Saúde

Ouvir música, tocar e cantar contribuem para melhorar a saúde mental

De acordo com um novo estudo, talvez seja uma boa altura para marcar as aulas de piano ou de guitarra que tem vindo a adiar.
Boas notícias.

Não é uma novidade para os que são incapazes de funcionar corretamente sem tocar, cantarolar ou simplesmente ouvir as suas canções preferidas — a música é capaz de melhorar o dia a dia de quem a aprecia. Caso faça parte deste grupo, saiba que uma nova investigação científica comprova esta ideia, perfeita para apresentar aos céticos que o criticam à primeira (e a todas as que seguem) nota desafinada.

Uma análise de 26 estudos conduzidos em diversos países — Austrália, Reino Unido e Estados Unidos são exemplos —, publicada em março de 2022 no Journal of the American Medical Association Network Open, concluiu que a música pode dar um impulso clinicamente significativo à saúde mental, nota o “The Guardian”. Por outras palavras, qualquer atividade relacionada com esta forma de arte contribui para a melhoria do bem-estar e da qualidade de vida.

Os autores de “Association of Music Interventions With Health-Related Quality of Life” sugerem, inclusive, que o impacto positivo da música na saúde mental está próximo do obtido através do exercício físico e perda de peso.

“É necessária investigação futura para clarificar quais as intervenções musicais e as doses ideais para utilização em cenários clínicos e de saúde pública específicos”, disseram os autores, citados pela publicação britânica. Salientaram, contudo, que os resultados mostram uma “variação individual substancial nas respostas às terapias com música” em todos os estudos analisados.

Questionada pela NiT sobre a pesquisa, Andreia Paiva de Moura, psicóloga clínica no Hospital CUF Porto, vai ao encontro desta mesma ideia: “é importante que estudos longitudinais futuros se desenvolvam no sentido de aprofundar esta investigação, na medida em que a intervenção musical quando adicionada a outras intervenções farmacológicas e/ou não farmacológicas podem promover a prevenção e tratamentos mais otimizados em algumas áreas da saúde, especialmente na saúde mental”.

Das 26 pesquisas que serviram de base ao estudo agora publicado, sete envolvem terapia musical, 10 observam os efeitos de ouvir música, oito de cantar e um os efeitos da música gospel.

Arma para enfrentar momentos difíceis

A música pode ter vários benefícios na vida de cada um, tanto “na perceção de bem-estar psicológico” como no “desempenho diário”, começa por explicar a especialista. Em relação especificamente a estes dois fatores têm sido desenvolvidos vários estudos científicos.

Enquanto alguns indicam que “a música pode potenciar um desempenho cognitivo mais aprimorado”, outros revelam que “funciona como uma estratégia de promoção de estados emocionais positivos”. “Por outro lado, em contextos e situações mais adversas, a música pode ser utilizada como estratégia de auxílio à gestão do stress, da ansiedade, da dor ou de outros estados emocionais negativos”, enumera.

O seu impacto pode ser otimizado quando ocorre a combinação “com outras estratégias cognitivo-comportamentais de 3.ª geração, nomeadamente o mindfulness, algo muito comum”. Verifica-se por exemplo, através da inclusão de músicas por norma mais tranquilas nos processos meditativos.

Ainda assim, Andreia Paiva de Moura frisa “que estados emocionais negativos que se prolonguem no tempo devem ser avaliados por profissionais da área”. Diz, igualmente, que existe um indicador relacionado com esta área que pode sugerir a necessidade de procurar um profissional. Qual? “Quando a pessoa deixa de ouvir música com a mesma frequência com que ouvia normalmente, ou seja, quando o seu humor naquela fase, não lhe permite estar recetiva a atividades anteriormente prazerosas e gratificantes, tais como a música”.

Os estilos musicais mais indicados

“Muito embora vários estudos tenham indicado efeitos/qualidades distintas de diferentes géneros musicais, naquilo que é a experiência clínica que vamos recolhendo, o tipo musical parece estar fortemente correlacionado com alguns traços de personalidade, mas também com circunstâncias de vida, oportunidades de diversificação cultural, formativas e educativas”, começa por explicar.

Ressalva, contudo, que nos apontamentos clínicos, há um dado que sobressai “o tipo de música preferencial é por norma o padrão com o qual a pessoa mais se identifica, depende de um gosto musical próprio que é algo idiossincrático”.

Conclui: “o tipo de música mais indicado para se utilizar como estratégia de gestão emocional deve estar de acordo com o padrão musical preferencial da pessoa (eventualmente, à exceção dos estados meditativos que parecem beneficiar com sons mais tranquilos ou sons da natureza)”.

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