Saúde

Porque é que sempre que há um incêndio os populares oferecem leite aos bombeiros?

A prática tem a ver com um mito enraizado há muito entre os portugueses. Porém, não tem qualquer evidência científica.
É um mito antigo.

Portugal está em alerta especial devido ao calor e risco de incêndio. Esta quarta-feira, 13 de julho, foi um dia negro para várias localidades do País, onde milhares de hectares de floresta e algumas casas foram devastados pelas chamas.

Face à situação dramática que se vive em grande parte do território nacional, a Direção-Geral de Saúde (DGS) já emitiu um alerta para os riscos associados à exposição ao fumo causado pelos incêndios florestais. Precisamente relacionada com os perigos da inalação de fumo, está a velha convicção de que beber leite é um antídoto do monóxido de carbono.

Este é um mito enraizado há muito na população portuguesa. É frequente, sempre que os incêndios assolam o território nacional — sobretudo em zonas rurais — os populares oferecerem leite aos bombeiros que combatem os fogos. Tudo porque se acredita que poderá ajudar a minimizar o impacto do fumo no organismo.

Porém, esta crença não passa de um mito. Segundo Gustavo Tato Borges, presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública (AMSP) “não há nenhuma propriedade específica do leite que faça com que este combata os efeitos do monóxido de carbono ou o absorva. O leite não é um antídoto para o monóxido de carbono“. O médico adiantou ainda à NiT que desconhece as razões “que levaram à disseminação dessa ideia, dessa crença”.

O fumo provocado pelos incêndios possui elevados níveis de partículas e toxinas que podem ter efeitos nocivos a nível respiratório, cardiovascular e oftalmológico, entre outros. Os principais sintomas incluem irritação nos olhos, nariz e garganta, tosse persistente, sensação de falta de ar, dor ou aperto no peito e fadiga”, escreve a DGS numa nota informativa, publicada esta quarta-feira, 13 de julho.

A entidade de saúde recomenda, por isso, que se evite a exposição ao fumo, que as pessoas se mantenham em casa, com as janelas e as portas fechadas, num ambiente fresco e, se possível, com o ar condicionado ligado para facilitar a circulação de ar.

Com o país a arder, a DGS acrescentou às suas recomendações que beber leite como antídoto do monóxido de carbono libertado pelos incêndios é um mito sem base científica. “Nem se deve, devido a esse consumo, atrasar a referenciação e o tratamento a nível hospitalar correto”, refere uma nota disponível no portal da autoridade de saúde.

O perigo da inalação de monóxido de carbono

Segundo a norma publicada pela DGS, a concentração de monóxido de carbono no fumo resultante dos incêndios tem efeitos nocivos para a saúde. Quem está mais próximo da linha de fogo deve ficar atento às cefaleias, à sensação de falta de ar, às alterações visuais, irritabilidade, náuseas e fadiga.

A exposição a concentrações deste gás entre 40 e 60 por cento provoca confusão, alucinação, ataxia e coma. Valores de monóxido de carbono superiores podem mesmo ser fatais.

Em caso de inalação de fumos, a DGS aconselha a retirar a pessoa do local e a evitar que esteja exposta ao calor, bem como a procurar sinais de alarme: queimaduras, sinais de dificuldade respiratória ou alterações do estado de consciência.

A origem do mito do leite

Segundo uma investigação publicada na “Revista Portuguesa de Saúde Ocupacional” em 2019, a crença de que se deve ingerir leite em caso de ingestão de fumo remota à época em que a indústria metalúrgica começou a usar chumbo.

“Até 1974, o consumo de leite era promovido como uma fonte de cálcio e, devido à sua ‘brancura’, era visto como uma substância purificadora.” No início do século XX, uma empresa britânica veio a público afirmar que uma dieta rica em cálcio era benéfica em casos de envenenamento por chumbo — e poderá ser esta a origem do mito relacionado com o facto de o leite funcionar como um antídoto.

“A mesma empresa revelou que tinha como prática habitual oferecer leite a todos os seus trabalhadores — expostos a este metal pesado —  para auxiliar o armazenamento de chumbo nos ossos de uma forma inofensiva”. E não era a única, já que muitas outras “ofereciam aos funcionários expostos a alguns agentes químicos, uma dose diária de leite”. Segundo o mesmo artigo, esta era uma alternativa caseira usada numa altura em que a tecnologia de extração e ventilação nas unidades fabris e outras medidas de proteção não existiam.

A importância de consumo do leite para quem estava frequentemente exposto a fumos e gases prejudiciais para a saúde rapidamente se difundiu entre a população e continuou a ser alimentada através do passa palavra. Pensa-se que o mesmo raciocínio é aplicado aos bombeiros na frente de combate aos incêndios.

Apesar da opinião popular, a conclusão do estudo reforça que “a evidência atual não mostra benefício no incentivo do aumento de consumo de leite como elemento neutralizante de intoxicação ou envenenamento“. Exatamente o que o médico Gustavo Tato Borges confirmou à NiT.

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