Saúde

Se teve Covid-19, esteja atento: pode ter ficado com problemas cardíacos

A cardiologista Susana Martins revela à NiT os sintomas que deve vigiar.
Há sintomas a ter em atenção.

Em pouco mais de um ano, a pandemia mudou de forma radical as nossas vidas. Já se aprendeu muito sobre a doença neste tempo, mas há também muito que ainda estamos a descobrir sobre o impacto que a Covid-19 pode ter, no curto ou mesmo a longo prazo.

No caso do coração, a peça mais central do nosso organismo, já se sabe que a Covid-19 pode causar sequelas cardíacas, mesmo em pessoas que já recuperaram da doença e que não estiveram hospitalizadas.

Susana Martins, cardiologista no Centro do Coração e Vasos do Hospital CUF Tejo, confirma isso mesmo à NiT: “a Covid 19 pode afetar o coração”. E especifica as diferentes formas em que tal já tem sido verificado: “pode conduzir a miocardite (inflamação do músculo cardíaco), pericardite (inflamação da membrana que reveste o coração), necrose (morte de tecido) ou morte de células, mimetizando um enfarte agudo do miocárdio, arritmias e insuficiência cardíaca”, especifica.

A especialista realça ainda que as sequelas cardíacas não se verificam apenas nos casos mais graves de Covid-19. “Estas manifestações podem ocorrer mesmo em casos com sintomas ligeiros ou assintomáticos na fase inicial da infeção pelo SARS-Cov-2.”

É importante perceber que não falamos de casos raros. As sequelas podem ser mais comuns do que se pensa, o que acontece é que em certos casos só através de exames mais detalhados é possível perceber a dimensão do impacto. No limite, em certos casos o impacto no coração poderá ser grave, e até mesmo letal. Mas na maioria dos casos falamos de uma “situação transitória”, destaca a cardiologista da CUF.

“O envolvimento do coração não é raro, podendo, ainda que de forma subtil e só detetável em análises cardíacas específicas, atingir 1 por cada 5 doentes hospitalizados por Covid-19 e mais de metade dos doentes com patologia cardiovascular prévia, tendo impacto na mortalidade global”, explica Susana Martins.

Atenção aos sintomas

Se há algo que a Covid-19 nos mostrou é que nem toda a gente infetada é atingida da mesma maneira. Existem fatores de risco, o que ajuda também a explicar porque é que a prioridade na vacinação inclui as pessoas mais velhas ou que sofram de outras comorbilidades.

Quem deve ter especial atenção? “Os doentes que sintam fadiga persistente, dificuldade em respirar, dor torácica esquerda e batimentos cardíacos irregulares devem procurar assistência médica, nomeadamente uma consulta de cardiologia”, responde a cardiologista, que salienta que, perante estes sintomas, é desaconselhada a “prática desportiva vigorosa”.

Nestes casos há diferentes exames que poderão dar uma ajuda ao médico a perceber o que se passa. “Uma avaliação analítica pode detetar marcadores de compromisso cardíaco (como a elevação da troponina, uma enzima cardíaca), os exames de imagem como a ecocardiografia e a ressonância magnética cardíaca podem mostrar alterações da estrutura ou da função cardíaca”.

A cardiologista Susana Martins realça que não se quer com isto gerar mais alarmismo. É uma questão de sensibilização. “Porque são ainda desconhecidos os efeitos da pandemia no nosso coração a longo-prazo, mas a evidência de que lesões cardíacas já nos estão a condicionar é uma realidade, tanto mais presente quanto mais grave a patologia cardíaca pré-existente”, especifica.

Além do mais, “não podemos esquecer que a pandemia não cessou todos os outros fatores de risco que já havia para a saúde do nosso coração, apenas veio somar-se como mais um”, acrescenta. E aqui é importante que as pessoas não desvalorizem outros problemas por receio da Covid-19.

“Nos últimos meses tenho assistido a doentes com patologia cardíaca mais descompensada que adiam vir ao médico por receio de deslocação a uma unidade de saúde. Este receio acarreta consequências pois quando nos chegam já tendem a ter as queixas mais agravadas e, por vezes, já com sequelas”, alerta a cardiologista.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT