Saúde

Será que os miúdos estão bem? Os desafios da escola (e como pode ajudar)

Do bullying às preocupações com o corpo, das notas escolares aos medos. Os desafios de quem está a crescer são muitos.
A escola pode ser um local de tensão para muitos miúdos.

Podem ser os anos mais ricos e emocionantes da vida, mas mesmo quando as coisas correm bem, são dos mais difíceis. A infância e adolescência trazem dores de crescimento. Físicas mas também emocionais.

É na escola que passamos uma parte essencial da nossa vida enquanto crescemos. Todos guardamos memórias boas e más do que vivemos nesse período e assim continuará a ser com as próximas gerações. Mas o que preocupa mais os miúdos hoje em dia? Será que a pandemia trouxe mais dúvidas? E, mais importante, o que podemos fazer para os ajudar a crescer?

Inês Pessoa e Costa, psicóloga no Hospital CUF Cascais e no Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas, ajuda-nos a descortinar um pouco do que se passa no universo dos mais novos.

Antes de mais, a psicóloga realça que “as vivências das crianças e jovens refletem, na maior parte das vezes, as influências da sociedade em que estão inseridas, os modelos com que crescem e as experiências que absorvem em casa”.

“Culturalmente falando, estamos num meio que promove muito a competição, as hierarquias, a autoridade e o poder. Muitas vezes, as escolas refletem essa realidade, seja nas relações entre pares, seja nas relações com os adultos que fazem parte do contexto escolar”. Não se trata aqui de sugerir que a escola é difícil por automatismo. Mas o mundo exterior também se sente dentro das paredes da sala de aula. É um espaço comum, cheio e desafiante — com o que tudo o que isso tem de positivo e negativo.

“Trocando por miúdos”, prossegue a psicóloga, “aparecem nas consultas muitas crianças e jovens em sofrimento causado por uma diversidade de acontecimentos que ocorrem no contexto escolar”.

O bullying é um dos problemas que mais afeta a saúde mental e emocional dos miúdos.

Um dos motivos tem a ver com a opinião dos pares, “que é sempre importante porque tem a ver com a aceitação social e, ainda mais, na adolescência já que as amizades passam a ocupar uma grande parte da vida emocional”. Mas também a opinião dos adultos, em particular dos docentes.

Há um mundo muito diverso de queixas e preocupações que os miúdos relatam em contexto de consulta, destaca Inês Pessoa e Costa. Um dos assuntos mais comuns é “o facto de se sentirem mal, em comparação com os outros, seja pela aparência física”.

Aqui entram todas aquelas coisas comuns, mas que têm especial impacto sobretudo na adolescência. Ou por se acharem “mais gordos ou muito magros, muito baixos ou demasiado altos, porque têm o cabelo de forma X, porque se vestem de forma Y”.

A competência académica também é tema recorrente. “Ou porque têm más notas, ou porque se sentem intimidados em falar nas apresentações, ou têm medo de dizer alguma coisa errada, ou por não se sentirem tão bons numa determinada disciplina”, especifica.

O restante contexto social também tem muito peso: a timidez, a maior dificuldade em se exporem ou estabelecerem amizades. Não é fácil ser miúdo e também é importante quem já não o é lembrar-se disso.

Depois há questões ainda mais complexas e problemáticas. O bullying é um tema recorrente e não deve ser esquecido. “O sentimento de que foram maltratados pelos seus pares ou mesmo por adultos de referência, no sentido de serem humilhados, gozados, criticados, desvalorizados e postos em causa publicamente”, são coisas que podem ter muito impacto, realça Inês Pessoa e Costa.

Finalmente, há a pressão. O percurso de aprendizagem escolar tem diferentes etapas: para os miúdos no secundário isto pode ser muito complicado. Não nos interpretem mal: estudar é essencial. Mas a coação para obter resultados também pode ter um impacto negativo.

“A pressão que está a ser colocada nas crianças e jovens coloca a tónica nas capacidades intelectuais, nas que são identificadas como importantes e ‘medidas’ pela escola — porque uma grande parte das competências necessárias na vida adulta, as chamadas soft skills, não são avaliadas nem servem para a média”, aponta.

A pressão pode ser contra-producente.

Para a psicóloga, isto “promove a competitividade e coloca o foco na ideia de que para se ser feliz temos de ‘ser os melhores e ter as melhores notas’. O que cria um forte sentimento de ansiedade ligado à escola que não é benéfico em idades tão precoces, quando a personalidade se está a estruturar”, alerta.

Perante este contexto, como ajudar? A psicóloga dá alguns princípios tão simples quanto essenciais: “promover o afeto, a cooperação e a entreajuda nas relações entre os pares e todos os membros das comunidades escolares. Adultos e crianças devem aprender a apoiarem-se uns aos outros, a estarem atento a quem tem determinadas dificuldades e a compreender como se pode amparar quem se sente mais vulnerável”.

É essencial não esquecer o papel dos mais velhos. “Os adultos são o melhor modelo que existe: um professor atento, carinhoso, que se ligue aos seus alunos e que sinta como eles estão é a coisa mais maravilhosa que um aluno pode ter. É um fator promotor de saúde mental fundamental e pode fazer toda a diferença entre um trajeto de desenvolvimento que corre bem e um que corre mal”, realça.

Muito importante também é aliviar alguma da pressão de cima dos ombros de quem está a crescer. “O processo de crescimento pode ser, por si só, internamente muito desafiante. Acrescentar-lhe uma série de fatores externos é exigir demasiado”, acredita a especialista. 

Finalmente, há que saber procurar ajuda especializada quando for necessário. A psicóloga alerta para os sinais de alarme mais evidentes e que mais têm aparecido nas consultas: a ansiedade, muitas vezes com ataques de pânico, stress, tristeza ou choro fácil, auto-agressões (cortes), queixas físicas de dores de cabeça e de barriga, alterações no sono e do comportamento alimentar.

“A pandemia veio intensificar estas experiências psicológicas e aumentar o sofrimento de muitas crianças e jovens”, ressalva Inês Pessoa e Costa. “A pior opção possível para a saúde física e psicológica é ficar sozinho na dor”.

O saber pedir ajuda, seja por vontade própria ou por indicação dos cuidadores, é sinal de que temos consciência de que não estamos bem. Isso não nos torna mais fracos. Pelo contrário, é passo importante para melhorar. Os miúdos podem ter um papel importante, ao falarem entre si, mas os adultos devem fazer a diferença. “É para isso que os adultos existem na vida das crianças e dos jovens: para cuidar”, finaliza.

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