Saúde

“Sou personal trainer e aos 29 anos descobri que tenho uma doença cardíaca grave”

Thomas Silva recebeu o pior diagnóstico que podia imaginar no ano passado. Entretanto, já voltou a treinar — mas de forma limitada.
Thomas com o seu cão.

O nome Thomas Silva, ou Active Flow, é conhecido entre muitos portugueses, sobretudo pelos atletas mais atentos às redes sociais. Dada a sua visibilidade — tem mais de 35 mil seguidores no Instagram —, decidiu revelar no final do ano passado que sofre de uma condição cardíaca grave que o fez repensar a forma de estar na vida. Nas últimas semanas, porém, tem falado de forma cada vez mais aberta sobre a doença.

Thomas Silva tem 29 anos e sempre foi super ativo. Apaixonado por desporto, começou a jogar futebol logo quando era pequeno. Primeiro, no Estrela da Amadora e depois nas camadas jovens do Sporting Clube de Portugal, onde jogou durante 17 anos. Em 2015, foi transferido para o clube da sua terra natal, Swansea, no País de Gales, onde também acabou por se licenciar em Gestão de Desporto, pela Trinity SaintDavid University.

“Ainda no País de Gales formei-me em abril de 2017 em Personal Training e trabalhei durante dois anos na Llandarcy Academy of Sports, onde dava one-to-one sessions e aulas de bootcamp indoor e outdoor”, conta à NiT.  Mas em janeiro de 2020, a aventura no Reino Unido chegou ao fim.

Voltou para Portugal e decidiu criar a marca Active Flow, que combina treinos funcionais de alta intensidade com pilates. “Além dos treinos, o meu objetivo sempre foi juntar o maior número de pessoas e criar uma comunidade centrada num estilo de vida saudável e com gosto pelo exercício físico”, lembra.

Meses mais tarde, o confinamento provocado pela pandemia obrigou-o a levar os treinos para um formato online, onde passou a trabalhar diariamente com milhares de pessoas. “Juntos conseguimos criar uma rotina de treino e motivarmo-nos mutuamente”, conta.

Da Covid-19 ao diagnóstico de doença cardíaca grave

Depois de um 2020 atribulado pela pandemia, a primeira metade de 2021 estava a ser incrível para Thomas. Estava muito bem fisicamente e sentia-se realizado na carreira. Porém, em junho, Thomas ficou infetado com Covid-19. Os sintomas não foram graves, mas algo desconfortáveis, uma vez que ainda não tinha a vacinação completa e apanhou uma das variantes mais graves. O problema é que o pior ainda estava por vir.

Um mês mais tarde de ter testado positivo, o personal trainer desmaiou durante um dos seus treinos solitários em casa. “Acordei passado um minuto e a minha namorada levou-me para o hospital”. “Depois de vários exames, aquilo que acreditava ser uma reação adversa à Covid-19 revelou-se uma doença genética cardíaca”.

Ficou internado durante 10 dias para fazer exames complementares. Mesmo nessa altura não conseguiu cumprir o repouso absoluto pedido. Ligado a vários monitores, fez alongamentos e alguns exercícios de meditação para acalmar o seu estado de espírito e o medo do desconhecido. Quando saiu, ainda com o diagnóstico incompleto, os médicos deram-lhe uma das piores notícias de sempre: tinha de limitar a sua atividade física às caminhadas.

Thomas não se conformou. Durante oito meses visitou vários médicos e pediu várias opiniões para conseguir descobrir realmente o que tinha: Miocardiopatia Arritmogénica. Uma doença genética que aumenta o risco de arritmias muito graves e que pode ter um desfecho trágico: morte súbita.

Segundo os especialistas do Hospital da Luz: “Corresponde a uma doença hereditária do músculo cardíaco, onde ocorre a substituição do miocárdio por tecido fibroadiposo e que se caracteriza clinicamente por arritmias ventriculares potencialmente letais, principalmente em indivíduos jovens e atletas”.

Com isto chegou também a preocupação ao resto da família. Sendo uma patologia genética, é necessário realizar vários testes e exames aos familiares diretos para perceber quem é o portador do gene: o pai ou a mãe. Depois também os quatro irmãos de Thomas — que sempre foram muito ativos — precisaram de ser testados para perceberem se sofrem da mesma doença. 

Para quem vive do desporto, mas, mais do que isso, adora fazer exercício físico, ouvir e lidar com esta nova realidade foi pesado. Difícil de encaixar. Thomas teve ataques de ansiedade e de pânico, o primeiro logo no dia em que deixou o hospital. “Estava tão ansioso e contente por sair, que quis dar uma caminhada. No caminho senti-me cansado e assim que cheguei a casa comecei a sentir os mesmos sintomas que tive quando desmaiei. Tive a sensação que ia explodir e que ia morrer.”

Mais tarde voltou a acontecer. “Estava a conduzir, a regressar a casa de um treino outdoor quando tive o pior ataque de pânico de sempre. A partir daí tinha sempre muito medo em estar sozinho”. 

Estes foram alguns dos episódios num caminho onde nunca desistiu de procurar novas respostas. E conseguiu, de facto. Em dezembro, foi-lhe colocado um desfibrilhador interno para ajudar a controlar a patologia e poder voltar (ainda que condicionado) a treinar.

“É limitador para a minha vida. Tudo tem de ser feito de forma ponderada. Tenho de evitar as grandes oscilações cardíacas e treinos de alta intensidade. Mas dentro do que é limitativo dá para fazer milhares de coisas”, explica à NiT.

Durante estes meses Thomas viveu uns dos períodos mais difíceis da sua vida e contou com a ajuda dos familiares, da namorada e de amigos mais próximos para o superar. Hoje, continua a fazer exercício e aprendeu a gerir a ansiedade e os tais ataques de pânico com o acompanhamento de uma psicóloga.

A plataforma Active Flow

O nome não podia ter sido mais bem escolhido. Durante a conversa com Thomas, percebemos que é uma pessoa que sempre adorou ser ativo e aproveitar a vida ao máximo, com muito exercício físico à mistura.

A Active Flow é uma plataforma de treinos que surgiu poucos meses antes da pandemia. Através de vários planos diferentes, o personal trainer disponibiliza vídeos de treino em replay — treinos em direto, em que basta seguir o que o Thomas está a fazer. A mais recente adição são os treinos outdoor, acompanhados pelo professor e por outro profissional da respetiva área.

Entre as maiores vantagens deste modelo, o ex-jogador de futebol destaca o facto de não precisar de se deslocar até ao ginásio, nem tão pouco esperar pela sua vez para usar uma máquina ou equipamento. “Treinam sempre acompanhados por profissionais e com treinos intensos, ao ar livre, ou em casa”, continua.

É no site da Active Flow que pode inscrever-se e consultar os pacotes disponíveis. Os preços começam nos 5,99€ por semana para as lives. Também existem planos para criar um pagamento único de 29.99€. Se prefere o livre trânsito, o preço fixa-se nos 60€ por mês.

Os treinos outdoor acontecem de segunda a sexta, em Lisboa, em vários horários que se dividem pelas manhãs e tardes. Para participar, só precisa de enviar uma mensagem através do Instagram da equipa. 

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