Saúde

Sexsomnia: o distúrbio de quem faz sexo a dormir profundamente

Atualmente afeta cerca de três por cento da população mundial, mas ainda pouco se sabe sobre esta condição misteriosa.
As pessoas não pedem ajuda por vergonha.

O nome pode enganar qualquer um. À primeira vista, a expressão “sexsomnia” parece estar relacionada com insónias, mas, no fundo, está mais ligada a sexo. Trata-se de um distúrbio do sono também conhecido como sonambulismo sexual. É uma condição rara e os pedidos de ajuda médica são ainda mais raros. Por um lado, quem sofre desta perturbação nem sempre tem consciência dela; por outro, falar sobre o problema pode ser muito constrangedor.

A sexsomnia manifesta-se quando existe excitação sexual durante o sono, ou seja, sem haver consciência disso. Isto faz com que as pessoas se envolvam em comportamentos sexuais, incluindo masturbação e sexo enquanto dormem.

Embora possa parecer uma perturbação sexual, não o é. As pessoas quando se levantam no dia seguinte até podem ter uma sensação estranha e acham que sonharam, tiveram um sonho molhado, quando, na verdade, era realidade. O ponto essencial disto é que elas não têm noção daquilo que se passou, uma vez que acontece durante as fases mais profundas do sono (fase REM)”, começa por contar à NiT o sexólogo Fernando Mesquita.

Algumas pessoas até podem acordar no momento do orgasmo, devido à aceleração dos batimentos cardíacos e um aumento do ritmo da respiração, mas o mais comum é que isso não aconteça. Nos casos em que acontece, o que acaba por se verificar é que as pessoas perdem a excitação.

“Até agora não existem sintomas prévios que nos possam indicar que se poderá sofrer desta condição no futuro. Uma vez detetada a patologia, percebe-se depois que já existiam alguns sinais, como acordar cansado, ou ter sonambulismo. Contudo, não podemos pensar que todas as pessoas a quem isso acontece têm propensão para desenvolver este problema.”

Muitas vezes estes casos acabam por se descobrir nos casais, porque se a pessoa que está a dormir sozinha e faz isto, é muito raro lembrar-se. “Não é impossível, mas por norma não acontece e, portanto, os solteiros, muitas vezes enquanto o são, não chegam a saber que têm este tipo de comportamentos. De qualquer forma, como há outra pessoa envolvida, ela sabe e acaba por conter o que se passou.”

O sexólogo já acompanhou dois casos destes — que foram semelhantes em todo o seu desenvolvimento —, mas um deles continua em processo. É nesse que nos dá a conhecer: relata que durante o dia estes namorados não tinham vida sexual.

“Ela procurava-o, mas ele acaba sempre por afastá-la por receio de falhar, o que fazia com que não conseguisse sequer sentir desejo nem ter ereções. Depois, durante a noite, acabava por exprimir todas as emoções que tinha reprimido. Começava a tocar-lhe, a masturbar-se e havia penetração. Aliás, os preliminares eram quase inexistentes”, começa por contar o especialista.

“Neste caso ele é que tem este tipo de comportamentos. Acontecem desde que estão juntos, mas ao início ela aceitou porque era a única forma de terem alguma intimidade. Depois chegou a uma altura em que não aguentou mais e decidiu pedir ajuda.”

Por norma, a sexsomnia manifesta-se em pessoas com a sexualidade reprimida, na opinião do especialista. Algo que pode acontecer na vida adulta, se não existirem diálogos sobre o assunto durante a adolescência, seja com pais ou com alguma figura de referência. “Por vezes até são aqueles tipos de famílias onde se aparece uma cena mais íntima num filme mudam de canal.”

Ainda assim, ressalva que não é obrigatório ter este histórico para desenvolver o distúrbio — pode surgir em qualquer idade e fase da vida. A condição pode ser tratada recorrendo a antidepressivos e a medicação para o distúrbio de ansiedade —, embora Francisco Mesquita não defenda essa abordagem.

“Os casais que acompanhei até agora não tomaram nada, nenhum dos dois. O que faço é conversar com eles e incentivar o seu comportamento íntimo durante o dia. Aqui quando me refiro a íntimo não estou a falar das relações sexuais. Estou a falar de passearem, namoraram, irem jantar, tudo isto são coisas importantes. Passarem tempo juntos é essencial, vão ganhar confiança e isto vai acabar por se refletir nos aspetos em que até agora têm tido mais dificuldades. Embora o paciente mais recente ainda não esteja curado, já começa a ter outro tipo de iniciativas, ainda que só consiga ejacular enquanto está a dormir.”

Estima-se que atualmente cerca de três por cento da população mundial sofra de sexsomnia, um número que para o especialista é demasiado elevado. Há países em que esta condição já está a ter várias implicações legais, uma vez que as pessoas estão a começar a conhecê-la e a saber o que é, e consequentemente, a alegar que sofrem deste distúrbio quando existem acusações de abuso sexual.

“É uma questão muito complicada. Como é que se comprova que a pessoa estava mesmo a dormir? Talvez se já tiver algum histórico de perturbação do sono seja mais fácil, mas o enquadramento legal vai ser muito difícil de trabalhar nestes casos.”

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