Saúde

Os fumadores têm corações cerca de 20 anos mais velhos que os não fumadores

Um novo estudo concluiu que o tabagismo pode envelhecer este órgão de forma acentuada e os efeitos não revertem completamente.
Mais um motivo para deixar de fumar.

O tabagismo é um dos hábitos que representam maior risco de desenvolver doenças cardiovasculares, metabólicas, pulmonares e oncológicas — uma correlação que não é propriamente novidade. O tabaco é responsável, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, pela morte de mais de seis milhões de pessoas anualmente em todo o mundo.

Fumar causa também o envelhecimento prematuro do organismo, uma consequência que não tem impacto apenas no aspeto físico. Os cigarros pode ser responsáveis por tornarem o coração 20 anos mais velho que o de um não fumador, de acordo com o estudo “Impact of smoking on cardiovascular risk and premature ageing: Findings from the STANISLAS cohort” realizado por investigadores da Faculdade de Medicina das Universidade do Porto (FMUP) e de Lorraine, em França, e recentemente divulgado.

Os especialistas realizaram exames a mais de 1.500 fumadores, antigos fumadores e pessoas que nunca fumaram. A amostra incluiu pessoas com idades entre os 18 e os 70 anos, sendo que a maior parte eram adultos entre os 40 e os 50. “Este estudo incluiu todos os participantes para os quais as informações sobre hábitos tabágicos estavam disponíveis (1.696 no total)”, lê-se na publicação.

Foram avaliadas a velocidade da onda de pulso, a espessura média-intimal, parâmetros ecocardiográficos e um total de 460 proteínas plasmáticas  plasmáticas circulantes nos organismos. O objetivo era “entender o impacto do tabagismo no coração e nos vasos e biomarcadores circulantes de vários domínios, incluindo danos cardiovasculares, envelhecimento prematuro e vias relacionadas com o cancro”.

Em declarações à agência Lusa e citado pela “SIC Notícias”, João Pedro Ferreira, um dos autores do estudo levado a cabo com cidadãos de Lorraine, explicou que se verificou que “os fumadores, mesmo que tivessem 20 anos, apresentavam uma idade vascular semelhante a uma pessoa de 35 ou 40 anos”. “E tinham uma expressão de proteínas (conhecidas por iniciarem e facilitarem a progressão da lesão aterosclerótica) no sangue que mostrava que tinham uma ativação de vias inflamatórias. Algumas proteínas que estão associadas à ocorrência de alguns cancros estavam ativadas.”

Os investigadores constataram que, apesar de serem quase 20 anos mais novos, os atuais fumadores apresentavam níveis semelhantes de hipertensão, diabetes e lesão vascular aos de pessoas mais velhas que nunca fumaram. “Portanto, conclui-se que o próprio tabaco cria um perfil inflamatório no sangue que pode levar à lesão dos vasos e dar origem a outras doenças, porque vai fazendo pequenas lesões nas células ao longo o tempo”, desenvolveu o autor.

“Os fumadores eram aproximadamente 18 anos mais jovens, mas tinham maior índice de massa ventricular esquerda (LVMi) e velocidade de onda de pulso semelhante (PWV), espessura da camada íntima da carótida ( cIMT), frequência de hipertensão, diabetes e placas carotídeas em comparação com os participantes muito mais velhos que nunca fumaram. Após a seleção multivariada, 25 proteínas foram independentemente associadas ao tabagismo atual ou passado”, referem as conclusões do estudo.

João Pedro Ferreira revelou que quando foram comparados os danos cardiovasculares causados quando se verificava que algum vaso estava mais rígido, isso significa que esse tem menos elasticidade e está a funcionar pior. “Estar mais rígido é como estar danificado, estar mais envelhecido”, resumiu.

O investigador salvaguardou, porém, que os casos estudados não foram “necessariamente” de doentes. Trata-se de uma investigação baseada em hábitos e estilos de vida. “Este é um estudo observacional. Analisamos as características das pessoas comparadas com outras. Não podemos inferir que existe uma causalidade, não podemos inferir que o tabaco causa diabetes. O que podemos dizer é que existe uma relação entre as pessoas que fumavam e a presença de proteínas que parecem indicar alguma tolerância menor à glucose, ao açúcar”, exemplificou nas mesmas declarações.

Mesmo para o grupo que já tinha deixado de fumar, apesar de se observar uma atenuação dos efeitos, “esses não estavam completamente revertidos”. “Obviamente que é bom deixar de fumar o quanto antes, mas o estudo conclui que o dano vascular que já tinha ocorrido no passado regista melhorias, mas não reverteu”, concluiu. “Mesmo que a pessoa se sinta bem, há um dano que está a acontecer no corpo que é silencioso e que pode ter consequências.”

Se ainda tinha dúvidas, depois deste estudo não restam muitas. Esta pode ser uma boa altura para deixar de fumar e, caso não fume — e não queira envelhecer 20 anos devido a este vício — a sugestão é que não comece a fazê-lo.

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