Saúde

Sou vegan: será que devo tomar a vacina contra a Covid-19?

Os médicos defendem que os veganos devem tomar a vacina. "Nem sempre é possível ou praticável evitar o abuso de animais."
Alguns veganos estão a negar a vacina.

A vacina contra a Covid-19 foi alvo de suspeitas entre as pessoas que a ela se opõem, que se perguntam como terá sido desenvolvida tão rapidamente. Este grupo de céticos inclui muitos que seguem um regime alimentar baseado apenas em plantas. Até que ponto pode ser considerada vegana, uma vez que foi testada em animais? Numa tentativa de responder a estas questões, um grupo de médicos veganos responde que a vacina não contém nenhum ingrediente de origem animal. Mas mesmo assim, muitos ainda se questionam se devem ou não tomá-la. 

O debate surge numa altura em que alguns veganos que recusaram tomar a vacina contra a Covid-19, quando contraíram a infeção e desenvolveram sintomas graves, pediram para serem inoculados. O caso mais recente aconteceu no Reino Unido, em dezembro, quando um homem de 54 anos não vacinado não resistiu à doença e acabou por morrer no hospital. 

De acordo com Mauricio Gonzalez, médico e diretor executivo da Veggie Power Summit , uma das problemáticas para os veganos é a crença de que estes fármacos não são naturais: “Muitos não confiam nas vacinas porque lhes parece ser ficção científica a mais, consideram-nas extremamente antinaturais, como se fossem algo estranho ou de outro mundo. Mas, pelo contrário, são geniais: aproveitam-se das nossas capacidades naturais e aumentam-nas. Tomar uma vacina é tão natural como comer uma maçã.

Angie Sadeghi, gastroenterologista, presidente e CEO do Institute of Plant-Based Medicine, na Califórnia, diz: “Quando as pessoas ficam infetadas e vêm para os cuidados intensivos, recebem imensos medicamentos e produtos químicos. Por isso, se as pessoas querem manter esse estilo de vida devem escolher a vacina. É a coisa mais natural que podem fazer para prevenir as consequências da doença.”

Outra questão abordada pelos médicos foi a rapidez com que a inoculação foi criada e se essa celeridade compromete a sua segurança e eficácia. Mas a verdade é que as vacinas já existem há muitos anos. E, apesar de esta em particular ainda não existir há muito tempo, o modelo mRNA em que se baseia tem funcionado durante décadas.

Simplificando, este injetável não entra nas nossas células, nem no nosso ADN para recriar o vírus. Apenas cria uma proteína que se dirige à célula que é reconhecida e depois sai. Após 24 horas, a vacina já não está no corpo. São os nossos próprios organismos celulares que produzem a proteína. Depois de essas células serem atacadas e mortas, o vírus desaparece.

Ainda que os médicos argumentem que o fármaco pode salvar muitas vidas, muitos querem uma resposta à questão: a vacina é vegana? Um facto crucial tem a ver com o facto de ter sido testada em animais. No entanto, medindo os prós e contras, os médicos acreditam que os veganos devem tomar a vacina.

Esta é uma orientação que está em linha com o que diz a Vegan Society: A definição de veganismo reconhece que nem sempre é possível ou praticável evitar o abuso de animais, o que é particularmente relevante em situações médicas.” 

Segundo noticia o site “Plant-Based News”, a vacina da Pfizer fez testes em 106 animais, que foram depois mortos. Destes, 64 eram ratos e 42 macacos. Quanto a outras vacinas, como da Moderna, os dados não são claros, mas os números devem ser semelhantes. 

Já em Portugal, a Associação Vegetariana Portuguesa explica à NiT: “em situações excecionais, como é o caso da pandemia Covid-19, não devemos descurar a saúde pública, pelo que recomendamos que as pessoas se vacinem.”

Consideramos que [toma da vacina] deve ser feita, sim. Ainda que a sua criação assente em práticas que consideramos questionáveis, do ponto de vista ético, esta pandemia colocou-nos numa situação em que o ato da não vacinação deixa de ser uma mera escolha inconsequente do cidadão, e passa a constituir um ato que poderá colocar em risco a vida de terceiros, como familiares e outras pessoas”, afirma.

No entanto, atualmente, as alternativas aos testes em animais “estão a ser desenvolvidas em laboratórios de todo o mundo (inclusive em Portugal), sendo que o Estado português deve incentivar o desenvolvimento destas, no sentido de haver um progresso ético que remova a dependência do uso de animais sencientes [animais capazes de sentir sensações]”, defende a Associação Vegetariana Portuguesa.

Paulo Santos, professor da Faculdade de Medicina do Porto, tem uma opinião diferente: “A tecnologia que usamos para os seres humanos também está a ser implementada noutros animais e até mesmo na agricultura e agropecuária, que consome mais antibióticos que a medicina humana. Estamos numa fase em que esta tecnologia está ao dispor de todo o ecossistema e não apenas dos seres humanos.”

Nós matamos parasitas e somos parasitados. Exemplo disto mesmo é a pandemia que vivemos atualmente e que já vitimou mais de 19 mil portugueses nos últimos dois anos. “Ainda bem que temos medicamentos que nos permitem reequilibrar a vivência no ecossistema a favor do ser humano porque se isso não acontecesse ainda viveríamos na idade da pedra. Fase em que era quase a vontade divina que decidia quando e como morreríamos. Hoje em dia isto já não acontece porque temos acesso a farmacologia que tem uma forma de ser testada e implementada no mercado”, explica o professor. 

Na última década, muito se tem falado sobre os testes de laboratório em animais e verificam-se progressos nesta área. “Os ratos que são usados nos laboratórios foram criados e nasceram para o propósito único de serem usados para testar determinado fármaco. As experiências com animais são muito protegidas do ponto de vista ético e há todo um processo de aprovação antes de começar qualquer experiência no animal”, defende Paulo Santos. 

Neste momento, as vacinas contra a Covid-19 também estão a ser testadas diretamente em humanos. E estudos experimentais, de fase 1, 2, 3 e 4 sobre os efeitos secundários das vacinas estão a decorrer. “É fundamental fazermos estes testes em animais e humanos para termos medicamentos seguros, eficazes, eficientes e eticamente aceitáveis”, conclui o professor universitário. 

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