Saúde

Os super resistentes à Covid-19 que podem ajudar a ciência a pôr fim à pandemia

São casos raros de pessoas que escapam à doença mesmo quando todos à sua volta ficam infetados. E podem guardar respostas valiosas.
Eles andam por aí

Em “O Protegido”, um catastrófico acidente de comboio termina com apenas um sobrevivente, David Dunn, um segurança que vem a descobrir mais tarde ter superpoderes que o tornam invulnerável. É certo que se trata apenas de um filme de ficção, embora esta invulnerabilidade possa ter um fundo de verdade no que toca às doenças.

Pouco mais de um ano depois do mundo acordar para a dura realidade de uma nova doença, a comunidade científica encontrou alguns padrões: de um lado, a especial vulnerabilidade de parte da população, muitas vezes por causa da idade e doenças associadas, outras vezes por um misterioso fator que, se suspeita, possa ser genético; do outro, uma aparente imunidade de pessoas que nunca contactaram com o vírus.

É o caso de membros de famílias que passaram incólumes à infeção, enquanto um por um, os parceiros, filhos, primos, avós e pais eram infetados. A coabitação e a proximidade, tendo em conta o potencial contagioso da doença, deixaria adivinhar que um infetado bastaria numa casa para contaminar todos os habitantes. Não foi isso que se verificou em centenas de casos já identificados.

O que é que os torna particularmente resistentes à doença? É isso que a brasileira Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano de São Paulo, tem feito nos últimos meses: procurar casos de casais em que só um tenha sido infetado.

“A ideia passa por encontrar pessoas que estiveram muito expostas ao vírus e que não desenvolveram Covid-19, mas que também não apresentam anticorpos [que indicariam uma infeção debelada]”, explica a investigadora à “BBC”.

A pesquisa deu frutos e já há cerca de 100 casais sinalizados. “Descobrimos que afinal isto é aparentemente comum. Recebemos cerca de mil emails de pessoas a dizerem que estavam nesta situação.”

E não são só esses os casos bizarros de recuperação. A investigação incide também nas pessoas de grupos de risco que conseguiram debelar a doença sem grande dificuldade, como é o caso de uma idosa de 114 anos no Recife — sendo que há relatos semelhantes por todo o mundo, nos quais pessoas centenárias ultrapassaram a Covid-19 sem dificuldades.

A abordagem de Jason Bobe, especialista em genética norte-americano, foi a de procurar casos de não-infeção não só entre casais mas no seio de famílias de várias gerações, que tenham sido afetadas pela doença.

Ter o caso de toda uma família inteira torna mais fácil perceber os fatores genéticos em jogo — e identificar os fatores por detrás da resiliência”, explica à “BBC”.

Nada neste conceito de super resistência ou invulnerabilidade é novo na medicina. Recorda a “BBC” o caso paradigmático de Stephen Crohn, que ficou conhecido como “o homem que não apanhava SIDA”.

Quando a doença devastou a comunidade gay no início do seu aparecimento, muitos dos amigos de Crohn ficaram infetados. Até que a doença então misteriosa chegou ao seu parceiro em 1978.

Contrariamente ao esperado, o norte-americano nunca teve qualquer sintoma. O seu caso tornou-se famoso entre os investigadores que, nos anos seguintes, tentaram — tal como hoje acontece com o novo coronavírus — desfazer o puzzle deste novo vírus. Quando o imunologista Bill Paxton tentou, em 1996, infetar o sangue de Crohn em laboratório, percebeu que isso era uma tarefa impossível.

Descobriu-se mais tarde que Crohn era portador de uma mutação na proteína de ligação dos glóbulos brancos. Esta proteína servia habitualmente de porta de entrada para o vírus e, desta forma, garantia-lhe uma resistência incomum. Era uma mutação raríssima: estima-se que esteja presente em apenas um por cento da população.

O estranho caso do neto do médico que descobriu a doença de Crohn serviu de inspiração a muitos dos tratamentos eficazes que hoje são usados no tratamento do HIV. E, portanto, a questão impôs-se: haverá casos de mutações semelhantes que ofereçam uma resistência fora do comum relativamente à Covid-19?

De onde vêm estes superpoderes?

Dos dados já recolhidos, têm surgido vários indicadores que apontam para uma ligação entre baixo risco de doença grave e os tipos de sangue O e Rh negativo. Embora ainda não haja conclusões definitivas, muitos estudos apontam noutra direção.

Dada a incerteza sobre a duração dos anticorpos em pessoas curadas, vários investigadores focaram-se noutro tipo de imunidade, neste caso oriunda das células T, um tipo de glóbulo branco que ajudam a combater vírus e células infetadas.

No seu conjunto de aptidões está a capacidade de permanecer durante vários anos no sangue, o que ajuda a que as defesas do nosso corpo possam facilmente memorizar doenças e combatê-las muito tempo depois do primeiro contacto, mas também a sua versatilidade e adaptabilidade.

O caso tornou-se ainda mais interessante depois de vário estudos revelarem que pessoas que testavam negativo para a presença de anticorpos — potencialmente por já terem tido contacto com a doença há vários meses e, entretanto, perderam a imunidade — mas que carregavam consigo células T capazes de se acoplarem ao novo coronavírus.

Essa pode ser uma descoberta que permite assegurar que mesmo depois do desaparecimento dos anticorpos, o nosso sistema continua capaz de combater eficazmente a doença. Contudo, o cenário tornou-se mais complexo após um estudo específico.

Para uma análise mais aprofundada, investigadores analisaram amostras de sangue colhidas anos antes do inicio da pandemia. Descobriram então que nessas amostras havia células T com capacidade para se unirem (e combaterem) o SARS-CoV-2.

A chave para a explicação destes casos de aparente invulnerabilidade poderá estar nesta descoberta. Embora as células T não previnam a infeção, até porque só atuam diretamente no vírus após a entrada no nosso sistema, podem ser responsáveis por uma limpeza generalizada — e restringindo a propagação da doença a um mínimo. “Se [as células T] forem capazes de destruir as células infetadas com o vírus antes de se espalharem pelo trato respiratório superior, irá influenciar o quão doentes nos iremos sentir”, explica a imunologista Annika Karlsson à revista “Nature”.

Mas há mais: segundo novos e animadores dados, quem esteve em contacto com o vírus é capaz de gerar células T que são capazes de reconhecer entre 15 a 20 áreas diferentes da proteína de ligação do coronavírus. Isto significa que, dependendo de pessoa para pessoa, as células T poderão neutralizar o vírus através de diferentes caminhos. A vantagem? Fica mais dificultada a propagação do vírus e das suas variantes.

As variantes que têm surgido incidem, sobretudo, em mutações de pequenos fragmentos da coroa ou da proteína de ligação das células. Essa mutação permitirá escapar a algumas células T em alguns indivíduos, mas como parte da coroa se mantém intacta, o vírus perderá a luta na maioria dos infetados. Funciona, de certo modo, como uma armadilha que, combinada com a vacinação massiva, poderá finalmente levar-nos à saída de emergência da pandemia.

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