Saúde

Quase 70% das crianças internadas com síndrome rara da Covid-19 eram saudáveis

Chama-se síndrome inflamatória multissistémica e manifesta-se após a infeção.
É rara, mas grave.

A síndrome inflamatória multissistémica (MIS-C) é uma das consequências da infeção do coronavírus SARSCoV-2 e afetou milhares de pessoas em todo o mundo, incluindo Portugal. Os sintomas desta síndrome, que podem ser febre alta ou dor abdominal, entre outros, manifestam-se entre quatro a seis semanas após o pico da infeção e podem surgir mesmo quando as manifestações da doença são ligeiras e sem necessidade de internamento hospitalar.

Quase sete em cada dez crianças que estiveram internadas com esta síndrome pós-Covid no Hospital D. Estefânia eram previamente saudáveis, segundo um estudo divulgado pela revista “Ata Médica” na sexta-feira, 2 de dezembro. O estudo em questão, que decorreu entre abril de 2020 e abril de 2021, tinha o objetivo de descrever as características das crianças que foram hospitalizadas no hospital pediátrico de Lisboa com a MIS-C.

Após a análise de dados demográficos, clínicos, exames de diagnósticos e terapêutica, das complicações e sequelas da doença, o estudo concluiu que, apesar de não terem existido mortes entre os 45 doentes internados, a maioria (90,4 por cento) dos 21 doentes que voltaram a ser avaliados após a alta apresentaram diminuição da tolerância ao esforço. Desses, 53,3 por cento apresentaram uma lesão cardíaca persistente.

“Observámos várias sequelas cardíacas, físicas e psicológicas e, por essa razão, é importante salientar que estes doentes devem ter um longo acompanhamento, com especial enfoque no envolvimento cardíaco, uma vez que é uma marca registada do MIS-C”, alertaram os investigadores.

Dos 312 doentes hospitalizados com a infeção durante aquele período, 45 tinham esta síndrome rara da Covid-19, sendo que a maioria (68,9 por cento) eram anteriormente saudáveis.

A febre, a dor abdominal, vómitos, erupção cutânea e hiperemia conjuntival bilateral foram os sintomas mais comuns. Apesar dos sintomas, grande parte dos doentes só era admitido no hospital após seis dias, “um longo período de tempo considerando a potencial gravidade da doença”, segundo o estudo.

“O diagnóstico da MIS-C é um desafio na prática clínica atual e requer um elevado nível de suspeição pois o início atempado de terapêutica é fundamental para prevenir complicações”, referem os investigadores.

A síndrome inflamatória multissistémica é uma manifestação rara e grave da Covid-19 e ainda são “necessárias provas para esclarecer os vários aspetos”.

Francisca Veiga Frade, especialista em medicina interna no Hospital CUF Cascais, explicou à NiT que esta síndrome pode ser incapacitante, prejudicando a realização de atividades diárias, uma vez que os doentes sentem um cansaço e falta de energia desproporcionais,  comprometendo a rotina familiar e profissional.

“As manifestações são altamente variáveis e podem ter intensidade flutuante, ao longo do tempo, podem ser quadros com gravidade pulmonar ou cardíaca, mas também podem existir queixas de tosse, dor torácica, cansaço e falta de ar sem lesão”, explica.

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