Saúde

Raquel: “Já recuperei, mas tenho receio de tocar na minha família, é estranho”

A jovem de 25 anos contou-nos como foi a recuperação da infeção por Covid-19 até ao dia da alta.
Foi dada como recuperada a 26 de outubro.

Estávamos a 20 de outubro quando a NiT deu a conhecer a história de Raquel Torres, uma das várias pessoas em Portugal que contraíram a infeção por Covid-19. Dois dias antes, a jovem de 25 anos tinha recebido o resultado do teste de diagnóstico e aquilo que mais temia aconteceu: deu positivo para a doença.

Seguiram-se momentos de ansiedade, inclusive ligou algumas vezes para a linha de apoio psicológico do SNS24, e teve muito medo por estar a lidar com algo desconhecido.

Sempre sofri de ansiedade. Ainda nem tinha a doença e já estava a sofrer com isso. Liguei para me acalmarem porque foi realmente stressante. O meu namorado ia tendo sintomas e eu tinha-os um pouco depois. Era assustador”, contou à NiT na altura.

Foram dias complicados, mas Raquel teve alta esta segunda-feira, 26 de outubro. Segue-se agora uma nova luta: tentar voltar à realidade e ultrapassar o receio de estar com outras pessoas, assim como tocar-lhes. 

Raquel contou à NiT como foram os últimos seis dias deste que tem sido um dos maiores desafios sua vida.

21 de outubro: a onda de apoio e carinho que sentiu

Foi o dia após a publicação da história de Raquel na NiT e diz que sentiu uma onda de apoio inacreditável. “Senti um carinho muito especial por todas as pessoas. Desejaram-me as melhoras e também pelo facto de se interessarem pelo que senti”, conta.

As perguntas que mais lhe fizeram foram “que sintomas teve que a levaram a suspeitar que podia ser Covid-19?” e “como é que lidou com a descoberta de que estava infetada?” Segundo Raquel, houve sempre um acompanhamento diário do seu estado. “As pessoas queriam mesmo saber a minha evolução”, recorda com carinho.

“Houve uma família inteira infetada em casa que veio falar comigo. E uma rapariga que tinha um bebé de cerca de dois anos e ela tinha de estar isolada e não podia estar com o filho. Das mensagens que recebi, é curioso que um dos sintomas mais referidos foi a falta de olfato e paladar.”

22 de outubro: o medo de não voltar a ter paladar nem olfato

“Estava com tanto de medo de não recuperar estes sentidos. Pode parecer parvo estar a queixar-me de uma coisa que não é grave. Afinal, existem pessoas que ficam internadas e ligadas a máquinas. Mas preocupava-me, por exemplo, ter alguma fuga de gás e não me aperceber. Pode ser perigoso”, diz à NiT.

Recorda que isto não tem nada a ver com uma gripe. Simplesmente acordou e, de repente, não tinha paladar nem olfato. O melhor era não pensar muito no assunto e, para se distrair, uma vez que estava confinada desde 12 de outubro, trabalhava nos seus projetos pessoais no computador ou via televisão, entre outras coisas.

“Tentei não ver notícias sobre a Covid porque via os números a aumentarem e aquilo mexia comigo. Ia falando com pessoas no Instagram que estavam a passar pelo mesmo que eu e íamos dando apoio umas às outras. Também aproveitava para pensar naquilo que queria fazer quando saísse do confinamento: ver a minha família.”

23 de outubro: o dia em que o paladar e o olfato voltaram

“Fui fazer um café com leite, senti o cheirinho do café e não queria acreditar. ‘Ó meu Deus, pensei que isto não ia acontecer’”, disse na  altura. Passaram seis dias e foi um dos sintomas que mais me custou”, relembra.

Assume-se como viciada naqueles cheirinhos para a casa e foi logo colocar uns pela habitação. “Não sabia se a casa cheirava bem ou não, e tentava ir sempre limpando”, diz.

“De repente, dás importância a tudo. Parece que estava dentro de uma bolha onde não sentia nada. Os meus sentidos voltaram e foi uma sensação maravilhosa.”

