Saúde

Porque é que se pode ficar infetado entre a primeira e a segunda dose da vacina?

Não há registo de muitos casos, mas pode acontecer. A NiT explica-lhe porquê.
A proteção não é garantida.

No final de dezembro, chegava a notícia de que um enfermeiro tinha testado positivo à Covid-19 após oito dias de tomar a primeira dose da vacina da Pfizer. Dores musculares, fadiga e arrepios foram alguns dos sintomas. Sendo um dos primeiros casos deste género, foi imediatamente analisado pelos especialistas.

Na altura, em entrevista à “ABC News”, o infeciologista Christian Ramers disse que o caso deste enfermeiro era, na verdade, expectável, já que apenas a segunda dose garante a imunidade. O especialista indicou que, provavelmente, este enfermeiro poderia também já estar infetado sem o saber, ainda antes de tomar a vacina, já que o período de incubação do vírus pode ser até duas semanas.

“Sabemos, através dos ensaios da vacina, que demora entre dez a 14 dias até começarmos a desenvolver a proteção dada pela vacina contra o vírus”, explicou, sublinhando que “a primeira dose dá cerca de 50 por cento de imunidade, e só depois de se tomar a segunda dose é que se alcança os 95 por cento”.

No País de Gales, em janeiro deste ano, aconteceu algo semelhante. Um enfermeiro das urgências do hospital Princess of Wales, em Bridgend, foi diagnosticado com o novo coronavírus após ter sido adiada a sua toma da segunda dose da vacina da Pfizer. Naquele caso, o motivo que levou ao adiamento foi a mudança das regras por parte do governo daquele país, que preferiu usar essas vacinas para garantir mais primeiras doses. 

Também o Brasil registou um caso de uma profissional de saúde que foi infetada após tomar a primeira dose. Esta quinta-feira, 3 de março, esta questão voltou a ser debatida e, em declarações à “BBC”, a médica Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), esclareceu porque é que isto pode acontecer: “Nenhuma vacina disponível, para essa ou qualquer outra doença, é capaz de proteger, mesmo que parcialmente, em menos de 14 dias após a aplicação das doses.”

Segundo a especialista, independentemente da tecnologia, as vacinas trazem na sua composição os antígenos, substâncias que vão interagir com as células do sistema imunológico, para que elas criem os anticorpos necessários e consigam lidar com uma futura invasão viral.

Porém, este processo leva algum tempo até estar concluído. As células imunes têm de reconhecer os antígenos, interagir com eles e criar uma reação satisfatória. Isto pode durar duas semanas. Portanto, uma pessoa que tomou apenas uma dose da vacina contra a Covid-19 não está protegida da doença, precisando de seguir todas as medidas de prevenção, como o uso de máscara, distanciamento social, a lavagem das mãos e a etiqueta respiratória.

“Mesmo quem recebeu as duas doses, não pode ter uma ‘vida normal’. Pelo que sabemos, a vacina protege contra a doença e as formas mais graves da Covid-19, mas as pessoas imunizadas podem continuar a transmitir o vírus para outras”, esclarece a médica.

Pode haver reações adversas às vacinas contra a Covid-19?

O número de reações alérgicas graves é muito baixo tendo em conta o número de pessoas já vacinadas (e são milhões nos países com as mesmas vacinas que Portugal). Isto não quer dizer que não haja efeitos secundários. Nenhuma vacina, nem nenhum medicamento, está isento de reações. 

As vacinas da Pfizer e Moderna têm reportado como queixas mais comuns dor e inchaço no local da injeção, cansaço, dores de cabeça, dores musculares e articulares, calafrios, febre e vómitos (no caso da da Moderna). Ainda assim os relatos que têm surgido de pessoas já vacinadas têm sido encorajadores.

Depois, embora mais incomuns, existem casos de pessoas com outras reações. Demos-lhe a conhecer neste artigo o caso de Jéssica Sousa que, apesar de ser saudável e sem alergias, perdeu momentaneamente a sensação nas pernas. 

A fisioterapeuta da Santa Casa da Misericórdia de Sesimbra confessou à NiT que os sintomas começaram a surgir ao fim de dois minutos. A intervenção dos enfermeiros evitou o desmaio. As tensões “estavam altíssimas”, sobretudo para quem está habituada a ter tensão baixa. “A reação de não sentir as pernas foi uma novidade para toda a gente. O que me foi dito na altura é que poderia ter sido uma reação vagal do meu sistema”, conta, acrescentando que também sentiu um cansaço gigante.

Estes relatos deixam muitas pessoas hesitantes quando à toma da vacina. O facto de estarmos habituados a que o processo de criação de uma vacina demore anos, por vezes décadas, também gera desconfiança. Mas a verdade é que nunca tínhamos vivido no nosso tempo algo assim. A Covid-19 propagou-se por cidades e países, independentemente da geografia ou do clima, devido ao facto de ser de fácil contágio.

Nunca na história tínhamos tido tantos cientistas, laboratórios e governos empenhados num só problema (e em muitos casos com recursos financeiros como nenhuma outra doença teve). Isto não quer dizer que se tenham saltado etapas.

Há mais vacinas que estiveram em desenvolvimento nos últimos meses e que vão ser administradas em alguns países. Embora os passos possam ter sido mais acelerados nesta altura do que no passado, continuam a decorrer avaliações independentes e o acompanhamento de reguladores. Em Portugal, já mais de 265 mil pessoas receberam as duas doses da vacina contra a Covid-19, segundo os últimos dados divulgados pela Direção-Geral da Saúde.

Os números revelam também que um total de 603.486 já estão vacinadas com a primeira dose, o que representa seis por cento da população total no nosso País. Destas, 34 por cento (225.171 pessoas) correspondem à população com mais de 80 anos. Ainda nesta faixa etária, nove por cento já recebeu as duas doses.

No que diz respeito às regiões do País, o norte foi aquela que mais vacinas administrou, com 287.871 primeiras inoculações realizadas — mais 67.454 do que na semana passada. Lisboa e Vale do Tejo surge em segundo lugar, com 276.186. No centro do País, foram vacinadas 205.049 pessoas, seguindo-se o Alentejo, com 64.899 vacinados e o Algarve, que conta com 33.361.

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