Saúde

Quem é o enfermeiro futebolista campeão europeu que ajuda a salvar vidas

De dia é craque na areia, à noite veste a farda para lutar contra a pandemia. Tiago Batalha é uma espécie de Clark Kent dos enfermeiros.
Só lhe falta a capa

Podíamos dizer que ele chegou, viu e venceu. Só que esta história não é tão curta. Depois de vencer, Tiago Batalha festejou, jantou e trabalhou. Dizem que é herói a dobrar: na areia conquistou um título europeu por Portugal; nas urgências do hospital é um dos profissionais de saúde na linha da frente. Quando não está a combater a desidratação enclausurado nos novos equipamentos de proteção, está a dar toques na praia da Nazaré. Há tempo para tudo, até porque, confessa, “quem corre por gosto não cansa”.

Aos 31 anos, o enfermeiro nascido e criado na Nazaré foi um dos jogadores que ajudou Portugal a erguer o troféu europeu pela sétima vez. A final jogada a 6 de setembro teve um final feliz. Foi o pico de uma carreira que o levou a jogar em Itália e na Suíça. Por cá, passou por clubes como o Sporting, Sp. Braga, Nacional da Madeira até chegar ao clube da terra-natal, o Associação Cultura e Desporto O Sótão, que disputa o campeonato nacional.

“Sendo da Nazaré, era o único jogador nazareno que nunca tinha jogado pela equipa local”, explica à NiT. Formado na Escola Superior de Saúde de Leiria, é de terra de craques do futebol jogado na areia — Jordan Santos, eleito o melhor do mundo em 2019, é seu conterrâneo —, mas Tiago manteve-se sempre nos dois lados da barricada. Enquanto muitos dos seus colegas são profissionais do desporto, ele batalha nos areais apenas nos tempos livres.

Livres, que é como quem diz. Organizar horários de trabalho e de treinos é uma espécie de puzzle de mil peças. Entre os dois filhos, turnos arriscados em tempo de pandemia no serviço de urgência do Centro Hospitalar de Leiria e treinos exigentes, sobra pouco tempo para respirar. À NiT, explica como o consegue fazer com sucesso — e pelo caminho tratar da saúde à Covid-19.

Conquistou um título europeu e poucas horas depois estava a trabalhar. Nem deu tempo para tirar a areia do corpo.
Não houve tempo para grandes festejos. O jogo foi as 17h30, entre as 20h e as 21h estava em casa a jantar. Quis voltar para a minha família o quanto antes, aproveitar o tempo para estarmos juntos, antes de entrar ao trabalho à meia-noite. Os festejos maiores até foram feitos no hospital com os meus colegas. Até puseram um panfleto a dar-me os parabéns no cacifo.

Apesar do cansaço, foi um turno mais fácil, não?
A felicidade ajuda um bocadinho, isto num serviço onde vemos tanta coisa. Por vezes até é psicologicamente mais pesado do que o cansaço físico. O turno acabou por ser mais leve do que o normal.

Saiu-lhe a sorte grande: poder jogar e vencer o campeonato europeu na terra-natal. Quando não é assim, o trabalho atrapalha os planos?
Se fosse noutro país era impensável fazer a viagem. Consegui agilizar as coisas e entre festejos e jantar, deu para encaixar ali aquele turno.

“Os festejos maiores foram feitos no hospital com os meus colegas”

A sua situação é inédita na seleção nacional?
Muitos deles têm a felicidade de viver só do futebol de praia, também porque são jogadores de top mundial. Alguns têm contratos profissionais com os clubes, outros têm os seus negócios, alguns ainda estudam. O que estava mais atrapalhado com o trabalho até era eu.

Mas conseguiu.
Por acaso no campeonato europeu tive uma situação complicada. Cerca de seis colegas meus tiveram que ficar em quarentena por terem estado em contacto com um paciente infetado. Só que a quarentena deles apanhava os meus dois primeiros dias de competição. Para não sobrecarregar os meus colegas com a minha ausência, pedi trocas de turnos e sobrecarreguei a semana anterior e a seguinte. Por lei, tinha o direito a pedir a ausência, mas achei que não devia meter os papéis e ir à minha vida. É apenas senso comum.

