Saúde

Quem é a portuguesa que lidera a pesquisa inovadora em busca da cura do cancro da mama

Sandra Tavares é responsável pelo projeto que descobriu uma proteína que permite prever a eficácia da quimioterapia.
Grandes descobertas para medicina.

Natural de Espinho, Sandra Tavares de 35 anos, lidera a equipa de desenvolvimento do projeto que descobriu uma proteína que consegue prever a eficácia da quimioterapia em pacientes com uma patologia oncológica das mais agressivas.

O cancro da mama é o mais frequente entre as mulheres e uma das principais causas de morte do sexo feminino. É uma doença muito complexa, com vários subtipos, uns mais agressivos que outros. É o caso cancro de mama triplo-negativo.

Afeta 13 em cada 100 mil mulheres em todo o mundo anualmente e é responsável por 15 por cento dos cancros mamários invasivos. Triplamente negativo significa que nenhuma das moléculas para as quais existe tratamento está presente nestas células tumorais. Apesar de ser considerado um tipo raro de cancro da mama, o nível de agressividade e a metástase rápida são preocupantes porque as opções terapêuticas não funcionam e uma grande maioria das pacientes não sobrevive ao agravamento da doença.

A investigadora.

A complexidade do cancro de mama triplo-negativo fascinou Sandra Tavares, licenciada em bioquímica e doutorada pelo Instituto Gulbenkian de Ciência. O primeiro contacto com a patologia aconteceu ainda durante o doutoramento nesta instituição. Foi, aliás, a pesquisa que já tinha realizado sobre a doença que lhe permitiu integrar a equipa de investigação enquanto responsável pelo projeto do grupo Cytoskeletal Regulation & Cancer do i3S.

O estudo, realizado na Holanda, concluiu que existe uma proteína nas células tumorais que permite prever a eficácia da quimioterapia nas pacientes com este tipo de patologia. A investigadora portuguesa afirma que as mulheres com cancro da mama triplo negativo que apresentam elevados níveis de proteína FER, “reagem melhor à quimioterapia com taxanos, um tipo de medicamento normalmente associado ao retardamento da divisão celular e, consequentemente, ao crescimento do tumor”.

“O triplo negativo é um tipo de cancro da mama que a partir do momento em que é diagnosticado, não existem muitas certezas em relação à evolução da doença. Com esta ferramenta podemos desenvolver uma estratégia para a tratar com mais eficácia”, explica Sandra Tavares à NiT.

Utilizar a quimioterapia de forma inteligente

“Quando as pacientes não têm esta proteína, a quimioterapia não faz qualquer efeito”, salienta a investigadora, que integra o grupo Cytoskeletal Regulation & Cancer do i3S. Neste momento, os cientistas estão a trabalhar no desenvolvimento de um teste para avaliar os níveis da proteína em tumores de mama triplo negativo.

Esta descoberta pode tornar-se uma ferramenta muito útil para o uso mais inteligente da quimioterapia. Neste momento, os investigadores estão a trabalhar no desenvolvimento de um teste para avaliar os níveis da proteína em tumores de mama triplo negativo. O processo que está a ser estudado e estima-se que seja simples, prático e que esteja disponível em todos os hospitais.

É feito um teste — chamado imunoestaquimica — que já é usado nas unidades de saúde para outros fins, como no âmbito da procura por recetores de estrogénio. O objetivo é usá-lo detetar a presença da proteína FER.

“Só foi possível chegar a estes resultados num curto espaço de tempo — 5 anos — porque apostamos numa estrutura multidisciplinar: médicos, especialistas em bioquímica e em ciências moleculares”, revela Sandra. E estima-se que dentro de um ou dois anos já seja possível fazer este teste em todos os hospitais. Assim será possível usar a quimioterapia de forma inteligente, ou seja, se souberem à partida que os tratamentos não serão eficazes, os médicos podem partir para outra abordagem, e assim mulheres são poupadas dos efeitos nefastos já conhecidos.

O prémio da L’Oréal Portugal

A investigadora foi distinguida com uma Medalha de Honra L’Oréal Portugal para Mulheres na Ciência. A especialista quer usar os 15 de mil euros que recebeu pela distinção para identificar moléculas que estão envolvidas no processo de desenvolvimento de metástases em cancro da mama triplo-negativo. Para isso, Sandra Tavares fará uma combinação de rastreios que permitirão avaliar os níveis de expressão dos genes e os de proteínas em estruturas tridimensionais que podem ser manipuladas em laboratório.

À NiT revelou que “foi uma honra receber este prémio, que tem uma grande peso na comunidade cientifica, tanto nacional e internacional”. Desde a sua primeira edição, já distinguiu 61 jovens cientistas em Portugal. O grande objetivo é incentivar a investigação e trabalho desenvolvido por mulheres nas áreas da saúde e do ambiente, contribuindo para uma sociedade mais inclusiva e equitativa.

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