Saúde

Aos 23 anos, Beatriz sofreu uma trombose. “Pode acontecer a qualquer um”

Saudável e ativa, a jovem portuense sentiu uma dor súbita durante uma longa viagem de avião. À chegada, o diagnóstico médico confirmou o pior.
Regressava do Brasil, quando sentiu as primeiras dores.

Depois de cinco dias tranquilos e animados no Brasil, Beatriz Vieira regressava a Portugal. O voo decorria tranquilamente, até que uma dor súbita transformou a viagem. “Tanto num como noutro voo tentei ir a dormir o máximo de tempo possível, como a maior parte das pessoas faria num voo de sete horas e meia. No regresso passei a maior parte do tempo sentada. Quando me levantei, percebi que estava com uma dor insuportável no gémeo”, conta à NiT a jovem de 23 anos que decidiu partilhar a sua história no TikTok.

O desconforto que sentiu no avião não foi suficientemente alarmante para a preocupar. Ainda teve tempo para chegar a casa, mas o sofrimento agravou-se nas horas seguintes. “Até julguei que tivesse sido um mau jeito, mas a dor começou a piorar cada vez mais e, aí sim, comecei a suspeitar que pudesse ser uma trombose”. Finalmente, decidiu ir às urgências e o diagnóstico confirmou as suspeitas. 

A trombose é uma doença que consiste na formação de coágulos potencialmente mortais na artéria (trombose arterial) ou na veia (trombose venosa). Uma vez formado, o coágulo pode bloquear o fluxo sanguíneo normal e até viajar para algum órgão. Isso pode resultar em consequências significativas, incluindo ataque cardíaco, derrame e o tromboembolismo venoso. Atualmente, uma em cada quatro mortes no mundo estão relacionadas com esta doença.

Curiosamente, os sintomas visuais que costumam ser habituais na doença não eram evidentes no caso da jovem portuense. Desde logo, a perna não inchou nem ficou vermelha. Mas a dor que sentia não deixava grandes dúvidas. “Parecia que vinha do interior do gémeo, muito intenso, nem conseguia esticá-la. Só de tocar na zona vinham-me as lágrimas aos olhos”, confessa. “Por vezes, pode-se desvalorizar a doença porque é assintomática visualmente, mas é possível acontecer sem que existam esses sintomas mais comuns”.

Antes de ser encaminhada para a especialidade, teve de fazer análises ao sangue, para avaliar o marcador biológico que indica alterações no processo de coagulação. O teste positivo acontece a partir do 0,5 por cento. Beatriz estava com 9,79 por cento. 

Foi logo encaminhada para a cirurgia cardiovascular. “Felizmente”, no seu caso, os coágulos encontravam-se apenas no gémeo e na parte de trás do joelho. “Não tinha na virilha, o que me permitiu ir logo para casa, mas se isso tivesse acontecido, o tratamento teria sido diferente”.

As tromboses resultam, muitas vezes, em embolias pulmonares, quando o coágulo sobe até aos pulmões e cria obstruções numa artéria pulmonar. No caso, bastou uma injeção anticoagulante e a indicação de que poderia ir para casa e ficar em repouso. Durante uma semana não conseguiu caminhar.  

No caso de Beatriz, é possível que os fatores de risco tenham ido além do voo em si — que terá sido o principal catalisador da trombose. A pílula de estrogénio que fazia parte da sua rotina, por exemplo, pode ter aumentado os riscos, assim como questões genéticas. “Ainda não posso fazer os estudos a esse nível, para saber se há alguma predisposição, mas assim que parar a medicação, vou tratar do assunto”.

Os tratamentos que Beatriz tem agora de fazer passam por utilizar uma meia elástica/de compressão de grau dois diariamente, exceto quando vai dormir e evitar esforços e suspender a atividade física. Teve também de interromper a toma da pílula e toma anti-coagulantes todos os dias. Embora adore viajar, durante os próximos tempos também não poderá fazer viagens longas, isto é, com duração acima de três horas. 

Ainda assim, em junho irá fazer um novo exame para examinar o estado da situação. Consoante a avaliação, poderá retomar o exercício físico, por exemplo, e algumas das condicionantes podem ser levantadas. No entanto, a jovem admite nunca mais voltar a tomar pílula de estrogénio.

Beatriz sempre manteve uma postura bastante positiva em relação ao assunto e sente que, dentro de toda a situação, aquilo que mudou na sua vida até trouxe impactos positivos. “Passei a beber muito mais água, até mesmo no trabalho. Não só é benéfico pelos motivos óbvio, mas também porque nos obriga a levantar para ir à casa de banho. Nem que seja por aí, já é uma excelente forma de nos movimentarmos”, explica. 

Mais incómoda é a utilização diária da meia e a suspensão do exercício físico. “A meia acaba por me impedir de fazer várias coisas, por exemplo ir à praia” e não esconde que com o bom tempo, ainda custa mais. “Pode ser que em junho não precise mais de a usar”, afirma com alguma esperança. 

A jovem reforça os cuidados a ter para evitar situações destas que, sublinha, “pode ser transversal a qualquer pessoa”. “Eu praticava um estilo de vida saudável, não era de todo sedentária, praticava exercício, o que torna tudo ainda mais inesperado”.

“É muito importante movimentar-se nas viagens longas (com duração superior a três horas) e não desvalorizar a dor que se sente, principalmente nos membros inferiores. Isto porque a probabilidade de ser uma trombose é acentuada.” Aconselha também a que se beba muita água e ao uso de meias de compressão.

Por se tratar de um assunto que os jovens usualmente associam a pessoas mais velhas, Beatriz optou por recorrer às redes sociais para dar o alerta. “Não estava à espera de ter tanta gente a identificar-se com a situação, mas recebi imensos testemunhos semelhantes ao meu”, conta. “Nesse sentido foi bom, porque senti que estava a ajudar outras pessoas que, por exemplo, estavam prestes a ir viajar.”

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