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Saúde

Tomar melatonina para dormir pode estar a destruir a saúde cardiovascular

Os produtos adquiridos fora do circuito tradicional das farmácias têm vários riscos, como explica um pneumologista à NiT.

O mercado dos suplementos tem crescido nos últimos anos e, para muitos, parecem inofensivos. Vendem-se sem receita, estão expostos ao lado das vitaminas e prometem melhorar o bem-estar. Um deles parece mesmo ser a solução para o problema que milhares de portugueses procuram todas as noites: dormir melhor. O suplemento de melatonina, por exemplo (que pode surgir em comprimidos, gomas e até em pó), tornou-se uma das protagonistas do chamado “mercado do sono”, um setor que está em crescimento e que inclui também medicamentos de venda livre.

No entanto, os especialistas deixam um aviso: ser natural não significa estar isento de riscos, sobretudo quando se ultrapassam as doses recomendadas ou quando a toma se prolonga no tempo sem acompanhamento médico. Segundo o que o pneumologista Tiago Sá conta à NiT, o aumento da preocupação com a qualidade do descanso tem levado mais pessoas a soluções alternativas.

“Havendo, cada vez mais, um maior alerta da população para a importância do sono, acredito que estes fármacos e suplementos estejam a crescer nas vendas”, comenta. Ao mesmo tempo, sublinha que também existe uma evolução positiva na forma como o tema é encarado. “Existe cada vez mais uma maior literacia da parte da população em relação ao sono e cada vez mais as pessoas estão cientes que os distúrbios do sono não se resolvem com medicação e isso que não é o caminho a percorrer.”

Em Portugal, as formulações disponíveis seguem regras específicas. A recomendação é de dois miligramas de melatonina nos adultos e um nos miúdos. No entanto, nem todos os produtos disponíveis no mercado obedecem às mesmas referências. “Existem suplementos com uma dose mais alta cuja evidência científica não suporta este aumento”, diz.

Muitos destes suplementos são adquiridos fora do circuito tradicional das farmácias (em lojas de suplementos físicas ou online) o que levanta dúvidas não só sobre a dose real ingerida, mas também sobre a própria composição. 

A distinção entre medicamentos e suplementos para dormir é, aliás, um ponto de destaque neste tema. Afinal, os primeiros “passam por um processo mais apertado de análise para introdução no mercado” do que os segundos. Quando o consumidor compra um produto autorizado pelo Infarmed, tem maior garantia de que a substância e a dosagem correspondem ao que está descrito na embalagem. “Com isso, podemos ficar mais descansados. No entanto, com os suplementos não podemos ter a certeza de que o está enunciado é o que estamos a tomar”, refere o especialista.

Existe alguma margem de segurança na toma de melatonina, mas isso não significa que uma dosagem elevada seja inofensiva, especialmente quando utilizada de forma prolonga. “O uso crónico de melatonina está associado ao aumento do risco de doença cardiovascular”, explica. Afinal, esta hormona influencia diretamente a regulação da pressão arterial, da frequência cardíaca e dos vasos sanguíneos.

Além disso, a suplementação desregulada pode perturbar o equilíbrio hormonal e os ritmos circadianos naturais, o que, a longo prazo, pode afetar negativamente a função endotelial e o controlo cardiovascular, especialmente em pessoas com doenças cardíacas pré-existentes ou fatores de risco como hipertensão e diabetes.

A melatonina é, então, uma hormona produzida naturalmente pelo organismo e responsável por regular o ritmo circadiano, o chamado relógio biológico. Na prática clínica, é utilizada sobretudo para tratar situações em que existe uma desadequação entre o relógio interno e o horário externo.

Fora destes casos específicos, o uso deve ser cauteloso. “A melatonina, evitando a população idosa, não é um medicamento que deva ser usado indiscriminadamente”, realça o pneumologista. Nos casos de insónia aguda, associada a um período de maior stress, pode haver medicação indutora do sono, mas sempre com indicação médica e por curtos períodos. “Quando estamos a falar de distúrbios de longa duração, o recurso a medicação não é o recurso indicado”, acrescenta.

A base do tratamento passa, antes de mais, por mudanças no estilo de vida: melhorar a rotina diária, manter horários regulares de deitar e acordar, evitar estimulantes como a cafeína ao final do dia, reduzir a exposição a ecrãs antes de dormir e criar um ambiente propício ao sono, sem ruídos e luz. Quando estas medidas não são suficientes, a orientação é procurar ajuda especializada.

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