Saúde

A pandemia trouxe mais insónias (e em certos casos só há uma solução)

Eulália Gomes, psicóloga do sono, ajuda-nos a perceber o que podemos fazer neste contexto.
Comprimidos não são solução.

Se no último ano os seus padrões de sono foram alterados, não estranhe. As insónias eram já prevalentes mas em certos casos foram mesmo agravadas pelo impacto da pandemia. Isto aconteceu de forma indireta, pela forma como o confinamento nos mudou a rotina, mas com impacto mais direto, como os casos de pessoas que recuperaram da Covid-19 mas ficaram com o seu sono afetado.

Eulália Gomes, psicóloga do sono e uma das especialistas responsáveis pela consulta de insónia no Hospital CUF Tejo, salienta à NiT que este fenómeno é visível não só em dados recentes mas na sua própria prática clínica.

Em fevereiro de 2021, uma meta-análise do National Center for Biotechnology Information, que reuniu 44 artigos, envolvendo um total de 54.231 participantes de 13 países, não deixava margem para dúvidas: a prevalência de problemas de sono afeta cerca de 36 por cento da população, incluindo os profissionais de saúde. E era ainda mais superior nos pacientes com Covid-19.

Entre quem tem atendido em consulta, a psicóloga nota quatro padrões em particular. Há “pessoas que já vinham experimentando insónia mas que nunca a tinham tratado”. Mas “com a pandemia e o confinamento associado, enfrentaram um aumento dos sintomas, ao ponto de serem preocupantes ou mesmo incapacitantes.”

Há também pessoas que sofrem com outro tipo de doenças mentais e em tempos de pandemia “exacerbaram os seus sintomas, e os problemas do sono exponenciaram”. Há ainda queixas de quem, após ter tido Covid-19, enfrente agora “maiores perturbações do sono, nomeadamente insónia”. E, finalmente, algo que qualquer um de nós terá sentido a dada altura: “com as mudanças de rotinas, surgem os distúrbios do ciclo circadiano”. Os nosso padrões mudam e isso reflete-se no dia a dia.

Antes de prosseguirmos, é importante perceber o que são realmente insónias. Um par de noites mal dormidas numa semana é uma legítima dor de cabeça para qualquer um de nós. Mas está definido um modelo de diagnóstico para sabermos quando as tais noites mal dormidas já são insónias que correm o risco de perdurar.

“Quando as queixas com o sono acontecem pelo menos três vezes por semana, pelo menos durante três meses, e quando durante o dia há sofrimento associado, estamos perante o distúrbio da insónia crónica”, explica.

Nestas alturas, Eulália Gomes realça que “a única estratégia possível é a terapia cognitivo-comportamental para a insónia”, identificada clinicamente pela sigla CBT-I. Esta estratégia “é nesta fase do conhecimento científico, o único tratamento eficaz para a insónia, mesmo quando existe outra doença em simultâneo”.

A terapia é uma abordagem que inclui diferentes técnicas. Trata-se de “um protocolo estruturado e seguido em todo o mundo, que ajuda a identificar e a substituir os pensamentos e os comportamentos que causam ou agravam os problemas do sono por hábitos que promovem um sono profundo”.

Há algumas estratégias que a psicóloga destaca que podem fazer a diferença: “A mais importante é definir uma hora para acordar e a hora de dormir”. A rotina é um primeiro passo essencial. Mas há mais.

A psicóloga do sono realça que se deve “evitar estar na cama sem estar a dormir” e que é importante a pessoa ser capaz de “traçar uma linha” no seu dia a dia, “a partir da qual começamos a abrandar o ritmo das atividades diárias, iniciamos os exercícios de relaxamento e processamos as emoções para não as levar para a cama”. Outras estratégias simples passam por evitar café e os ecrãs, que antes de dormir têm potencial de interferir com o sono.

A expressão “sono reparador” tem suporte na ciência e na realidade. Quando o nosso sono é afetado, facilmente o dia todo poderá ser afetado por arrasto. Mais preocupações, mais stress, menor concentração, tudo contribui para um contexto difícil. No longo prazo, a insónia pode mesmo associar-se a um maior risco de doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, depressão ou ansiedade, entre outros.

Se o sono se tornou lá por casa razão para preocupação, o melhor mesmo é procurar ajuda especializada em vez de deixar prolongar-se no tempo à espera de uma noite milagrosa que resolva as horas mal dormidas que se acumulam.

A pandemia tem sido violenta nas mais diversas áreas da nossa vida pessoal e coletiva. Tem impactos trágicos nas vidas que se perdem, nos negócios e empregos afetados, mas também se tem feito sentir noutras áreas das nossas vidas.

Com tudo o que a pandemia tem trazido de negativo, a psicóloga destaca que, em certos casos, nos tem permitido assumir mais quando as dificuldades parecem ultrapassar-nos. “A doença mental começou a perder mais recentemente alguns dos estigmas negativos que tem enfrentado, e cada vez mais as pessoas começam a aceitar que o seu bem-estar psicológico tem um carácter científico e que pode e deve ser tratado com a ajuda de especialistas”. O sono não é exceção.

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