Saúde

Sororidade Materna: o grupo de apoio gratuito que ajuda mulheres no pré e pós-parto

Não devia ter sido assim, mas gravidez de Bárbara Fonseca foi tudo menos feliz. Hoje, a psicóloga clínica quer ajudar a quebrar o tabu.
A psicóloga foi mãe de Benjamim no ano passado.

“Dizem que estar grávida é um estado de graça, mas a verdade é que eu não achei graça nenhuma àqueles nove meses.” A afirmação é tudo menos consensual e este é, aliás, um tema por vezes tabu. Para a psicóloga clínica Bárbara Fonseca, a gravidez foi tudo menos um mar de rosas.

Quando em 2023 foi mãe de Benjamin, deu por si a sentir-se sozinha durante todo o processo. Foi aí que percebeu que queria dedicar-se a ajudar mulheres que acabam por passar pela mesma situação. Aos 31 anos, Bárbara está preparada para o fazer. Formou-se em psicologia perinatal e criou a Sororidade Materna, uma iniciativa que procura dar uma rede de apoio às mães, antes e após o parto.

“Tem como objetivo criar uma rede de suporte à maternidade em todas as suas fases. Pretende ajudar mulheres a lidar com todas as situações, porque a verdade é que eu própria que sou psicóloga tive dificuldades, ainda que tivesse algumas ferramentas, o que me deixou a pensar que as pessoas que não têm nenhumas, como é normal, poderiam estar ainda pior que eu”, explica em entrevista à NiT sobre o projeto que arranca oficialmente em junho.

Bárbara confessa que não percebeu que estava a passar por uma depressão durante a gravidez, apenas que se sentia sozinha e com vários medos e dúvidas. Os meses que deviam ser muito felizes, foram, na verdade, tudo menos isso. Para tentar encontrar uma saída, acabou por criar um grupo com algumas amigas onde partilhava todas as questões que tinha. Queria perceber se era algo normal ou se era a única a sentir-se deprimida, triste, sozinha.

Em janeiro, acabou por iniciar os primeiros grupos mais formais, em conjunto com a fisiologista Joana Vilas Boas, com o objetivo de criar um espaço seguro para mulheres, entre desabafos e a ajuda de profissionais. “Ali as pessoas podiam dizer que estavam frustradas porque souberam que uma amiga estava grávida e ela que está a tentar há mais tempo ainda não foi capaz. Ao mesmo tempo também podem dizer que ficaram tristes porque mais uma vez lhe tinha aparecido a menstruação.”

A psicóloga juntou-se assim ao projeto UMA A UMA da Associação CORDÃO, que tem como principal função ajudar todas as mulheres que por questões monetárias, não conseguem ter apoio durante esta fase das suas vidas e priorizar a sua saúde mental. Os apoios podem surgir a vários níveis, desde a amamentação, a questões jurídicas ou o acompanhamento psicológico, que é o seu caso.

Foi desta forma que Bárbara começou a dar consultas individuais semanais durante o período de três meses a algumas mulheres. Daqui surgiu a ideia de tornar mais oficial a ideia dos grupos que já tinha desenvolvido anteriormente e foi assim que surgiu a Sororidade Materna.

“A verdade é que há gente que não se sente à vontade em partir logo para uma terapia assumida e individualizada, de uma maneira mais formal. Oferecer a possibilidade de o fazerem mais descontraidamente e em grupo pode ser a solução que muitas pessoas precisam, até porque há vários benefícios que podem surgir daqui, como o facto de sentirem acolhidas por outras companheiras e também aprenderem algumas coisas com outras histórias. É através de exemplos reais que muita gente é capaz de validar as suas experiências e perceber que elas não estão erradas.”

Os novos grupos serão divididos em quatro e são destinados ao apoio psicoterapêutico para mulheres que estejam em diferentes fases. O primeiro chama-se Enquanto Tentamos e destina-se às mulheres que estão a tentar engravidar há menos de 12 meses e às que ainda estão no processo de decisão. O segundo chama-se Enquanto Lutamos está ligado ao luto da perda gestacional e à infertilidade. O terceiro, o Enquanto Esperamos, é pensado para as mulheres que já estão à espera de bebé e que querem desabafar sobre como está a ser aquele período, sobre as expetativas que têm, o que esperam e até como é que vai ser com o filho mais velho.

O último é o Enquanto Sobrevivemos e é dedicado ao pós-parto e a todas as experiências subsequentes. Fala-se de como muitas vezes se está exausto, como se sofre em silêncio, do sentimento de se achar que não é capaz ou do pensamento de que ainda não se ama o ser que acabou de nascer, por exemplo. Outro dos temas abordados é regresso à vida antiga.

O projeto vai desenvolver-se através de oito sessões online ao longo de quatro meses, entre junho e setembro. Cada uma terá a duração de 75 minutos e cada grupo terá no máximo oito participantes. Além disso, todas as mulheres estarão num grupo de WhatsApp onde podem ir constantemente partilhando a sua jornada com todas as outras colegas, durante o tempo fora dos encontros. O objetivo é que no final continuem em contacto e a partilhar os seus dia a dia.

Uma vez que a iniciativa é financiada pelo UMA A UMA da Associação CORDÃO, a participação nestes grupos é totalmente gratuita e todos contam com o acompanhamento da psicóloga. A inscrição pode ser feita online, até ao dia 22 de maio, e todas as candidaturas vão ser submetidas a uma avaliação. até porque há limite de participantes.

“Quando dizemos que sejam pessoas com algum tipo de vulnerabilidade, não têm de ser pessoas que passam por dificuldades extremas. Podem ser famílias de classe média que, por exemplo, no final do mês não tenham a possibilidade de pagar mais do que uma consulta no privado, porque os gastos são muito avultados. Não deixem de se candidatar por acharem que há pessoas em pior situação”, explicsa.

Para quem gostava de participar no projeto e de pertencer a um grupo, mas gostava de pagar por isso, a psicóloga refere que em junho vai abrir mais grupos, mas desta vez neste tipo de modalidade. “Muita gente me tem questionado, porque ao ter possibilidades não quer estar a retirar a vaga a ninguém que não as tenha. Por isso vou abrir também esta opção em breve.”

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