Saúde

“Pela primeira vez, há camas vagas” no Hospital de S. João

A médica intensivista Ana Afonso analisa a situação no Covidário deste hospital do Porto. E parece mesmo que o pior já passou.
Fotografia: Tânia Teixeira

O segundo confinamento começou em Portugal a 15 de janeiro, numa altura em que os números dramáticos de infeções e mortes da terceira vaga de Covid-19 obrigou o governo a tomar medidas mais drásticas. Cerca de um mês depois, a NiT visitou o Serviço de Medicina Intensiva do Hospital de S. João, no Porto, onde acompanhou uma médica intensivista durante um turno de 24 horas.

Nessa altura, a situação começava a mostrar alguns sinais de abrandamento, com uma das salas da Unidade de Neurocríticos, entretanto transformada numa unidade Covid-19, a voltar a ser destinada aos pacientes habituais. Quase três semanas depois, a NiT falou novamente com Ana Afonso, esta sexta-feira, 5 de março, para saber como está a situação naquele serviço do oitavo piso do hospital que é uma referência para o norte do País.

“Está muito melhor neste momento. Todos os doentes que temos na unidade estão Covid negativos [o que quer dizer que já lá estão há tempo suficiente para a doença ter passado a negativo] e não tivemos nenhuma entrada recente”, relata a médica.

Aquele piso está agora em limpeza de camas e reestruturação do espaço, o que quer dizer que será possível voltar a receber os doentes usuais a uma unidade como esta. A gravidade dos doentes mantém-se, por ser uma característica dos cuidados intensivos no geral. No entanto, começa a haver algum alívio. “Pela primeira vez há camas vagas”.

Para Ana Afonso, a principal diferença que se nota se compararmos o início da pandemia, há um ano, com o que se passa nos dias de hoje é que agora existe um “maior conhecimento da doença, mais experiência e a tranquilidade que o tempo dá”. Além disso, espera-se que, com a vacinação, a situação se torne cada vez menos grave, o que, para a especialista, nos deve “dar algum alento”.

Um estudo revelou recentemente que durante a primeira vaga da doença, no início de 2020, apenas cerca de 22% dos doentes internados em cuidados intensivos no Hospital de S. João não sobreviveram. “Aproximamo-nos muito de países que temos como boas referências, como a Alemanha, e isso deixa-nos extremamente contentes, é um prémio para quem aqui trabalha”.

Sobre a fórmula mágica para o sucesso, a médica intensivista acredita que não há um segredo para estes bons resultados. Tudo depende da equipa toda e da organização.

“Não existe segredo, é trabalho, trabalho, trabalho. A dedicação e a união de toda a equipa. Acima de tudo, a organização, o planeamento e o trabalho conjunto feito pelo Conselho de Administração, pelo Fernando Araújo, pela Direção do meu Serviço de Medicina Intensiva, por José Artur Paiva, e, no caso específico da minha equipa do piso oito, de todos os meus colegas e do meu super coordenador, Nuno Príncipe. Pensaram com antecipação e isso foi essencial para tranquilizar os profissionais de saúde. Trabalhámos sempre com um plano do que poderia acontecer depois e isso foi fulcral em termos de instituição e de poder organizacional.”

Apesar do ânimo generalizado com os bons resultados, Ana Afonso frisa ainda que é necessário continuar a ter cuidados, sobretudo no desconfinamento, porque nada está para já garantido.

“Gostava de dizer que estamos seguros, mas não sabemos como vai ser o desconfinamento nem o futuro. Com o plano de vacinação em andamento, a sensibilização da população e o desconfinamento, não está fora de questão, pode acontecer [uma nova vaga de casos], mas espero que não venha.”

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