A fama pode chegar repentinamente, sem sequer dar tempo de uma pessoa perceber o que está a acontecer. Provavelmente, foi isto que aconteceu a Stella, que há pouco mais de uma semana era uma total desconhecida. Depois depois de subir ao palco durante o concerto de Bluay no Cais do Sodré, a 18 de setembro, e improvisar os versos “O que tem no carro? O Pingo Doce”, passou a ser uma das caras mais reconhecidas das redes sociais portuguesas. Em pouco tempo, o vídeo espalhou-se, deu origem a memes, remixes e paródias de outros artistas e até chegou à televisão brasileira.
Em poucos dias, a exposição ganhou novos contornos. A moçambicana de 24 anos não está a ser falada apenas pelo momento engraçado que protagonizou em palco, mas vê agora tornado públicos problemas da sua vida pessoal. Stella, que agora é reconhecida por onde quer que passe, está envolvida em diferentes polémicas, desde destruir cadeiras numa esplanada, até comportamentos violentos com a senhoria. Nas redes sociais, surgiu um relato que lhe atribui estragos num apartamento e uma agressão à proprietária da casa.
As publicações referem ainda intervenções policiais e uma alegada detenção por falta de documentação. Esta segunda-feira, a jovem explicou a razão no programa “Olá, Bom Dia”, da CMTV, onde referiu também o impacto que os últimos dias tiveram na sua vida. Durante a entrevista mostrou-se emocionada e admitiu estar cansada com toda a situação. “Não ando bem, sinto-me triste e exausta”, desabafou.
A fama repentina é uma alteração que pode parecer positiva para quem está do lado de fora, mas que representa uma transformação profunda na vida de quem passa a estar no centro das atenções. Segundo o que a psicóloga Luísa Leal explica à NiT, o impacto não é igual para todas as pessoas e depende da história de cada uma, da capacidade de adaptação e da velocidade com que a mudança acontece.
“Sabermos quem somos, o que queremos e o nosso valor é muito importante nestes casos”, explica a especialista. Segundo Luísa Leal, uma pessoa que já tenha uma autoestima estruturada e ferramentas para lidar com mudanças pode ter uma experiência diferente de alguém que ainda esteja a construir essa base. O reconhecimento público pode representar a concretização de algo desejado há muito tempo, mas também obriga a lidar com uma quantidade de informação que antes não existia.
Isto porque a exposição traz críticas, elogios, opiniões de desconhecidos e uma perda de privacidade. A pessoa deixa de controlar a dimensão da atenção que recebe e passa a ter de conciliar a imagem que tinha de si com aquilo que os outros dizem sobre ela. “O nosso cérebro tem de acompanhar tudo isso e processar o que estão a falar sobre nós, quer sejam críticas ou elogios”, diz Luísa Leal.
Essa adaptação pode tornar-se mais difícil quando a mudança acontece num espaço de dias, tal como aconteceu com Stella. A psicóloga compara o processo a alguém que tem de arrumar um “armário pessoal” que ainda não estava organizado antes de receber uma quantidade elevada de informação sobre si próprio. A nova realidade pode obrigar a pessoa a questionar quem é, o que pretende preservar e até que ponto quer corresponder à imagem criada pelo público.
Entre os efeitos que podem surgir está a ansiedade. O medo de perder aquilo que foi conquistado, a preocupação com a imagem pública e a pressão para manter o interesse dos seguidores podem contribuir para esse estado. Alterações no sono e o aparecimento de pensamentos automáticos negativos também passam a fazer parte da rotina.
A procura por aprovação também pode criar outro problema: milhares de seguidores, gostos, comentários e elogios funcionam como estímulos que podem levar à procura repetida de validação. “Rapidamente podemos desenvolver uma dependência comportamental. Os elogios libertam dopamina e isso torna-se atrativo”.
Mas, claro, nem tudo é positivo. “Podemos começar a deixar de fazer coisas mais simples e que antes nos davam prazer, como falar com pessoas. Ficamos agarrados à atenção e validação, mas isso é um bem-estar que dura pouco tempo e não é isso que nos garante felicidade”, afirma.
No caso de Stella, a psicóloga deixa uma ressalva: não é possível avaliar o impacto da fama sem conhecer o que acontecia na vida da jovem antes de se tornar conhecida. “O impacto que a fama teve está ligado ao que estava a acontecer na vida dela antes. Se ela teve um passado marcado por problemas que ainda estão por resolver, o impacto será mais negativo.”
Para quem passa por uma transformação semelhante, uma das principais recomendações passa por não deixar que a exposição elimine a rotina que tínhamos antes da fama. “Temos de manter próximos aqueles que nos fazem bem e que não são influenciados pela fama que surgiu”, aconselha.
Além disso, não deve estar “constantemente nas redes sociais a ver tudo o que é dito sobre si”. “Por mais resiliente que seja, não há nenhum ser humano que consiga estar sempre a ver tudo o que é dito sem se prejudicar”, realça.
A terapia também pode fazer parte deste processo de adaptação, sobretudo como espaço para compreender a nova realidade e lidar com a pressão associada à exposição pública. “Também devemos trabalhar a rejeição social e perceber que sermos rejeitados por alguns não define o nosso valor.”








