Saúde

Moléculas da esperança: a prova que o exercício melhora mesmo a saúde mental

Tratam-se de substâncias libertadas pelo movimento. Novos estudos indicam que têm efeitos reguladores no stress e humor.
As miocinas libertam-se quando se pratica exercício.

Que a prática de exercício físico traz inúmeros benefícios já é certo e sabido por todos. A nível psicológico, o bem-estar que sentido no pós-treino está geralmente associado às endorfinas. No entanto, nos últimos anos têm surgido investigações que atribuem essas melhorias na saúde mental a outro culpado: as chamadas moléculas da esperança, neste caso as miocinas.

“As miocinas dizem respeito a um conjunto de substâncias que são produzidas e libertadas pelos músculos durante a contração muscular e que desencadeiam vários efeitos fisiológicos no corpo”, explica à NiT Catarina Lucas, psicóloga e diretora do Centro Catarina Lucas. “Estudos mais recentes também as associam ao humor e bem-estar.” 

No início deste ano, Rammohan Rao, cientista pesquisador da Apollo Health, observou que as moléculas são “capazes de cruzar a barreira hematoencefálica e impactar a função cerebral”. Esses processos podem potencialmente aumentar a resiliência ao stress e reduzir os sintomas da depressão e trauma. Até agora, quase 650 substâncias foram identificadas como pertencentes à classe das miocinas.

Por outras palavras, estas partículas fazem parte de uma complexa rede de comunicação do corpo, interagindo com vários órgãos. O efeito myokin (nome das moléculas em inglês) estende-se à cognição, ao metabolismo de lípidos e glicose, à formação óssea e até mesmo ao tom de pele. Estas pequenas substâncias viajam até ao cérebro, atravessam a barreira heamtoencefálica e atuam como antidepressivos. Fazem isso ao melhorar o nosso humor, capacidade de aprender, a aptidão locomotora e ao proteger o cérebro dos efeitos negativos do envelhecimento — é a “conversa cruzada músculo-cérebro”.

Rao afirma que, embora a pesquisa ainda se encontre em andamento e não seja totalmente claro como estas agem enquanto antidepressivos, é certo que a atividade e o movimento desencadeiam a sua libertação. 

A duração dos efeitos também não é ainda conclusiva o suficiente. No entanto, o estudo admite que estes sejam sustentados enquanto “os gatilhos estiverem ativos”. Ou seja, quer se trate de uma caminhada curta ao ar livre, um treino de alta intensidade ou uma sessão de ioga, cada movimento conta e desencadeia uma cascata de moléculas que podem ajudar a melhorar o humor e o stress.

“O impacto do exercício físico na saúde mental é fortemente conhecido, sendo vários os estudos que indicam que a sua prática regular diminui estados depressivos e níveis de ansiedade”, confirma Catarina. A novidade encontra-se na hipótese de que estas novas proteínas tenham o potencial de melhorar a saúde mental de várias maneiras”, acrescenta. Neste caso, Rao avança com a possibilidade de que “as miocinas possam ser tão eficazes quanto os anti-depressivos para depressões leves a moderadas”.

“Graças aos efeitos positivos das moléculas da esperança, cada vez mais especialistas recomendam a prática de exercício físico para tratar sintomas depressivos”, refere o investigador. Um estudo realizado na Noruega demonstrou que adolescentes fisicamente ativos em desportos coletivos tinham maior autoestima e satisfação com a vida, especialmente no caso das raparigas do último ano do ensino secundário. O mesmo se aplicou a universitários, onde foi encontrada uma associação clara entre inatividade e problemas de saúde mental, automutilação e tentativas de suicídio.

Outra investigação sobre a conversa cruzada músculo-cérebro através das miocinas notou que o exercício poderia ter uma maior influência no hipocampo mais do que em qualquer outra parte do órgão. Sendo esta uma região essencial para a formação da memória, aprendizagem, noções espaciais e regulação emocional, pode ver o seu volume reduzido, à medida que o indivíduo envelhece.

Estudos recentes descobriram que existe uma conexão entre volumes menores do hipocampo e transtorno depressivo grave. Ainda assim, é necessário clarificar qual ocorre primeiro e qual influencia o quê. No entanto, um estudo publicado na Biological Psychiatry relatou que existe a presença de uma “molécula de esperança” chave em jogo — o BDNF (fator neurotrófico derivado do cérebro).

Os investigadores observaram também como o exercício aumentaria o volume do hipocampo e o fluxo sanguíneo para o cérebro, associado a níveis mais elevados de BDNF. Por outras palavras, quanto mais ativo fisicamente for o sujeito, maiores serão os níveis de BDNF, o que pode ajudar a proteger o volume do cérebro e do hipocampo.

“No entanto, é importante relembrar que o exercício não substitui tratamentos médicos adequados para condições de saúde mental e que qualquer pessoa que esteja a enfrentar problemas desse foro deve procurar orientação profissional”, salvaguarda a psicóloga.

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