Saúde

Portugueses estão a fazer menos sexo: será que a pandemia matou o desejo sexual?

A sexualidade parece estar adormecida no pós-confinamento, mas a primavera pode despertar novamente os sentidos.
Desejo sexual diminuiu durante o confinamento.

Um estudo da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto revelava, em março deste ano, que houve uma diminuição da frequência e satisfação sexual desde o início da pandemia. Mas será que o desejo sexual dos portugueses deu uma reviravolta ou o sexo continuou a ficar de fora dos planos a dois? Foi isso que a NiT perguntou a Susana Dias Ramos, especialista em sexualidade clínica.

“Efetivamente os portugueses estão a fazer menos sexo”, começa por dizer. Segundo o estudo do Sexlab, 47 por cento dos inquiridos fizeram menos sexo desde o início da pandemia e 40 por cento admitiram uma diminuição da satisfação sexual. “Durante o confinamento toda a gente esteve 24 horas por dia sempre com a mesma pessoa, o companheiro, e o mistério acaba por se perder”, explica Susana Dias Ramos.

A especialista relembra que a falta a saudade, a presença da pessoa e até a vontade de voltar a ver o parceiro no final do dia, podem ser fatores importantes no desejo sexual: “A verdade é que vamos alimentando a libido com a ausência da pessoa e não com a sua presença constante.” Esta vigência constante “só é gira na lua de mel. E era muito mais interessante antigamente, porque agora as pessoas já não vão para a lua de mel encontrar a sexualidade do outro” — normalmente já a conhecem de antemão. 

Durante o confinamento fomos obrigados a viver com o parceiro praticamente todas as horas do dia, durante meses. Acordávamos e adormecíamos sempre ao seu lado e o quotidiano podia tornar-se pouco interessantes. Nesse sentido, “a sexualidade ficou um bocadinho adormecida neste pós-confinamento”, diz a especialista.

Até porque as pessoas têm mais cuidado em não se envolverem e não veem outras pessoas com tanta frequência. O medo de estar com alguém pela primeira vez ou de conhecer alguém novo foi aumentando com o crescimento do número de casos de Covid-19. E houve um isolamento na bolha dos amigos e da família — sem espaço para ninguém novo entrar.

“A sexualidade está mais comedida não só nos casais que já existiam, mas também em novos relacionamentos e parelhas recentes porque não há um à vontade para as pessoas se envolverem.” E até as próprias máscaras tiveram um papel importante na diminuição do interesse sexual, principalmente porque ocultam parte importante do rosto e acabam por dificultar a atração.

Será que a falta de sexo pode afetar as relações? “Pode levar à falta de intimidade e, no extremo, a uma separação do casal”, responde Susana. As pessoas habituam-se a viverem juntas como companheiros de casa e amigos. “Esta situação pode, de hoje para amanhã, estragar o que foi construído ao longo de vários anos de relacionamento”, acrescenta.

A especialista reforça a ideia de que podemos terminar uma relação amorosa se não a alimentarmos com paixão: “O amor não chega, é preciso a paixão, a sexualidade e, a cima de tudo, a intimidade.”

Mesmo em relação ao sexo entre pessoas solteiras e descomprometidas, “há menos atividade sexual porque as pessoas não se encontram.” Até aqui tudo era uma vivência de redes sociais. Se não fosse a Internet, não conseguiríamos conviver nem ver outras pessoas. Agora já nos começamos a relacionar novamente, as discotecas voltaram a abrir, os bares e os restaurantes também e já temos capacidade para nos encontrarmos e convivermos com outras pessoas.

“Claro que a impossibilidade de conhecer pessoas com que quem se poderiam envolverem sexualmente influenciou negativamente quem estava sozinho e que não tinha uma relação amorosa”, afirma Susana. Até à abertura dos espaços, as caras que estavam no nosso círculo, foram as que continuaram. Principalmente porque era muito difícil conhecer e relacionarmos-nos com quem não fazia parte do nosso grupo. “Com a abertura dos espaços de lazer creio, e espero, que as pessoas voltem a procurar satisfazer o seu desejo sexual”, comenta.

“As pessoas estão um bocadinho deprimidas de tudo o que aconteceu. Quando ficamos muito tempo sem ter relações sexuais, temos pouca vontade de as ter novamente. Quanto mais tempo passa sem satisfazermos este desejo, menos vontade temos de nos envolvermos com outros”, explica a especialista em sexualidade clínica.

Mas há esperança: “Com a primavera os sentidos ficam mais despertos, a roupa fica mais leve, a sexualidade fica mais apurada, há mais aromas no ar, há mais calor. Tudo fatores que aumentam o desejo sexual”, acrescenta. 

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