Saúde

Um cancro e uma mastectomia depois, Sofia continua a sorrir para as fotos

O filho de nove anos, durante uma brincadeira, sentiu o tumor na mama da mãe. Seguiu-se um pesadelo.
Mais uma história de superação.

Quando a mastectomia se tornou numa inevitabilidade para Sofia Borges, não hesitou em avançar. “Se soubesse o que sei hoje, nunca o teria feito”, lamenta sobre o mês de pesadelo que se seguiu à intervenção que deveria ter marcado uma das últimas etapas na difícil — mas vitoriosa — luta contra o cancro.

Aos 35 anos, Sofia estava longe de imaginar que um cancro da mama pudesse abalar-lhe a vida. Agora, três anos depois, carrega as marcas de uma luta levada ao limite. As marcas físicas, vê-as com carinho. “São especiais, embora para a sociedade ainda sejam um defeito.”

A vitória contra a doença inspirou-a a inspirar outras mulheres e, no Instagram, criou uma página que acompanha e mostra o que é a vida depois do cancro. Uma visão otimista que agora continua a partilhar de forma diferente, através das fotografias de Dai Moraes.

A fotógrafa escolheu Sofia para ser uma das dez mulheres em destaque na exposição do projeto +MULHER. A fotógrafa que está por detrás do projeto, procura contar histórias de vida que inspirem outras tantas mulheres em situações semelhantes. Estas fotografias estão acompanhadas por entrevistas em vídeo realizadas pela produtora Janela Discreta, sendo que a sessão está em exposição desde o dia 17 de setembro na Fábrica da Pólvora, em Barcarena, no concelho de Oeiras.

“Disse logo que queria participar, porque acho que é importante mostrarmos a vida após a doença, mostrar que o corpo muda, tudo muda, mas que a vida continua”, conta. “Eu sou uma mulher banal, com marido, filho, casa, gato e trabalho.”

A normalidade do dia a dia foi abalada subitamente. Foi o filho de nove anos que, durante uma brincadeira, sentiu o tumor na mama de Sofia.

“Disse-me que estava duro. Era efetivamente um dos tumores, porque depois dos exames percebemos que eram, afinal, três”, recorda. “Depois do primeiro exame, o médico disse logo que havia um problema que teríamos que resolver. A partir daí, o mundo cai e coloca-se tudo em casa. Há toda uma vida que construímos de uma forma, e ela dá uma volta gigante.”

O cenário pintado foi “o pior que se poderia imaginar”. O relato do primeiro médico foi absolutamente devastador. “Olhe, isto é do pior que há. Vai ser muito difícil e nem consigo garantir que sobreviva à quimioterapia”, disse, antes de questionar imediatamente se queria avançar para a preservação de óvulos.

Foi tudo demasiado rápido, demasiado frio. “Colocou-me essa bomba no colo, sem tempo para conseguir digerir aquilo tudo”, desabafa. Sofia não quis saber de nada disso. Queria apenas começar a luta o mais rapidamente. Dois dias depois, iniciava a quimioterapia.

“Era um tipo de cancro ainda pouco estudado, mas muito violento e rápido. Felizmente, quando se acerta na quimioterapia, ele tende a diminuir também muito rapidamente”, conta. “Conseguiram acertar logo à primeira e a diminuição foi notória a partir do terceiro ou quarto tratamento.”

Entre as duras sessões de quimioterapia, que lhe trouxeram uma menopausa precoce, enfrentou uma pandemia na pior altura possível que representou ainda mais receios, dificuldades e isolamento. “Foi de uma violência atroz. Passei mal muitas vezes. São memórias que não saem da cabeça, entre cirurgias adiadas, tratamentos adiados, foi complicado.”

A certa altura, estava tão fraca que só comia acompanhada, com medo de não ter forças para tossir, caso se engasgasse. Felizmente, chegou a esperada pela qual tanto ansiava: a de que o tratamento tinha sido bem-sucedido e que poderiam, finalmente, avançar para a mastectomia, para remoção total dos tumores.

Sofia quis escapar ao trauma da cirurgia e acabou por decidir avançar para a reconstrução. Na prática, o interior do peito é retirado e preenchido com músculo retirado das costas e uma prótese de silicone. Seria mais custoso, mas mais recompensador no futuro, pensou. O plano não correu bem.

