Saúde

Se sonha fazer turismo espacial, saiba que seu organismo pode não estar preparado

Já foi inaugurado o primeiro centro de medicina aerospacial do País, onde se estuda o impacto da falta de gravidade no corpo.
O Universo é ainda uma incógnita.

“A águia aterrou” foram as palavras que anunciaram chegada do homem à Lua. O momento foi transmitido em direto na televisão e contou com uma audiência de mais de 530 milhões de pessoas em todo o planeta que assistiam aos pequenos saltos de Neil Armstrong. A forma como o primeiro astronauta a pisar o satélite natural da Terra se deslocava intrigou muitos. Era a maneira que o elemento da missão Apolo 11 encontrou para lidar com as forças gravitacionais da Lua.

A exploração espacial fez com que a comunidade médica se dedicasse a investigar uma nova problemática, que todos os que viram o astronauta se aperceberam: o facto de que o organismo humano não está preparado para a ausência de gravidade e isto tem implicações na saúde.

Mais de 50 anos depois desta primeira viagem à Lua, as visitas ao Espaço já se tornaram recorrentes e irão acontecer com uma frequência cada vez maior. Por isso, segundo o neurocirurgião e professor da Faculdade de Medicina, Edson Oliveira: “é necessário perceber quais são os limites do corpo humano nestas viagens, para podermos prevenir e aprender a lidar com os efeitos”. 

O especialista em neurocirurgia e a médica Thais Russomano fundaram o primeiro Centro de Estudos de Medicina Aeroespacial (CEMA) no País, na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. O objetivo é simples: estudar as mudanças no organismo quando este atravessa a atmosfera terrestre. Ambos criaram também a disciplina de medicina aeroespacial, que é lecionada em parceria com a Força Aérea Portuguesa, para que todas as questões sobre aeronáutica sejam esclarecidas. 

O comportamento do corpo humano no Espaço

A Lua tem um sexto da gravidade terrestre. Esta diferença gravítica que se sente entre o planeta Terra e o satélite natural tem impacto nos astronautas e terá, no futuro, nos astroturistas. As diferenças entre as duas forças gravitacionais são sentidas sobretudo no coração, no cérebro e nos músculos.

“Todos os organismos [dos astronautas] sofrem alterações fisiológicas que muitas vezes se tornam patológicas. A principal é musculosquelética. Temos ossos, músculos e articulações habituadas à gravidade terrestre. Nestas atmosferas pouco gravíticas os músculos não sentem tantos estímulos para trabalhar, o que acaba por levar à atrofia muscular. Os movimentos do esqueleto são menos abrangentes e exigentes o que origina, em muitos casos, osteoporose. À chegada ao destino — seja no Espaço ou no regresso Terra —, a maior parte dos astronautas não consegue assumir uma posição vertical, ou seja, levantarem-se nem andar no imediato”, refere o professor. Durante a permanência no Espaço, os profissionais têm obrigatoriamente de praticar exercício todos os dias durante algumas horas, com um cinto que os prende à nave ou à estação espacial, para que os seus músculos não atrofiem. 

Do ponto de vista cardiovascular também ocorre um fenómeno já estudado: “a falta de gravidade faz com que os líquidos que antes chegavam às extremidades, agora acumulam-se na parte central do corpo, sobretudo no tórax e no cabeça“. Pode também acontecer que o ritmo cardíaco diminua. O professor explica: “Sem a gravidade ocorre um alongamento da coluna, o que nos torna mais altos. Em simultâneo o sistema cardiovascular adapta-se, porque o coração não precisa de trabalhar tanto.”

Esta foi uma das conclusões a que a NASA chegou depois ter comparado a fisiologia de dois irmãos gémeos, um é astronauta e outro não. Scott Kelly passou 340 dias na estação espacial internacional enquanto o seu gémeo idêntico, Mark Kelly, ficou na Terra. Segundo a agência aerospacial norte-americana, Scott regressou cinco centímetros mais alto do que o irmão.

Porém, por comparação, houve um declínio da formação óssea de Scott e um aumento do nível da hormona que contribui para a saúde dos músculos e ossos. Houve ainda uma ligeira diminuição das capacidades cognitivas de Scott, em termos de rapidez de pensamento e exatidão.

Além destas, há outra condição sobre a qual Edson Oliveira se tem debruçado, que acontece em viagens de longa duração: síndrome do nervo ocular. “Verificou-se que alguns astronautas têm mais suscetibilidade de ficarem hipermetropes — o oposto de míopes“, explica. A hipermetropia, é a dificuldade em ver ao perto. É um termo comum que descreve uma visão desfocada dos objetos próximos, mas clara quando olha à distância. Surge, normalmente, a partir dos 40 anos.

“Estas condições fazem com que, no regresso à Terra, os astronautas sofram com os efeitos secundários — vómitos, náuseas e suores frios — durante vários dias”, revela o médico apaixonado pela exploração espacial.

“É preciso ser-se perfeito do ponto de vista fisiológico [para se ser astronauta], até observam o teor de cálcio nas coronárias. Minimiza-se ao máximo o risco, maximizando ao máximo a saúde. Com o advento dos voos comerciais espaciais ou com a construção de estações espaciais privadas, vamos ter pessoas comuns no Espaço. Será que vão aguentar?”, questiona Edson Oliveira. 

O último voo astroturístico aconteceu no passado dia 4 de junho. Esta foi a quinta vez que a cápsula New Shepard transportou humanos, e a equipa contava com cinco homens e uma mulher. Uma coisa é certa para o professor: “as pessoas que têm feito as viagens vão ser alvo de estudo por parte da medicina para perceber os efeitos que a experiência tem nos seus organismos”.

Simuladores do Espaço

No Centro de Estudos de Medicina Aeroespacial é possível fazer vários testes. Na passadeira Alter G, por exemplo, é possível anular 80 por cento do peso e estudar os perfis de marcha. O aparelho simula a corrida em ambientes com menor gravidade, como a Lua ou Marte. Para subir para o aparelho, o aluno voluntário tem de vestir uns calções apropriados, que se ligam à própria passadeira, para que da cintura para baixo possam simular o movimento sem gravidade.

A mesa tilt.

Outro dos aparelhos disponíveis é uma mesa tilt. O nome pode assustar (tilt significa, literalmente, inclinar), mas é muito semelhante a uma maca, onde uma pessoa se deita e a cabeça é colocada a seis graus invertidos, para simular que se está no Espaço. “Conseguimos perceber as alterações fisiológicas e a forma como o organismo se adapta. Há voluntários que permanecem assim um mês. Aqui temos feitos estudos sobretudo ao nível ocular e da jugular, com recurso a uma sonda”.

Além destes, na sala encontramos ainda um outro aparelho, colocado sobre uma passadeira comum, que o professor nos explica que serve para fazer estudos de espirometria — um exame aos pulmões, vulgarmente conhecido como prova de esforço, que permite o registo de vários volumes e dos fluxos de ar. Ou seja, permite medir os gases e a variação, por exemplo, do oxigénio e do dióxido de carbono em ambientes espaciais. 

Se está a pensar em voluntariar-se para caminhar sem gravidade, num Alter G, o seu sonho pode acabar aqui. O laboratório está disponível apenas para alunos da Faculdade de Medicina e o número de vagas de acesso à disciplina é limitado a 25 alunos.

Carregue na galeria para conhecer os equipamentos inovadores que estudam a saúde de quem vai ao Espaço em Lisboa.

ver galeria

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT