Saúde

Porque é que há pessoas que não recuperam o olfato e paladar depois da Covid-19?

Um otorrinolaringologista deu uma ajuda à NiT para tentar perceber o problema.
Há quem não tenha recuperado olfato.

Foi um dos sintomas que se destacaram logo na primeira fase da pandemia, e um a ter em conta como sinal de alerta da Covid-19. Com o tempo, no entanto, percebeu-se que, mesmo meses após terem recuperado da pior fase da doença, havia pessoas que não tinham ainda recuperado totalmente o olfato e o paladar.

João Araújo, otorrinolaringologista e responsável pela consulta de perturbações do olfato do Hospital CUF Descobertas, em Lisboa, realça que há um termo clínico para falar deste tema: anósmia. “É um dos sintomas mais comuns da Covid-19. Tem normalmente um aparecimento súbito, e pode mesmo ser a única manifestação da doença”, realça.

O impacto no olfato e no paladar acabam por estar associados. “Como grande parte daquilo a que vulgarmente chamamos sabor da comida depende do olfato, a anósmia é frequentemente acompanhada por sensação de perda do paladar”, explica o especialista.

Ainda não se sabe cientificamente ao detalhe o porquê da persistência destes sintomas quando falamos de pacientes que já recuperaram da fase aguda da doença. Mas este fenómeno não é exclusivo da Covid-19.

“Este padrão clínico não é novidade. Já anteriormente o encontrávamos com outros vírus”, destaca. “A este quadro dá-se o nome de hipósmia (ou anósmia) pós-infeciosa – quando uma pessoa perde o olfato durante uma infeção respiratória alta.” O médico João Araújo realça que é possível que muitos de nós já tenhamos experienciado algo assim antes, com uma gripe ou uma constipação, que deixou queixas na nossa capacidade olfativa mesmo após ter sido resolvida.

Afinal, o que está a acontecer?

Acredita-se que estes vírus “atinjam o nervo olfativo e restantes partes do cérebro responsáveis pelo olfato, através do nariz, onde se localizam os neurónios que detetam os odores”, explica-nos. Há, no entanto, boas notícias.

“Embora a comunidade científica ainda tenha muito a descobrir, o que os estudos nos mostram é que mais de 95 por cento dos pacientes com anósmia associada à Covid-19 recuperam, completa ou parcialmente, ao fim do primeiro mês, normalmente nas primeiras duas semanas.” Já naqueles em que as queixas persistem além disso, “ainda não sabemos dizer, mas da experiência que existe sobre a hipósmia pós-infeciosa” — e aqui não falamos especificamente da Covid-19, “é expectável que um a dois terços dos pacientes recuperem o seu olfato (pelo menos parcialmente), num período que pode durar até três anos”. Infelizmente, “é possível que alguns casos nunca cheguem a recuperar”, reconhece o otorrinolaringologista.

Passadas estas primeiras semanas após recuperar da Covid-19, se a situação se mantiver, é mesmo aconselhado procurar ajuda especializada. O olfato até pode parecer uma questão menor quando pensamos nas consequências graves que a Covid-19 pode ter no nosso organismo. Mas a verdade é que o impacto na qualidade de vida pode fazer-se sentir.

“Estas pessoas frequentemente perdem grande parte da capacidade de saborear a comida”, realça João Araújo. “Um dos grandes prazeres da nossa vida, na minha opinião”, afirma à NiT. Mas há mais a ter em conta.

O nosso olfato é muitas vezes uma mecanismo de defesa para identificar odores nocivos. Pode acontecer com certos alimentos ou mesmo no ambiente (como uma fuga de gás, por exemplo). E pode haver também impacto a nível emocional, e até social, de não sabermos como cheiramos, como cheira a nossa casa ou os nossos filhos.

Em certos casos, pode ter um impacto determinante no trabalho de uma pessoa. O otorrinolaringologista realça, a título de exemplo, o desafio que será desempenhar profissões como chef de cozinha, ou enólogo, quando o olfato e o paladar foram afetados.

O que é que se pode fazer?

João Araújo explica que, no caso do Hospital CUF Descobertas, já há três anos (bem antes da pandemia, portanto), que existe uma consulta dedicada especialmente a pessoas com este tipo de queixas. Ainda assim, com a pandemia, “tem crescido o número de pacientes que recorrem à consulta de otorrino a procurar ajuda para este problema”.

Nesta consulta, além do diagnóstico e plano terapêutico, fazem-se testes para perceber a capacidade olfativa da pessoa. “As opções terapêuticas são ainda limitadas, e baseadas no que costumamos fazer para a anósmia pós-infeciosa. Quando as queixas são recentes, ponderamos tratamento com corticosteroides, que são anti-inflamatórios potentes, em forma de comprimidos, por um curto período”, além do uso de spray nasal.

“No entanto, o que está realmente comprovado ter benefício, embora limitado, para a estas disfunções do olfato pós-infeciosas, é o treino do olfato”, adianta. E em que consiste isso? “Consiste em cheirar diariamente uma combinação de vários frascos com odores diferentes. Este treino por estimulação repetida deve ser feito, pelo menos, durante três meses”, especifica.

No dia a dia, o paciente pode também ir adotando estas medidas que compensem a diminuição na capacidade de cheirar. E aqui as sugestões podem ir de colocar detetores de fumo e gás em casa, pelos tais riscos associados, a apostar nas sensações que não dependem do olfato, como a temperatura, a textura, entre outras. Será uma ajuda para começar a recuperar algum do bem-vindo gozo na hora da refeição.

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