Saúde

O que se sabe sobre o ingrediente perigoso encontrado em muitos cosméticos em Portugal?

O Infarmed tem retirado vários produtos do mercado porque incluem esta substância classificada como tóxica para a reprodução.
São vários os cosméticos que têm este componente.

Nos últimos meses há um nome — bastante complexo — que tem deixado algumas empresas revoltadas e os consumidores preocupados. Chama-se butylphenyl methylpropional e é utilizado em cosméticos e produtos de limpeza há muitos anos. Porém, nos últimos meses, o Infarmed tem ordenado a retirada do mercado alguns produtos que contêm este composto químico. Afinal, porque é que este ingrediente faz à saúde? A NiT foi procurar saber.

As semanas que se seguiram à primeira de março foram negras para as empresas cujos produtos foram retirados do mercado. Entre elas destacam-se a Novex — uma marca de cosméticos capilares com muita presença em Portugal — e a Nova Saboaria, que fazia parte da escolha de alguns hotéis, que disponibilizam pequenas amostras desta marca aos seus clientes. Em todos os casos, a nota informativa do Infarmed explica que desde o dia 1 de março de 2022 que não podem ser comercializados nem disponibilizados ao consumidor produtos cosméticos que tenham na sua composição butylphenyl methylpropional ou piritiona de zinco, substâncias classificadas pela União Europeia como cancerígenas, mutagénicas ou tóxicas para a reprodução.

“A Comissão Europeia tem 26 substâncias identificadas como suscetíveis de causarem alergias”, avisa o dermatologista Luís Uva. “Os cosméticos que as incluem devem ser evitados por pessoas com pele sensível, tendência para alergias e crianças até aos três anos”, alerta a Deco Proteste. Uma destas é o butylphenyl methylpropional. Segundo o Comité Científico da Segurança dos Consumidores esta molécula é irritante e não é considerada segura para os consumidores. O seu uso é proibido em toda a Europa desde março de 2022.

Afinal do que se trata este ingrediente?

O butylphenyl methylpropional, também conhecido como Lilial (nome comercial) ou p-BMHCA, é um aldeído aromático, ou seja, uma fragrância sintética. Este é muito utilizada em diferentes tipos de produtos cosméticos e não cosméticos, como detergentes e produtos de limpeza domésticos.

A utilização deste composto químico nas fórmulas de várias fragrâncias, por exemplo, tem sido amplamente estudada pela indústria da perfumaria e os especialistas já haviam expressado algumas preocupações em relação ao uso do mesmo e até definido limite de concentração seguro. As conclusões dos vários estudos realizados ao longo dos anos concluíram que, como composto puro (sem diluição), o Lilial revelou ser irritante para a pele e para os olhos de coelhos, o que mais tarde também se verificou nos humanos. Esta preocupação começou a ser analisada em 1983, onde os investigadores comprovaram o efeito irritante na pele causado por este ingrediente.

Além de alergénico é também considerado cancerígeno. Um estudo publicado em 2009 já expressava os perigos do uso deste ingrediente em cosméticos que seriam aplicados no corpo. A investigação apontava que este composto estimulava as células de estrogénio, o que podia levar ao desenvolvimento de tumores.

A lista de malefícios é enorme. Luís Uva alerta que este ingrediente tem um impacto significativo no genoma, criando alterações que podem ser perigosas. É, por isso, considerado tóxico para a reprodução humana, uma vez que afeta negativamente a fertilidade e o desenvolvimento fetal.

No entanto, o dermatologista sublinha que a exposição contínua e agregada, decorrente da utilização de diferentes tipos de produtos com btylphenyl methylpropional é o que torna este ingrediente perigoso para a saúde. O Comité Científico da Segurança dos Consumidores da Comissão Europeia também expressou a sua preocupação relativamente à presença deste ingrediente em produtos não cosméticos (por exemplo, em produtos de limpeza e detergentes domésticos) que ampliam a exposição ao mesmo.

A melhor prevenção: o rótulo

Tal como acontece com os alimentos, também os produtos cosméticos e de limpeza têm sempre  um rótulo com a sua composição. Por isso, para tentar evitar comprar artigos proibidos, o melhor é sempre olhar para a lista de ingredientes que costuma estar na parte detrás das embalagens. Tanto o pode encontrar com o nome científico butylphenyl methylpropional, ou pelo nome comercial pelo qual também é conhecido Lilial.

A presença desta substância na composição dos cosméticos deve ser indicada na lista de ingredientes quando sua concentração ultrapassa 0,01 por cento nos produtos com enxaguamento e 0,001 por cento nos produtos sem enxaguamento.

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