Saúde

Pare de ouvir música alto com auriculares e auscultadores — pela sua saúde

O coordenador de Otorrinolaringologia do Hospital CUF Cascais garante que pode causar problemas graves.
É mesmo prejudicial.

Cerca de oito por cento da população mundial apresenta problemas de audição. É um dos sentidos mais importantes, mas também um dos mais esquecidos quando pensamos na nossa saúde. Esta quarta-feira, 3 de março, assinala-se o Dia Mundial da Audição, e a NiT decidiu aproveitar a data para desvendar alguns mitos e verdades.

Podemos já adiantar que todas aquelas vezes que os nossos pais e avós nos alertaram para ouvirmos música mais baixo, juntamente com o argumento de que era prejudicial para a saúde auditiva, eles tinham razão. Mas já lá vamos.

Primeiro, uma curiosidade: o processo auditivo tem início entre a 21.ª e a 25.ª semana de vida intra-uterina, altura em que o feto começa a ouvir os batimentos cardíacos da mãe, bem como a sua voz e a dos familiares. 

“Os mecanismos da audição estão ainda  intimamente ligados aos do equilíbrio e da identificação de movimento, como por exemplo sentirmos que um automóvel está a acelerar ou que um elevador está em movimento”, explica à NiT o coordenador de Otorrinolaringologia do Hospital CUF Cascais, João Pedro Leandro.

Agora, vamos ao que interessa: o especialista revela que ouvir música alto com auscultadores e auriculares pode mesmo ser perigoso, já que pode provocar surdez.

“A exposição prolongada ao som, particularmente com intensidade acima de 85 dB, pode provocar danos irreversíveis no ouvido interno”, explica, acrescentando que o seu uso deve ser limitado. Mas há outras coisas que deve saber.

Outros mitos e verdades relacionadas com a surdez

1. Não devemos usar cotonetes para limpar os ouvidos — Verdade

Segundo João Pedro Leandro, o canal auditivo tem um mecanismo próprio de limpeza que é contrariado com a introdução dos cotonetes. Além disso, o cotonete vai empurrar o cerúmen (conhecido popularmente como cera), compactando-o junto ao tímpano, causando bloqueio e, por vezes, traumatismos nas paredes do canal e na membrana do tímpano. “Podem ser usados externamente nas pregas do pavilhão auricular”, recomenda.

2. A surdez é um problema dos idosos — Mito

“A incidência da surdez aumenta com a idade, mas até dois por cento das crianças com menos de 18 anos sofrem de perda auditiva permanente. Quando ocorre na primeira infância, pode prejudicar seriamente o desenvolvimento social e da linguagem destas crianças. Muitos adultos desenvolvem surdez unilateral ou bilateral ao longo da vida”, revela à NiT.

3. Os medicamentos podem afetar a audição — Verdade

Se alguma vez ouviu alguém dizer isto, saiba que essa pessoa estava certa. De acordo com o especialista, alguns medicamentos são ototóxicos, prejudicando as células responsáveis pela audição. Desta forma, o seu uso, quando prolongado, deve incluir a monitorização da função auditiva.

Cuidado com as infeções nos ouvidos.

4. Os aparelhos auditivos destinam-se a pessoas mais velhas — Mito

Neste caso, estamos perante um mito, uma vez que a surdez pode ocorrer em todas as idades. Por isso, também os aparelhos auditivos destinam-se a todos os grupos etários. Atualmente, existem sistemas mais pequenos e inteligentes que analisam o som e adaptam a resposta dos dispositivos às necessidades de cada pessoa. Nos casos em que os aparelhos auditivos convencionais não funcionam, existem outras soluções mais avançadas.

5. “Não oiço bem porque as pessoas falam mal” — Mito

É recorrente ouvir alguém dizer isto e, normalmente, quando a perda auditiva é reconhecida pelos outros, há alguma resistência em aceitar que se ouve mal. “Existe a sensação de que se está a ouvir bem mas não se conseguem entender as palavras. Estes aspetos são particularmente relevantes em espaços públicos ruidosos ou quando várias pessoas falam ao mesmo tempo”, explica à NiT.

6. A perda auditiva pode provocar depressão e isolamento — Verdade

Segundo o coordenador de Otorrinolaringologia do Hospital CUF Cascais, a perda da capacidade auditiva leva à diminuição progressiva da participação nas conversas, levando a sentimentos de tristeza e frustração tanto no doente como nos familiares.

“Em alguns casos, imaginam que os outros falam negativamente sobre elas. Por outro lado, a diminuição da estimulação das estruturas do cérebro provoca comprovadamente défice cognitivo e atrofia com repercussão na memória.”

7. As infeções do ouvido podem causar perda auditiva — Verdade

As infeções do ouvido, principalmente se recorrentes, não tratadas ou causadas por agentes patogénicos mais agressivos, podem mesmo levar a lesões permanentes.

As situações em que deve procurar ajuda médica

O especialista reconhece que a pandemia de Covid-19 tem atrasado diversos diagnósticos por diminuição no acesso ou receio da população em se deslocar às unidades de saúde, mas alerta que isso não deve acontecer pelo risco de atraso no diagnóstico e na instituição atempada de terapêutica.

“Perante perda súbita de audição de um ou dos dois ouvidos, deve consultar um otorrinolaringologista de imediato. Pode ter diversas causas e é fundamental ser tratada precocemente porque a possibilidade de recuperar a audição depende muito da rapidez com que se inicia o tratamento”, diz à NiT, acrescentando que a perda de audição pode ser eventualmente acompanhada por zumbidos, alterações do equilíbrio ou queixas neurológicas.

Contudo, há outros sinais de alerta, muitas vezes desvalorizados, que deverão motivar a consulta médica. Por exemplo, sempre que lhe parecer que os sons estão abafados; se tiver de se esforçar para perceber uma conversa, principalmente em locais públicos; e até sentir dificuldade em entender o que lhe dizem ao telefone.

O especialista João Pedro Leandro menciona ainda mais alguns sinais: quando não se ouve a campainha da porta, pedir frequentemente para lhe repetirem o que estão a dizer e quando os seus familiares se queixam que o som da televisão está sempre muito alto.

No caso das crianças, caso não desenvolvam ou não progridam adequadamente a linguagem, o coordenador do serviço de Cascais diz que se deverá recorrer imediatamente a um otorrinolaringologista pediátrico.

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