Saúde

Quem é Gustavo Carona, o médico que ralha e que dá esperança aos portugueses?

Aos 39 anos, correu o mundo a salvar vidas. Hoje, é uma das vozes mais ouvidas da linha da frente do combate à pandemia.
É uma espécie de herói sem capa

“Não se preocupe, vai correr tudo bem”, explicou a um paciente de Covid-19 já com muitas dificuldades respiratórias, antes de o adormecer para depois ser ligado a um ventilador. “Menti com o mesmo carinho com que lhe apertava a mão, porque não sei se a minha mão e as minhas palavras não serão as últimas que o irão tocar”, confessou o anestesista de 39 anos que, por estes dias, se tornou na cara mais visível da linha da frente do combate à pandemia.

Aos 39 anos, Gustavo Carona ganhou um lugar de destaque pela forma como aborda o impacto da doença na sua vida, na vida dos pacientes, dos portugueses e do mundo. O médico que trabalha no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, não era propriamente um desconhecido quando, a 28 de outubro, viu o seu desabafo em vídeo tornar-se viral.

“Ignorância sobre a doença é a única coisa que vai matar mais do que a própria doença”, sublinhou num ataque aos negacionistas que teimam em menorizar a gravidade do novo coronavírus.

O médico não tem apenas talento para cuidar dos outros. Tem também o dom da palavra e da escrita. Há 16 anos a exercer a profissão, há mais de uma década que se juntou aos Médicos Sem Fronteiras, com os quais participou em diversas missões humanitárias que o levaram a viver no meio de alguns dos ambientes mais adversos e perigosos do mundo.

Foram essas experiências que partilhou em livros como “1001 Cartas para Mosul”, escrito antes da viagem para um Iraque em ruínas, onde ajudou a salvar vidas no meio de um conflito. Ou “O Mundo Precisa de Saber”, que editou em 2018 e que reúne os relatos pessoais das passagens por diferentes cenários de guerra.

Nascido em Toronto, no Canadá, em 1980, vive no Porto desde 1982 — e é, claro, adepto do FC Porto, clube do qual leva sempre um cachecol preso na mochila, vá para que país for. Formou-se na Faculdade de Medicina do Porto em 2004 e em 2011 terminou a especialidade de anestesiologia.

Agora, emerge como uma das vozes nas redes sociais que mais alertam para os perigos da doença e, sobretudo, como voz de apelo para que a população siga os conselhos dos especialistas.

Salvar vidas pelo mundo

Começou a trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras em 2009. A organização que envia voluntários para os locais mais problemáticos do planeta — normalmente afetados por conflitos e não raras vezes com serviços de saúde quase inexistentes — ajudou-o a viajar até ao Congo, onde teve a primeira experiência.

Foi na dizimada zona junto à fronteira com o Ruanda que fez o que nunca pensou fazer. Entre muitas cesarianas, teve que fazer reanimação a um recém-nascido, com pouca ou nenhuma prática, já que é raro que situações semelhantes aconteçam em países desenvolvidos.

A observá-lo estava a mãe, anestesiada da cintura para baixo, sem perceber muito bem o que se passava. Com o bebé já a respirar normalmente, Gustavo relaxou.

“Como a comunicação verbal era impossível (…) passei a minha mão pela testa e cabelo acariciando-a, sorrindo e passando a mensagem que estava tudo bem e o perigo estava longe do seu bebézinho. Foi aí que ela me disse algumas palavras que eu não percebi. Esticou-me o braço e eu continuei sem perceber. Até que um enfermeiro congolês (servindo de intérprete Francês-Swahili) me disse: ‘Ela quer apertar-lhe a mão Doutor’. E assim foi, apertando-me a mão olhando-me nos olhos com verdade e transparência, no seu olhar negro e tão profundo que ela me disse ‘Asante Sana’. Muito obrigado”, recorda o médico no seu blogue.

O bebé congolês que Gustavo salvou

Desde então, quase todos os anos reserva um período das suas férias para viajar até onde mais ninguém quer ir. Passou por Moçambique, Afeganistão, Iraque, Sudão do Sul, Iémen, República Centro-Africana ou até mesmo pela Palestina.

Esteve também na Síria, em 2013, altura em que a guerra civil colidia com a invasão do Estado Islâmico e criava uma tempestade perfeita para os problemas. Quando lhe perguntam o que espera das viagens, responde quase sempre que espera o inesperado.

“Nunca escolhi os sítios para onde fui. Tenho aceitado as propostas de missões que me têm feito. O que tento sempre ser é intelectualmente honesto e ir para qualquer sítio que me proponham”, explicou em 2017. 