A pandemia ditou que regressasse a casa mais cedo do que deveria. “Cheguei a casa com quatro buracos e quatro drenos. Entretanto, um dos mamilos teve que ser arrancado a sangue frio, porque não havia tempo para ir ao bloco. O meu filho assistiu a tudo. Foi um trauma pelo qual nunca mais voltaria a passar”, recorda.

Viu outras doentes a entrarem e a saírem no dia seguinte, com mastectomias simples. “Talvez na altura, se tivesse feito o que elas fizeram, e não avançasse para a reconstrução, pudesse não lidar bem com a falta da mama. Mas toda a violência que foi o pós-operatório, não o voltaria a fazer. Foi um mês horrível.”

Acabaria por ver-se livre do cancro. Ou melhor, “deste cancro”. Dos médicos, ouviu que “não está curada”. Apto a desenvolver metástases, o futuro de Sofia continua a ser uma incógnita. O cancro pode voltar, mas pode também nunca mais dar sinais de si. “Obviamente que não digo que estou curada, mas é nisso em que acredito, até porque o nosso psicológico é que manda nisto tudo. É viver um dia de cada vez.”

De volta à vida banal que tanto queria, ganhou nova força para encarar o dia a dia com um corpo marcado pela luta. “Eu nunca fui magra. Sempre lidei muito com isso. Ganhei mais peso em todo este processo, mas não deixei de comer. Era só o que faltava”, comenta entre risos. “Se fosse magra, não tinha tido cancro? O que teria mudado? Bem, comprar biquínis seria uma tarefa mais fácil.”

Para Sofia, a sociedade “não está preparada” para pessoas com cancro e com corpos diferentes. “Nunca deixei de fazer nada por causa do meu corpo. Não faz parte da minha maneira de ser. Claro que por vezes hesito, mas depois penso que estou cá, estou viva. Está tudo bem.”

Quando finalmente se sentiu recuperada, pensou naquilo que lhe fez falta, no que a poderia ter ajudado. Percebeu que havia muita gente a falar sobre a prevenção, sobre os tratamentos, as dificuldades. “Eu queria era saber como seria a minha vida depois do cancro e ninguém falava sobre isso. Sabia que ia vomitar, desmaiar, sentir-me mal, mas e depois? E depois de tudo isto?”

Decidiu, então, tomar medidas pelas próprias mãos e criar uma página de Instagram, a Cancro Humanizado, onde tomou para si a tarefa de fornecer os relatos que tanta falta lhe teriam feito. “Agora sei que, depois do cancro, espera-nos uma vida normal. Mas naquela altura, precisava de ver pessoas com o mesmo tipo de cancro, de as ver vivas. Precisava de focar-me nos que sobreviveram.”

O seu canto digital seria, então, um potencial farol de esperança para quem sofreria do mesmo problema. Mas não era suficiente. Sofia queria fazer mais e criou a Sophie Box.

“É uma caixa com produtos cosméticos para doentes oncológicos, com lenços e turbantes, coisas úteis”, conta. “Quando estamos em baixa oncológica, recebemos apenas 60 por cento do ordenado. Depois, o corpo muda, o champô tem que ser diferente, o creme de corpo também, o gel de banho. É uma ajuda.”

Entregou mais de 500 caixas, até que teve que pôr um travão na iniciativa. O contacto tão próximo com a doença e as doentes, com casos semelhantes ao seu, começou a cobrar uma pesada fatura. “Ia-me abaixo consecutivamente. Havia pessoas que recebiam a box e que faleciam. Não era fácil de gerir e precisei de parar um pouco.”

A vontade de ajudar não esmoreceu e a possibilidade de participar na exposição foi mais uma via para chegar a esse objetivo. “Percebi que posso ser a inspiração de alguém. É bom saber isso. Nós somos mulheres e cada uma ultrapassou as dificuldades da melhor maneira que soube. Nenhuma é mais forte ou mais fraca”, nota.

“Temos que mostrar e ajudar a sociedade a perceber que somos pessoas como as outras. Não é só uma mulher esbelta, alta, loira, que tem direito a mostrar-se. Porque é que eu, que tenho uns quilos a mais, não posso estar numa exposição? Numa capa de revista? Ir à praia de biquíni sem que olhem de lado? Claro que posso. Não sou nem somos mais, nem menos, do que ninguém.”

Carregue na galeria para ver mais imagens da sessão fotográfica de Sofia Borges.

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