Saúde

“Tragédia, horror e morte: a normalidade no País onde os culpados assobiam para o lado”

Um enfermeiro português usou as redes sociais para desabafar e fazer um apelo.
O enfermeiro no Curry Cabral.

Nuno Moreira, enfermeiro no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, é um dos profissionais de saúde que tem sido mais ativo nas redes sociais no sentido de relatar aquilo que se vive nos hospitais e apelar aos portugueses para cumprirem as regras para travar o contágio por Covid-19. Uma das suas publicações foi das mais partilhadas na Internet em 2020.

Provavelmente, recorda-se de passar por ela: uma imagem que mostra o momento comovente em que confortava uma colega num corredor do hospital durante mais um duro dia de luta contra a pandemia global do novo coronavírus.

A partilha foi feita a 17 de março de 2020, numa altura em que Portugal somava 448 casos confirmados da doença. Agora, dez meses depois e com mais de 590 mil casos acumulados, o enfermeiro continua a usar aqueles que o seguem para lembrar que a luta contra a Covid-19 é um trabalho de equipa.

A fotografia partilhada a 17 de março de 2020.

Com o título tragédia, horror e morte, Nuno desabafa: “E parece que se entrou num estágio letárgico e já não se reage a tamanha barbaridade. Ninguém questiona porque se abriu o país na semana de Natal, para se contagiarem e morrerem milhares de pessoas, e mesmo agora com números tão elevados vamos esperar mais uns dias para se voltar a confinar de forma total. Que desilusão e que perda irreparável”.

Nesta publicação, que foi feita a 20 de janeiro deste ano, o enfermeiro do Curry Cabral diz que temos os números mais negros do mundo e questiona qual é a razão para não acontecer nada em relação a isso.

Num país onde os trabalhadores da saúde estão exaustos, desesperados e impotentes, na escolha entre quem vive e quem morre. Quem se acusa? Ninguém, é a normalidade no País onde os culpados assobiam para o lado”, continua.

Outubro de 2020.

O profissional de saúde fala, inclusive, das eleições que decorrem no dia 24 de janeiro, afirmando que vamos falhar, tal como aconteceu no Natal. “O amanhã será pior se continuarmos a colocar em causa o trabalho levado à exaustão de todos quantos deram o melhor de si, até muito para além do dever”, acrescenta.

No final, em forma de apelo, Nuno Moreira pede que agora, mais do que nunca, se tenha em conta as normas sanitárias “que continuam a ser sistematicamente ignoradas como nos mostram estes números assustadores”. 

“Por todos nós e especialmente por aqueles que são vítimas desta pandemia, em memória daqueles que perderam esta batalha e pelo País exangue que queremos ver renascer”, conclui. 

Conheça neste artigo os testemunhos e desabafos de outros profissionais de saúde portugueses que continuam na linha da frente do combate à pandemia de Covid-19.

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