Todos os anos, morrem cerca de dez milhões de pessoas com cancro. Em Portugal, a estatística ronda os 28 mil pacientes. A doença não afeta só as vítimas, mas, de forma indireta, também as pessoas à sua volta. Faz sentido, então, que estejamos sempre à procura de formas de evitar este desfecho. A genética, a idade, o tabaco, o álcool, o peso, a atividade física e as exposições ambientais são fatores de risco. A alimentação, claro, também faz parte da lista de fatores que podem ditar o futuro.
Da próxima vez que for ao supermercado, há produtos que, segundo os oncologistas, merecem maior atenção: as carnes processadas. Bacon, salsichas, chouriço, salame, presunto e vários tipos de fiambre fazem parte desta categoria, que inclui carnes conservadas através de processos como salga, cura, fermentação ou fumagem.
Os nitritos e nitratos utilizados como conservantes em alguns destes artigos podem contribuir para a formação de compostos N-nitrosos, agentes que danificam o ADN e aumentam o risco de tumores digestivos.
O problema não está apenas no que é acrescentado à carne durante o processo de produção. A forma como alguns alimentos são cozinhados também merece atenção. Quando a carne é submetida a temperaturas muito elevadas, sobretudo quando fica queimada ou em contacto direto com a chama, podem formar-se aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos — compostos químicos tóxicos e potencialmente cancerígenos.
“Não significa que um churrasco ocasional seja um problema. Significa que não devemos fazer da carne carbonizada um hábito”, explica à NiT o oncologista João Vasco Barreira, que trabalha nos hospitais CUF em Cascais e em Santarém.
A carne vermelha, por sua vez, não entra na mesma categoria de carne processada. “Não precisamos de demonizar um bife. Carne de vaca, porco ou borrego pode fazer parte de uma alimentação equilibrada. A questão é quantidade e frequência”, sublinha.
O que também deve evitar sempre é o álcool — e não importa o tipo. “Cerveja, vinho, gin ou whisky: para o risco oncológico interessa o álcool, não a embalagem.” Isto porque o etanol é metabolizado pelo organismo e dá origem ao acetaldeído, um composto capaz de provocar danos no ADN.
A relação entre álcool e cancro está estabelecida para vários tumores. Entre eles estão os da cavidade oral, faringe, laringe, esófago, fígado, cólon, reto e mama. “Para prevenção oncológica, quanto menos álcool, melhor”, resume João Vasco Barreira.
Mas a lista de produtos a deixar mais vezes na prateleira não termina nos enchidos e bebidas alcoólicas. Refrigerantes açucarados, doces, bolachas, pastelaria, snacks e fast food também devem ter uma presença limitada na alimentação habitual. Aqui, contudo, há outra diferença que importa fazer.
“As bolachas, por exemplo, não têm misteriosamente um químico cancerígeno.”
A preocupação está relacionada com o padrão alimentar e com o excesso de calorias, açúcares e gorduras que estes produtos podem representar quando consumidos com frequência. Afinal, o excesso de peso e a obesidade estão associados a um maior risco de pelo menos 13 tipos de cancro.
“Não é o croissant de domingo que me preocupa; é quando o croissant passa a ser segunda, terça, quarta, quinta e sexta.” O mesmo princípio aplica-se aos refrigerantes.
Se o especialista tivesse de fazer um “carrinho de compras menos amigo do cancro”, retirava salsichas, bacon, chouriço, salame e outras carnes processadas. Depois, reduziria a quantidade de carne vermelha, sobretudo quando aparece no prato quase todos os dias, e diminuiria a presença habitual de bebidas alcoólicas, refrigerantes, bolachas, pastelaria, snacks e fast food.
No entanto, a sua próxima ida ao supermercado não deve ser feita apenas a pensar naquilo que tem de ficar na prateleira. Muito pelo contrário: o que leva para casa também é importante. “Prevenir cancro através da alimentação não é apenas retirar coisas. É, sobretudo, acrescentar as certas.”
É aqui que aparecem os cereais integrais, como a aveia, o pão integral e o arroz integral. A fibra assume um papel importante, existindo evidência de que o seu consumo está associado a um menor risco de cancro colorretal.
“Leguminosas tais como feijão, grão, lentilhas, ervilhas” são outras das escolhas apontadas pelo oncologista. Além da fibra, fornecem proteína vegetal e podem ajudar a reduzir a dependência de refeições centradas na carne.
Nos vegetais, não é preciso procurar um alimento com propriedades especiais. “Não precisamos de procurar um vegetal milagroso. Quanto maior a diversidade, melhor.”
Couves, tomate, cenoura e espinafres são alguns dos exemplos que podem fazer parte da alimentação, mas a recomendação passa pelo máximo de variedade possível.
A fruta também entra nesta lógica. Maçãs, frutos vermelhos, citrinos, pera ou kiwi podem fazer parte da alimentação diária, sendo preferível a fruta inteira aos sumos. Ao carrinho pode ainda adicionar frutos secos, como nozes, amêndoas e avelãs, com preferência por versões sem sal ou açúcar adicionados.
Por fim, há uma boa notícia para quem não quer abandonar a alimentação portuguesa. “Azeite, peixe, legumes, leguminosas, fruta e cereais integrais encaixam perfeitamente num padrão alimentar de inspiração mediterrânica”, garante João Vasco Barreira.
Carregue na galeria para conhecer alguns snacks saudáveis que estão à venda no supermercado.