Tiago tem 31 anos e trabalha na urgência

Hoje joga em casa, num clube da Nazaré que disputa o campeonato nacional. É difícil conciliar o futebol e a enfermagem?
Como treino na Nazaré, é mais fácil. O treinador diz me antecipadamente quando são os treinos e eu coordeno o meu trabalho em função disso. Por vezes faço o turno da noite, vou treinar de manhã e só depois vou descansar.

Chegou a jogar no estrangeiro, na Itália e na Suíça, sem parar de trabalhar. Como é que isso é possível?
O futebol de praia não é profissionalizado. Temos a liberdade de fazer o nosso trabalho de casa, de treinar. Aqui na Nazaré treino na praia com muitos jogadores de classe mundial. A nível nacional não temos que estar todo o ano na cidade do clube onde jogamos.

“Quando jogava no Nápoles chegava a sair de noite e viajar na quarta-feira. Jogava três dias e voltava na segunda-feira. Se tivesse sorte, não trabalhava nesse dia”

E como é que funcionava essa ginástica quando o clube está à distância de uma viagem de avião?
Nesse caso, ao contrário do campeonato europeu, não tinha a lei do meu lado. Se queria jogar, tinha que pedir trocas. Nos primeiros dois anos no Nápoles, eles deram-me o privilégio de ir para Itália à quarta-feira. Cheguei a fazer turno noturno na quarta, saía as 8 horas da manhã seguinte para apanhar o avião ao meio-dia e ainda treinava nesse dia. No dia seguinte viajávamos para o local da competição, fazia jogos de sexta a domingo e na segunda-feira regressava de avião. Se tivesse sorte, não trabalhava nesse dia. Quem corre por gosto não cansa (risos).

É possível estar a 100 por cento na areia e no hospital?
A minha prioridade sempre foi a enfermagem, é o meu ganha-pão. Tentei sempre conciliar a vida profissional e desportiva. Houve anos em que isso nem sempre foi fácil, anos em que não treinei tão bem e não consegui estar ao nível que gostaria. Há datas [na profissão] que não podemos controlar, as férias não dão para tudo. Se me tivesse focado mais no futebol de praia podia ter chegado a outro patamar ou não. Tive que estabelecer prioridades mas acho que consegui fazer um bom balanço disto tudo.

Os colegas não se chateiam quando vai pedir mais uma troca?
Eles foram sempre inexcedíveis. E eu também gosto de os ajudar quando estão enrascados com alguma coisa. Toda a gente tem a sua vida pessoal e gosta de ter um dia ou um fim de semana para descansar. Ajudamo-nos mutuamente.

“Se me tivesse focado mais no futebol de praia podia ter chegado a outro patamar”

Se antigamente já não é fácil, o cenário certamente não ficou melhor durante a pandemia.
Conciliar trabalho e desporto este ano não é o mesmo que fazê-lo há um ou dois anos. Ainda antes do estado de emergência, falei com o meu treinador e ofereci-me para trabalhar à parte e evitar o contacto com os colegas de equipa, isto porque no desporto, o contacto é natural. Expliquei-lhes que não levava a mal. À medida que o conhecimento da doença melhorou, fomos conseguindo lidar melhor com isso.

Trabalhar num serviço de urgências coloca-o numa posição ainda mais vulnerável.
Antes de qualquer internamento, todos os doentes passam por nós. A parte que mais nos desgasta, física e psicologicamente, é o facto de termos que usar todo aquele fardamento durante quatro e cinco horas consecutivas. Um calor imenso, não bebemos água, não vamos à casa de banho, não comemos. Nem sequer podemos pensar que temos sede ou fome. E no meu caso, aliar isso ao exercício físico, é difícil. Alimentamo-nos mal, fazemos pausas de alimentação muito longas e ao fim de cinco horas enfardamos tudo o que vemos, coisas pouco saudáveis. Felizmente tenho a ajuda de uma nutricionista, mas até para ela é difícil desenhar-me um plano. Durmo de dia, acordo de noite. No dia seguinte é ao contrário. É uma luta constante.

