normalmente é uma dor súbita que chama a atenção. Não é uma dor generalizada no tórax mas localizada. “Como é algo que costuma ser muito súbito, as pessoas apercebem-se e costumam ser atendidas a tempo”, salienta o médico.

O que acontece?

O pulmão está revestido por uma membrana, a pleura. Na verdade, “são duas, a pleura visceral e a pleura parietal, que estão coladinhas uma à outra. Entre elas não é suposto haver nada”, explica Rui Algarvio.

No pneumotórax geralmente existe “uma rutura de uma destas membranas e o ar que está dentro do pulmão vai passar para a cavidade pleural, onde não era suposto haver nada”. “A pressão dentro do pulmão é grande, ao haver aquela ruptura há uma válvula de escape e a pressão costuma ir para ali”, daí os sintomas serem súbitos.

Um dos desafios que a progressão da fibrose quística traz, é precisamente o desenvolvimento de complicações pulmonares, nomeadamente infeções. A acumulação de muco espesso no interior dos pulmões é, aliás, uma das características da doença. O medicamento Kaftrio intervém precisamente nesta área, tentando levar a que o muco fique menos espesso, facilitando a respiração.

Recorde-se que foi no início de março que o País soube da história de Constança Braddell. No espaço de um mês, o País uniu-se a e contribuiu para que a jovem recebesse o tal medicamento inovador, que tinha dado bons sinais em ensaios clínicos. A jovem chegou a dar conta das suas melhorias após um mês a tomar o medicamento

O Kaftrio é milagroso mas não podemos abandonar toda a rotina que tínhamos até então. Existirão sempre altos e baixos, o importante é não desistir”, escreveu a jovem na altura em que fez um mês que já tomava o medicamento

No entanto, um dos desafios numa doença progressiva é precisamente a resposta mais adequada poder estar a ser dada apenas numa fase já mais avançada da doença.

No caso da fibrose quística, há o risco de certos problemas de saúde trazerem sequelas, que por sua vez podem contribuir para o agravamento da doença. O problema é crónico o que quer dizer que um medicamento por si só é cura. É, no entanto, uma ajuda que pode ser decisiva. Nesta fase, a jovem Constança Braddell trava nova luta. Não é, no entanto, a única.

A Associação Nacional de Fibrose Quística, que se empenhou desde cedo no acesso alargado do Kaftrio, estima que haja cerca de 400 famílias em Portugal que se debatem com esta doença hereditária.

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