24 e 25 de outubro: o fim de semana em que começou a sentir-se melhor

Nesta altura, confessa à NiT, o cansaço já não era tanto, embora começasse logo a tossir quando fazia alguma coisa. “Por exemplo, não conseguia limpar a casa toda de uma vez, mas já era capaz de tratar de uma divisão num dia e outra no dia seguinte.”

“Neste fim de semana já estendi a roupa, aspirei, fiz tudo. Era como se já não tivesse nada. Parecia estar quase curada”, conta.

O processo foi acompanhado diariamente por uma médica que lhe ligava. No sábado, dia 24, perguntou-lhe como se estava a sentir e se os sintomas  já estavam a passar total ou parcialmente. Raquel sabia que dentro de pouco tempo teria alta, mas outro receio aproximava-se: o que fica depois do vírus.

“Tenho algum medo de ter ficado com sequelas, mesmo que não sinta nada. Isto foi um pensamento que me acompanhou sempre. Partilhei este receio com a médica e quero fazer exames depois disto para ficar descansada”, diz, acrescentando que agora já não se faz despiste no final do confinamento, basta que passem os sintomas.

“A médica explicou-me que no início dos sintomas a probabilidade de transmissão é maior, mas assim que os sintomas fossem passando seria dada como curada.”

26 de outubro: o dia em que teve alta e o medo de tocar nos familiares

Recebeu uma chamada na tarde de 26 de outubro a receber a alta. Como já podia sair de casa, quis ver a família, mas tinha um medo constante de ainda ter alguma coisa e transmiti-la.

“Estava com a minha família e tinha imenso medo de lhes tocar. Queria dar-lhes um abraço, mas tenho receio de tocar nas pessoas. Estava de máscara, mas tenho mesmo medo, é estranho”, desabafa.

“Queria tanto abraçá-los, mas estava num sufoco. ‘E se eu ainda tiver alguma coisa’, pensava eu. Agora, a minha cabeça vai acabar por ir ao lugar e vou adaptar-me a esta fase pós-infeção. Estive tanto tempo fechada em casa que agora vou para a rua e dou por mim a afastar-me. Tenho medo de voltar a ser contagiada. Afinal, não há provas de que isso não possa acontecer.”

E continua: “Acho que fiquei tão traumatizada que ainda tenho mais cuidados do que tinha, se é que é possível.”

A mensagem de Raquel Torres é que pensemos em nós, mas também nos outros, especialmente nos mais idosos. Dá o seu como exemplo, uma vez que não passou assim tão mal como esperava, mas tem noção de que existem pessoas de risco que precisam de ser protegidas.

“Não devemos ter pânico, mas ter todos os cuidados recomendados pelas autoridades de saúde é essencial. Temos todo uma responsabilidade, por nós e pelos outros.”

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Finalmente já recuperei o paladar e o olfato 👏🏼💪🏼 tão bom voltar a sentir o cheirinho do café, dos meus perfumes… 😍 no meu caso demorou 6 dias depois de ter desaparecido completamente e este foi sem dúvida um dos sintomas que mais me custou, porque estava cheia de medo de nunca mais voltar a ter cheirinho e sabor.. até porque não tinha o nariz entupido e desapareceu do nada mesmo, foi assustador!! Mas finalmente já consigo respirar de alívio! O meu medo era se tivesse alguma coisa a queimar ou assim nem eu nem o meu namorado conseguíamos notar qualquer tipo de cheiro.. enfim foram dias difíceis. Mas tudo se está a alinhar 🙏🏻 mais uns dias e já estou curada 💫 desejo a maior das forças a quem esteja a passar por esta situação e por situações mais graves, muita coragem e força e acreditem isto vai passar! Protejam-se e sigam mesmo todas as recomendações da DGS é mesmo importante por vocês e por quem mais amam 🧡😷 #dgs #covid19 #covid_19 #picoftheday #picsart #heypicsart #photo #photography #photographycreative #creativephotography #photoediting #picsarttutorial #picsartstudio #autumn #creator #madewithpicsart #starbucks

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