Saúde

Pseudobulbar: a síndrome que provoca ataques de riso ou choro nas ocasiões mais impróprias

É uma das características do vilão Joker, que não consegue parar de rir. Trata-se uma condição neurológica e não psiquiátrica.
É este o síndrome que caracteriza o Joker.

Todos nós já tivemos ataques de riso incontroláveis. Uma piada, uma situação caricata ou absurda podem desencadear uma reação que, em alguns momentos, pode mesmo tornar-se desconfortável. Apesar do incómodo, é  que acontece de forma esporádica. Exceto para quem sofre de uma condição neurológica rara que provoca explosões involuntárias e inadequadas de riso, choro — ou ambos. É isto que acontece com a síndrome pseudobulbar.

Apesar de ser relativamente desconhecida, já foi abordada num dos filmes mais bem-sucedidos dos últimos tempos: “Joker”. O vilão protagonizado por Joaquin Phoenix tem uma característica distintiva: ri incontrolavelmente nas situações menos adequadas. No entanto, a síndrome também se pode manifestar em forma de choro. “Há uma incontinência emocional. Uma pessoa pode estar a chorar e, no momento seguinte, já está a rir. A reação muda sem que ela consiga controlar e acaba por ser incapacitante”, conta à NiT Filipe Palavra, neurologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia.

Em Portugal não se sabe ao certo quantos sofrem desta condição. Os sintomas manifestam-se em ocasiões aleatórias, incluindo nas alturas mais inconvenientes. Imagine o que é estar num funeral e começar a rir de forma incontrolável ou estar num espetáculo de stand up comedy e desatar a chorar. Esta acaba por ser a realidade de muitos, explica o especialista.

A síndrome pseudobulbar pode ser um sintoma de algo mais grave — frequentemente “acompanha doenças neurodegenerativas”, como o Parkinsons, a demência, a esclerose múltipla ou a esclerose lateral amiotrófica. Também pode surgir após um trauma cerebral. Apesar de se manifestar de forma exuberante, a condição nem sempre é fácil de diagnosticar porque surge associada a variadas condições neurológicas. “O diagnóstico é feito na sequência das manifestações clínicas que caracterizam este síndrome. O próprio doente queixa-se desta dificuldade ou a família informa desta incompatibilidade entre a expressão do paciente e o contexto social”, aponta.

Muitas vezes confunde-se o síndrome pseudobulbar com a bipolaridade. Por vezes, o paciente só é corretamente diagnosticado depois de ser submetido ao tratamento para a doença bipolar e este não surtir qualquer efeito. Os sintomas, contudo, são bastante semelhantes. “Viram rapidamente de depressivos para efusivos”, explica Filipe Palavra.

Quando a pessoa estiver com um riso incontrolável, pode ser sedada. Caso o problema seja o choro constante, podem ser receitados antidepressivos. Estas são, por enquanto, as únicas soluções. A síndrome pseudobulbar ainda não tem tratamento. “Para tratar tínhamos de saber o porquê, o mecanismo exato que a desencadeia, mas não sabemos”, revela o neurologista. Surge devido à “desenervação crónica de estruturas do tronco cerebral”, o que significa que se trata de uma síndrome neurológica e não psiquiátrica.

Existem pessoas que podem ter uma maior predisposição de virem a desenvolver esta condição. Quem tem casos de Alzheimer na família, por exemplo, corre um risco maior . No entanto, a patologia pode afetar qualquer um, visto que também se pode manifestar após um acidente vascular cerebral (AVC). A síndrome pseudobulbar é um das consequência mais comuns de um AVC, com uma taxa de prevalência de 11 a 52 por cento.

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