A farda é, por estes dias, uma dificuldade acrescida

Comparado com um turno nas urgências, um treino até parece uma coisa fácil.
É para meninos (risos).

Tem dois filhos pequenos. Durante a pandemia, chegou a ponderar sair de casa?
Pensei nisso, pusemos essa hipótese em cima da mesa. Foi angustiante, porque nessa altura as coisas estavam a descambar, lidava todos os dias com muitos casos positivos. Chegue a desabar em frente à minha esposa. Já tinha arranjado uma casa de um amigo no caso de a coisa dar para o torto e ter que me ausentar. As coisas correram bem, felizmente.

“Os portugueses achavam que éramos egoístas quando pedíamos a revisão da carreira e dos salários”

O aumento no número de infetados parece indicar que podemos regressar ao ponto em que estávamos em abril. Estão preparados?
Sim, sabemos que se isto descambar, já sabemos o que temos que fazer, como o fazer, como lidar com a situação. É uma mais-valia comparativamente ao que aconteceu há seis meses. O que nos preocupa mais é a afluência excessiva aos serviços do SNS. Vamos entrar numa fase onde os sintomas de Covid-19 se vão misturar com os da gripe sazonal — e todos os pacientes com sintomas da parte respiratória terão que ser tratados como suspeitos. E nós damos sempre o melhor para tratar toda a gente, para evitar que pessoas fiquem demasiado tempo à espera nas urgências. Só temos duas mãos, sabemos que por vezes há quem se sinta esquecido no serviço. Não é por maldade, mas nem sempre é possível chegar a todos em tempo útil.

Sente que há confiança nos enfermeiros?
A classe está muito bem preparada. O enfermeiro português é de uma qualidade acima da média a nível europeu. Sentimos essa confiança de todos, mas há muita falta de apoio. Por mais material que se possa comprar, ainda há muita coisa que falta.

O que é que falta?
A nossa luta pela carreira e pelos salários vai continuar. Só não sabemos o que a pandemia trará de novo. Não queremos que a nossa luta fique esquecida. Nesta situação, temos que olhar primeiro para os interesses dos doentes. Só quando isto acabar é que olharemos para os nossos próprios interesses.

“O prémio para quem esteve na linha da frente não vai apaziguar todas as nossas reivindicações”

A pandemia não pode virar a opinião pública a vosso favor nessa luta?
Os portugueses achavam que éramos egoístas quando pedíamos, ou melhor, quando reivindicávamos aquilo que achávamos que estava e que está certo. Se calhar, há uns meses ou há um ano, achariam que era uma tremenda estupidez. Hoje em dia acham que é mais do que justo.

Acha que a opinião mudou?
Acredito que sim. A única coisa de que temos receio é que a atribuição destes prémios de agradecimento que querem dar aos profissionais de saúde que estiveram na linha da frente sejam vistos de outra forma. ‘Ok, já receberam o prémio, já tiveram aquilo que merecem.’ É mentira. Não é um prémio que vai apaziguar todas as reivindicações que temos feito ao longo dos anos. Ele vale o que vale.

É uma questão de valorizar o trabalho que é feito todos os dias pelos enfermeiros?
Muito do trabalho que fazemos só é visto por quem está doente. Muitos deles já me disseram que se não nos vissem a trabalhar, nunca acreditariam em tudo o que fazíamos. Por vezes é uma luta inglória.

Dava jeito que os portugueses apoiassem os profissionais de saúde da mesma forma que apoiam as seleções de futebol?
Dava, sim. Todos os profissionais, até mesmo os assistentes operacionais, que não são considerados, mas que trabalham que se fartam. Não têm formação superior, é certo, mas são incansáveis. Toda a gente é indispensável.

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