Saúde

Luís sofreu aneurisma nos EUA: “Fatura de 150 mil euros pode ser estimativa por baixo”

À NiT, a enteada do português recorda como tudo aconteceu, as dificuldades financeiras e a inexistência de ajuda da embaixada.
Luís tem 52 anos e é de Santo Tirso

Durante dois dias, uma incómoda dor de cabeça acompanhou Luís Cardoso na sua viagem pela América Central. Além da dor, uma sensação teimosa de pressão na cabeça levou a que procurasse um médico na Guatemala.

“Saiu com uma prescrição para enxaquecas e a dor passou, mas a pressão nem por isso”, conta à NiT Francisca Neves, a enteada de 22 anos. Habituados a longas viagens por destinos menos conhecidos, faziam questão de assegurar sempre que tinham seguro de viagem. Contudo, dada a simples consulta, ponderaram se valeria a pena acionar o seguro.

Assim fizeram e não pensaram mais nisso. Era altura de aproveitar a última etapa de uma viagem que começara a 9 de agosto. Uma semana depois, estavam já em solo norte-americano, quando o estado de Luís, de 52 anos, se agravou.

“Foi na noite de 29 de agosto. Até voltou mais cedo para o hotel porque estava a piorar. À noite, começou a ter um discurso incoerente, delírios. Estava com náuseas, vomitava e deixou de responder. Tivemos que chamar a ambulância.”

Tudo aconteceu num piscar de olhos. Duas semanas depois, Luís recupera do rebentamento de um aneurisma, que provocou um derrame cerebral. Sobreviveu a uma situação crítica, mas acordou com uma dívida de, pelo menos, 150 mil euros — e sem forma de a pagar.

O caso está a comover os portugueses, que têm ajudado a família a conseguir fazer face ao imprevisto. Em apenas três dias, a angariação de fundos que decorre na plataforma GoFundMe já arrecadou mais de sete mil euros. A esse valor junta-se outro tanto recebido por transferência bancária e mais dez mil através de MBWay.

“Penso que já temos pelo menos 20 mil euros, o que é muito bom. Não estávamos à espera de todo este sucesso. É avassalador”, nota Francisca.

Natural de Santo Tirso, Luís é professor de Educação Física e trabalha desde 2000 na Associação de Voleibol do Porto. A família explica que “foi sempre uma pessoa saudável” e que “não havia nada que pudesse fazer prever isto”.

Desde 2014 que fazer uma longa viagem no verão, com vários destinos, era uma espécie de tradição familiar. Desta vez, a viagem levaria a família à Costa Rica, Guatemala, Bolívia, Belize e Estados Unidos.

Luís Cardoso durante a viagem por Nova Iorque

Tudo se complicou em Nova Iorque, a última estadia da viagem. A cinco dias do regresso, um aneurisma traiu Luís, que só ao fim de uma semana é que pôde ter noção do que se passara. Do lado de fora da sala de cirurgias, a família procurou por ajuda, sem grande sucesso.

“Tentámos adiar o regresso, mas o valor que pediam pela mudança de data era absurdo. Voltámos todos, menos a minha mãe, que ficou”, explica Francisca. Por sorte, a prima, que também fazia parte do grupo, conhecia alguém que poderia acolher temporariamente Felismina Pereira.

No hospital, Luís lutava pela vida. Após a primeira cirurgia, sofreu uma nova hemorragia que obrigou a mais uma intervenção. “Os médicos foram sempre muito diretos e impecáveis. Disseram-nos sempre o que estava a acontecer, sem nunca nos darem prognósticos ou expectativas.”

O despertar foi atribulado. “Acordou irritado, porque não sabia o que estava a acontecer. No dia em que foi hospitalizado, tínhamos ido ao Empire State Building. E não se lembrava de nada”, explica.