Mesmo com a proteção da organização, que assegura que os intervenientes em conflitos dão a sua bênção à presença dos médicos, é necessário estar preparado para tudo. Raptos, uso de armas químicas, tudo.

“Já tive armas próximas, nas mãos de pessoas que não são propriamente boas, e isso intimida. Já ouvi bombas a explodir perto de mim e isso intimida”, revelou numa declaração ao “Notícias ao Minuto”, antes de recordar o rapto de cinco colegas seus na Síria, já depois de ter regressado a Portugal. 

Os seus relatos focam-se não só nas experiências que traz do terreno, mas sobretudo nas lições de humanidade que vai aprendendo nesses países esquecidos. Foi também isso que o levou ao palco de uma TEDx Talk em 2018, onde falou sobre o que significa ser humano — e onde voltou em 2019 onde ousou tentar dar a própria resposta a uma pergunta nada simples: “Como salvar o mundo?”

Em 2018, lançou um novo livro, “O Mundo Precisa de Saber”, uma coletânea de histórias contadas na primeira pessoa, que não só contextualizam as catástrofes que encontrou nas viagens, mas que sobretudo falam sobre os encontros de Gustavo Carona com iraquianos, afegãos, palestinianos, sírios e todas as vítimas que conheceu.

“O mundo precisa de saber que estas realidades existem (…) Nós não podemos deixar que a nossa empatia esbarre na fronteira da nossa vizinhança, ou da nossa família, ou da nossa cidade, ou do nosso país, ou da língua que nós compreendemos, ou da religião que nós professamos. Temos de deixar que a nossa empatia absorva a máxima de que todas as vidas são iguais”, confessou ao “Expresso” em 2018.

Combater a pandemia no hospital (e nas redes sociais)

A grande luta agora faz-se cá por casa. A pandemia levou uma crise de saúde pública a todo o mundo: países ditos desenvolvidos e países em desenvolvimento. No cenário português, Gustavo Carona é mais um intensivista entre muitos.

Começou por partilhar os seus relatos em abril, com o seu “Diário de um Intensivista”, onde foi relatando as forças e as fraquezas, as suas e a dos colegas que iam “caindo” na linha da frente. “Vão para casa desfeitos de cabisbaixo, não pela doença em si, mas porque por uns tempos não podem ajudar”, confessava.

Aos poucos, os seus relatos foram transmitindo duas mensagens importantes: que era preciso dar mais condições aos profissionais de saúde; e que todos os portugueses deveriam assumir para si a responsabilidade de, com os seus comportamentos, ajudar a estancar a disseminação da doença.

À medida que a pandemia acalmou e regressou ainda mais forte no outono, as palavras foram ficando mais fortes e emotivas. Começou a fazê-lo para lá do seu blogue e da página nas redes sociais.

“Acreditar com muita força para que a doença se vá embora é como ir discutir com um vulcão. A natureza será sempre superior à espécie humana, e não há nenhuma alternativa ao contorno coletivo e civilizado do obstáculo que nos foi imposto”, atirava numa crónica no “Público”, publicada no final de outubro.

O vídeo que lançou poucos dias depois de escrever a crónica foi partilhado até à exaustão nas redes sociais. Numa espécie de desabafo sem filtros de quem há meses que não faz outra coisa senão salvar vidas (e perder outras), Gustavo Carona perdeu a paciência.

“Não é tempo para questionar as autoridades de saúde. Isto não se resolve nos hospitais, isto resolve-se a montante dos hospitais. Não há nada que nós possamos fazer nos hospitais para controlar a pandemia. Isto é um problema de saúde pública, é um problema da sociedade civil, é um problema do nosso comportamento coletivo.”

Tem também servido de voz a muitos dos colegas, sobretudo os da zona norte, a primeira a ser gravemente atingida na primeira vaga e agora a que mais preocupa as autoridades, à medida que não se avista abrandamento na já mais gravosa segunda vaga.

À NiT, deixa uma previsão negra para os próximos meses: “Para mim já é evidente — e quando digo para mim, acho que para muitas pessoas também —, que vamos estar a gerir uma catástrofe muito maior do que aquilo que foi visto em Itália e em Espanha na primeira vaga”.

Como sempre e como é seu hábito, o médico de 39 anos acaba sempre por encontrar uma espécie de momento redentor, até nas histórias mais tristes. Perante o relato de um doente sem grandes chances de sobrevivência, acaba por deixar um apelo sentido: “Um dia vamos contar a história desta pandemia, que ironicamente nos pede para não nos tocarmos hoje, sabendo que tudo o que importa na vida é que em breve nos toquemos para sempre, nas mãos, nos abraços, nos beijos e nos corações”.

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