Saúde

Quebrar tabus: “Fiz uma cirurgia vaginal e a minha vida mudou drasticamente”

Há vários fatores que podem contribuir para mudanças na saúde íntima feminina. A NiT falou com duas mulheres que nos contam as suas histórias.

Não há volta a dar, o nosso corpo envelhece. Os primeiros sinais são as rugas de expressão um pouco mais vincadas. Depois, chegam os cabelos brancos e a flacidez, que se nota no famoso músculo do adeus, nas pernas, rabo ou seios. E também na vagina. No entanto, existem opções estéticas para atrasar o envelhecimento do órgão sexual feminino, embora quase ninguém fale sobre isso. O pretexto certo para a NiT explicar exatamente o que está em causa, contado na primeira pessoa por duas mulheres e por uma médica especialista.

O envelhecimento, as alterações hormonais, a gravidez e o parto podem contribuir para mudanças estéticas nas vaginas. E há muitas pessoas que passam por isso enquanto sofrem em silêncio. Mas não tem de ser assim, até porque há cada vez mais tratamentos para os diferentes casos.

Existe, aliás, uma área saúde que facilmente se une ao bem-estar e que se tem tornado popular nos últimos anos. A ginecostética pretende melhorar a saúde íntima das mulheres, através de diferentes procedimentos cirúrgicos e estéticos, melhorando a funcionalidade e o prazer de uma sexualidade saudável.

Mónica Gomes Ferreira, especialista nesta área, começa por explicar à NiT que existem vários tratamentos para as quase todas as condições. “Por exemplo, as mulheres mais jovens procuram melhorar o aspeto da vulva, ou tratamentos associados à função sexual“. E continua: “No pós-parto e na pós-maternidade existe maior procura para tratamento da menor elasticidade dos tecidos que se podem realizar através de tratamentos minimamente invasivos, como a radiofrequência ou laser, por exemplo”. Na menopausa, existe maior procura para tratamentos de aspetos funcionais como secura e atrofia genital e que, com várias opções terapêuticas, melhoram muito a qualidade de vida da mulher.

“A dissimetria dos lábios vaginais mexia com a minha autoestima”

Maria Morais, com 33 anos, sofria de uma condição física que a perturbava há vários anos: dissimetria dos lábios vaginais. “Eram muito grandes e assimétricos“, conta à NiT.  Depois de ser mãe duas vezes, em janeiro deste ano, a jovem empresária decidiu que estava na hora de mudar algo que a incomodava. Através de uma amiga que tinha o mesmo problema encontrou a solução: labioplastia. Uma cirurgia para reduzir e corrigir os pequenos lábios.

“Depois de muita pesquisa decidi avançar com o procedimento porque estava mesmo desconfortável, não só com a parte estética, como com a parte funcional. Tinha imensas dores na zona genital, sobretudo quando andava de bicicleta ou quando passava muitas horas sentada“. Depois com a chegada do verão, a situação complicava-se: “Usar biquíni era um problema, porque se notava que havia uma proeminência. E depois havia a parte pior, as feridas. Quando transpirava mais, ficava com pequenas lesões, que eram dolorosas“.

A cirurgia foi simples, em regime de ambulatório e relativamente rápida. “Demorou cerca de 30 minutos. Levei anestesia e o procedimento aconteceu no bloco operatório, mas no final do dia pude voltar para casa”. O procedimento foi um pouco mais invasivo: “fiquei de repouso durante três dias e foram-me receitados antibióticos e anti-inflamatórios”. Mas nunca sentiu dores, garante. “A zona estava um pouco inchada e senti um leve desconforto, mas o gelo ajudou”. Ao longo da primeira semana os sintomas mantiveram-se, mas já tinha sido autorizada a fazer a sua vida normal.

Passados alguns meses, Maria revela que a sua vida sexual mudou drasticamente para melhor, não só pelas dores, mas pela diferença que sentiu na sua autoestima. “Já o devia ter feito mais cedo. Este problema mexia muito comigo, mas existe ainda um certo tabu sobre estes temas, sobretudo se compráramos com os Estados Unidos e Inglaterra, dois países onde vivi”.

“Depois da menopausa deixei de sentir prazer durante as relações sexuais”

Elsa Silva tem 55 anos, é natural de Lisboa e está desempregada. Durante 30 anos trabalhou na área financeira, até que um enfarte e uma cirurgia ao coração a levou a parar, definitivamente. “Adorava o que fazia, trabalhava fora de horas, à noite, aos fins de semana. Foram anos a dormir pouco, o que talvez tenha influenciado este desfecho”.

A chegada da menopausa trouxe uma grande mudança na sua vida. Além de descobrir que sofria de diabetes, reparou que as alterações hormonais estavam a ter consequências noutro campo, o sexual. “Durante o último ano e com todas as mudanças e reviravoltas que a minha vida deu, o meu desejo sexual e a lubrificação diminuíram. Em simultâneo, comecei a perceber que tinha problemas vaginais como dores e alguns ardores, que até então não tinha”, revela à NiT.

Casada há mais de 20 anos, Elsa conheceu uma situação diferente da que tinha vivido até àqueles meses. “Durante a penetração comecei a sentir dores, ou seja, deixei de ter prazer“. Inconformada e assustada com a situação, começou a investigar possíveis causas e a consultar alguns médicos. Depois de cinco anos e de várias consultas e diagnósticos falhados encontrou um termo que lhe era desconhecido: ginecoestética.

Decidiu experimentar e foi a uma consulta com a ginecologista Mónica Gomes Ferreira que lhe apresentou o tratamento mais adequado às suas necessidades, a radiofrequência. Elsa sofria de algo que muitas mulheres na mesma condição sofrem: atrofia e secura vaginal. Em março, começou os tratamentos e, depois de duas sessões, notou uma grande diferença na sua vida. “Já voltei a ter prazer e já não tenho dores”.

O procedimento, no caso da Elsa, custou 1800€ e consistiu na estimulação das células de colagénio, uma proteína naturalmente presente nos tecidos do corpo, que contribui para a resistência e elasticidade da pele, para a saúde dos cabelos e unhas, ossos, articulações e tendões e que vai desaparecendo ao longo do tempo. Segundo a paciente, não sentiu qualquer dor, mas sente uma sensação de calor. “O mais incomodativo é realmente o barulho da máquina”, explica à NiT.

Nos dias seguintes não teve qualquer efeito secundário, mas isso pode acontecer noutros casos. Mónica Gomes Ferreira explica à NiT que para evitar essas consequências negativas, além de seguir as recomendações do especialista, “o importante é manter uma higiene adequada da zona com produtos específicos, a toma de analgesia, antibióticos e anti-inflamatórios (sempre que indicados) e recomendações a realizar no caso de existir algum inconveniente associado”.

Segundo Mónica Gomes Ferreira, estes casos não são únicos. “Há cada vez mais procura dos serviços médicos associados à Ginecologia Estética, Regenerativa e Funcional. Os tabus associados a estes temas ainda existem, mas vão diminuindo cada vez mais porque a mulher tem de interpretar as alterações genitais como naturais ao longo da vida e que podem ser recuperadas”.

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