Saúde

O segredo de Israel para já ter vacinado 16 vezes mais pessoas do que Portugal

Os dois países têm quase a mesma população, mas não podiam ser mais diferentes. Israel lidera o ranking, mas pagou um preço.
Já deram mais de quatro milhões de vacinas

Perto de um milhão de habitantes separam a população israelita da portuguesa. No plano da vacinação, os dois países estão a um mundo de distância. Perto de um mês depois do arranque da vacinação contra a Covid-19, Israel já ultrapassou as quatro milhões de doses administradas. Portugal ainda não atingiu a barreira das 300 mil.

Em números absolutos, Israel está atrás de países como o Reino Unido, China ou Estados Unidos, mas em termos de percentagem da população vacinada, ninguém chega sequer perto: é o líder incontestado do ranking de vacinados por 100 habitantes, com 47,9. Próximo, só mesmo os Emirados Árabes Unidos, com 27,1. Portugal fica-se pelos meros 2,6 vacinados por 100 habitantes.

Com a taxa de vacinação mais veloz do mundo, o país do Médio Oriente justifica a eficácia no processo com a sua entrada rápida no processo de compra de vacinas. “Lideramos esta corrida mundial graças à nossa preparação antecipada”, explicou Yuli Edelstein, ministro da saúde.

Nem sempre a resposta foi tão rápida ou bem-sucedida. Israel era, aliás, um país profundamente afetado por surtos da doença, com um registo de infetados e mortos que o colocaram entre os piores do mundo. Tem, aliás, um registo semelhante ao de Portugal, com mais de 600 mil casos registados, apesar de ter menos de metade dos mortos, cerca de 4.500.

“Estamos na liderança por uma larga margem e seremos o primeiro país a livrar-se do coronavírus”, escreveu no Twitter o primeiro-ministro israelita Benjamnin Netanyahu.

O sucesso da vacinação é explicado pelo tamanho pequeno do país e pelo sistema de saúde gerido de forma centralizada pelo estado. Mas há muitos outros países nessas mesmas circunstâncias com registos de vacinação muito piores.

O primeiro-ministro foi o primeiro a ser vacinado

Não é a primeira vez que o primeiro-ministro — nos últimos tempos a braços com casos de corrupção e uma popularidade decrescente devido a resposta à pandemia — se gaba dos contactos pessoais e diretos que tem com as farmacêuticas, sobretudo as que mais doses têm disponibilizado: a Pfizer e a Moderna.

Apesar de alguns relatos de uma vacinação forçada a desacelerar devido à chegada de poucas novas doses, a verdade é que continuam a ser suficientes para manter a liderança. Contudo, Israel recusa-se a divulgar quantas doses comprou — embora se estimem 10 milhões da Pfizer e outros seis da Moderna —, quantas irá ainda receber e, sobretudo, quanto pagou por elas.

Especula-se que o pagamento acima do valor de mercado das vacinas possa ter ajudado a garantir mais doses. Um custo mais elevado é algo com que os israelitas parecem conseguir viver. O ministro da saúde sublinha que se isso permitir que a economia do país reabra uma semana antes do previsto, que qualquer valor pago a mais terá valido a pena.

A Pfizer revelou apenas que cobrou a Israel um “preço em função do volume da compra e da rapidez da entrega”. Declarações de um oficial israelista à “Reuters” desvendaram, contudo, que o país terá pago cerca de 24 euros por dose, o dobro do que foi pago, por exemplo, pela União Europeia.

O cofre das vacinas em Israel

A explicação pode ser um pouco menos transparente. Relatos recentes vindos de Israel falam de um acordo entre governo e farmacêuticas, para tornar o país numa espécie de “teste piloto”. Os detalhes desse acordo parecem colocar em causa a privacidade da própria população.

Israel prometeu à Pfizer que vacinaria a uma velocidade nunca antes vista, por forma a provar que a imunidade de grupo é possível. Pelo caminho, prometeu também dar acesso a “estatísticas de milhões dos seus cidadãos”, revela a “NPR”. “Um país inteiro a participar num enorme estudo de vacinação.”

O contrato, até aqui secreto, acabou por ser parcialmente revelado devido à pressão da opinião pública. Há quem garanta que esta partilha necessita do consentimento dos cidadãos — que não está a ser pedido.

“Israel promete dar à Pfizer apenas dados anónimos. Mas num país tão pequeno, é possível rastrear e identificar pessoas, por exemplo, quem tem HIV numa pequena localidade”, explica o jornalista Daniel Estrin. Outro dado importante é que o acordo permite à Pfizer e a Israel adiar ou alterar as descobertas do estudo antes da publicação.

As páginas reveladas divulgaram alguns dos objetivos, mas os aspetos comerciais do contrato foram apagados antes da divulgação à imprensa.

Polémica tem também sido a abrangência do plano de vacinação. Apesar de o governo ter garantido que judeus e árabes seriam vacinados de igual forma, a exceção não foi aberta ao povo palestiniano, cujos cinco milhões de habitantes nas zonas controladas da Cisjordânia e Gaza permanecem arredados do plano e sem acesso a quaisquer doses.

Organizações de direitos humanos têm avisado Israel que o seu governo é responsável pelas populações sob o seu controlo. O estado recusa essa obrigação e alega que os palestinianos são responsáveis pelo seu próprio sistema de saúde, embora alguns responsáveis tenham já garantido que as doses excedentes poderão ser doadas, mas apenas depois de todos os cidadãos israelitas estarem vacinados.

A Palestina continua sem acesso a vacinas

Polémicas à parte, o caso israelita está no centro das atenções de todos os investigadores, que esperam ver um sinal positivo originado pela vacinação — e que a janela da imunidade de grupo seja finalmente real. A vacinação arrancou a 19 de dezembro e os primeiros dados preliminares começam a ser divulgados. De acordo com os números, as pessoas vacinadas demonstraram ter menos um terço de probabilidade de testar positivo, quando comparadas com pessoas que não tomaram a vacina.

Este é o primeiro conjunto de dados a chegar aos investigadores depois dos ensaios clínicos que anteciparam a produção da vacina da Pfizer. E são promissores: dão uma indicação de que a vacina é mesmo capaz de prevenir a infeção ou limitar a sua duração e severidade nos infetados, revela a “Nature”, que cita dados preliminares divulgados por Israel. 

Uma análise a 200 mil israelitas com idades acima dos 60 anos permitiu perceber que, quando comparados com outros 200 mil não vacinados, a probabilidade de testarem positivo era 33 por cento mais baixa no grupo inoculado, isto duas semanas após a primeira injeção.

Estima-se que 75 por cento da população idosa esteja perto de estar vacinada, pelo que nessa altura deverá ser possível — se os dados se mantiverem corretos — observar uma diminuição significativa no número de hospitalizações.

Outro efeito benéfico será indireto: à medida que mais gente fica protegida, a aceleração da doença é travada e isso protegerá os que ainda não foram vacinados.

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