Entretanto, outra luta prosseguia com a MDS, a corretora de seguros responsável pela apólice de Luís, que pedia cada vez mais documentos. Os obstáculos burocráticos eram cada vez maiores.

“Pediam-nos relatórios médicos anteriores ao aneurisma, que nunca pediram no momento de fazer o seguro. Pediram documentos que comprovavam que estava internado, bilhetes de avião. Pediram-nos até para irmos ao centro de saúde dele, ao médico de família, para obter um relatório”, esclarece Francisca. “Ainda nos estão a pedir documentos e explicaram que até sair a conta final, não se comprometeriam com nada.”

O teto máximo da apólice está fixada nos 30 mil euros, muito longe do valor que será necessário. “Nem sequer sabemos se eles vão cobrir parte desse valor.”

Do lado do hospital, a família teve apenas contacto com uma assistente social, que não apresentou grandes alternativas. O valor teria que ser pago e à disposição estava apenas um plano de pagamento faseado, às prestações.

O custo total ainda nem sequer está fixado. “Só quando estiver tudo fechado e tiver a alta final é que o hospital emite o extrato. O que sabemos, segundo o que nos disseram, é que o valor mínimo aproximado rondará 150 mil euros”, esclarece a enteada. Esse valor só terá tenderá a subir.

Luís e Felismina estão agora em casa em casa de conhecidos nos EUA, mas se até 18 de setembro, ainda não tiverem regressado a Portugal, terão que procurar alojamento num hotel. A essa despesa, acrescem também as consultas e exames que ainda terá que fazer. “Assim que sai do hospital, os exames e consultas feitos têm de ser pagos na hora. Hoje [segunda-feira, 12], ele vai ter que fazer uma TAC e serão pelo menos 1.500€.”

Com Luís aparentemente fora de perigo, os médicos norte-americanos recomendaram que fosse feita uma reconstrução craniana, o que tornaria ainda mais elevada a fatura já de si incomportável. “Estamos a tentar que ele regresse a Portugal, para completar a recuperação no SNS, mas os médicos dizem que não pode viajar para já, que é preciso fazer mais exames, repousar e avaliar. E que, fazendo a viagem assim, o risco será sempre maior.”

Desde o fatídico dia que Francisca tem também procurado ajuda noutros locais. Esbarrou na relutância do consulado português em Nova Iorque, que recusou atendê-la sem marcação. “Recomendaram que mandasse um email para a embaixada em Washington. Só me responderam a 3 de setembro, quando já estava em Portugal, a dizerem que não podiam fazer nada. Contactei também a Câmara Municipal do Porto e o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Os primeiros disseram que não podiam fazer nada, o segundo não respondeu.”

A família não procura ajuda financeira para pagar a pesada fatura, mas apenas ajuda com a logística. “Porventura uma ajuda social, no alojamento em Nova Iorque, ou ajuda nos custos de repatriamento. Se não estivessem em casa de conhecidos, estaríamos a pagar 200 euros por noite, o que seria incomportável.”

Por seu lado, a angariação de fundos tem sido um sucesso e estará já a ser uma ajuda valiosa para fazer face às despesas avultadas, enquanto não chega a fatura do hospital, que salvou a vida a Luís, mas que poderá deixar outro tipo de marcas. “Este valor vai endividá-lo para o resto da vida. Quando lançamos a angariação, pensava que poderíamos evitar que fosse preciso pedir um empréstimo. Estava a ser otimista”, conta. “O Luís ficará sempre com algumas sequelas físicas, e além disso, terá mais um empréstimo para pagar.”

O valor final? Ninguém sabe bem quanto será, sabem apenas que será impossível pagá-lo com os seus meios financeiros. “Acho até que os 150 mil são uma estimativa feita muito por baixo”, lamenta Francisca.

A angariação de fundos está a decorrer na GoFundMe, mas as ajudas podem também ser enviadas por MBWay (962 362 216) ou para o IBAN PT50003507320005378990092.

 

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