Saúde

Um tumor no cérebro roubou-lhe a voz. Com 15 segundos a IA conseguiu pô-la a falar

Alexis Bogan, de 21 anos, foi submetida a uma cirurgia de urgência. Ficou com graves sequelas, mas já consegue fazer-se ouvir.
Fala através de uma aplicação no telefone.

Alexis Bogan sempre gostou muito de cantar e chegou a fazer parte do coro da sua escola secundária. As canções de Taylor Swift e Zach Bryan eram as suas favoritas, mas já não as pode entoar — apenas ouvir. O mesmo aconteceu com muitas outras atividades do dia a dia, pois ficou incapacitada de comunicar as mensagens mais simples.

Aos 20 anos, Lexi — o nome pelo qual a jovem natural dos subúrbios de North Smithfield, em Providence, costuma ser tratada — descobriu que tinha um grave tumor no cérebro, que exigiu uma intervenção cirúrgica de urgência. A operação demorou mais de 10 horas e deixou sequelas graves. Os músculos da língua e as cordas vocais ficaram afetados, impedindo que fosse capaz de comer e falar.

“Antes de vir à consulta, viveu meses a fio com dores de cabeça, náuseas e vómitos. Descobrimos que tinha um tumor do tamanho de uma bola de golfe, próximo da base do crânio e muito vascularizado. Houve uma grande perda de sangue na cirurgia porque o tumor estava muito irrigado e devido à pressão nos nervos cranianos”, explicou à Associated Press Konstantina Svokos, neurocirurgiã pediátrica do Hospital de Rhode Island, onde realizou a intervenção.

Embora faça terapia da fala, o sistema vocal de Lexi continua muito afetado e tudo indica que a recuperação será longa. Ainda assim, já consegue falar de forma mais ou menos percetível, mas num tom muito baixo, apenas se consegue escutar numa sala silenciosa.

Devido à incapacidade de se fazer ouvir, Lexi só podia sair de casa acompanhada, uma vez que não é capaz de comunicar de forma percetível. Sempre que o telemóvel tocava era a mãe que atendia e o facto de não se conseguir fazer ouvir teve um grande impacto na sua relação com o pai, que sofre de perda auditiva e começou a ter muita dificuldade em entendê-la.

“Quando perdi a voz, senti que me retiraram parte da minha identidade. Comecei a esquecer como era. Estou a habituar-me àquilo que sou agora”, revelou Lexi à Associated Press. Em abril, tudo mudou: foi escolhida para testar a Voice Engine, uma aplicação baseada na tecnologia desenvolvida pela OpenAI (empresa que criou o ChatGPT).

Fotografia: Associated Press/ Steven Senne

“A Inteligência Artificial evoluiu muito nos últimos dois anos, o que tem levando muitas questões. Existem muitas dúvidas sobre como vai ajudar as pessoas. Esta novidade permite recriar a voz de alguém com apenas 15 segundos de áudio,” explicou Rohaid Ali, neurocirurgião, professor da Universidade de Brown e um dos criadores desta funcionalidade.

Os utilizadores só precisam escrever algumas palavras ou frases na aplicação do telemóvel e o software lê-as instantaneamente em voz alta. “A Lexi foi a primeira pessoa em que a Doutora Svokos pensou quando lhe apresentaram o programa”, acrescentou o cirurgião.

“Entramos em contacto com ela para ver se estaria interessada, sem fazermos ideia de qual seria a sua resposta. Depois percebemos que estava disposta a experimentar e a ver como funcionaria.”

Lexi só precisava facultar um áudio antigo da sua voz, para conseguirem recriar e treinar o sistema de IA — foi utilizado um antigo vídeo de culinária que tinha partilhado nas redes sociais. Quando foi testada pela primeira vez, todos ficaram surpreendidos com a qualidade da recriação da voz de Lexi.

Ainda assim, registaram-se algumas falhas ocasionais, como uma palavra mal pronunciada e a falta de entoação, mas isso não fez com que a felicidade de Lexi diminuísse.

“É incrível ter uma coisinha no bolso que posso simplesmente tirar e que fala por mim (…) Agora, posso recuperar um pouco da minha independência porque tenho esta tecnologia que posso levar comigo.”

Atualmente, Lexi recorre cerca de 40 vezes por dia à aplicação.  Além disso, também envia sugestões e comentários aos engenheiros do software de IA, para poderem ajudar futuros pacientes. “Sempre que volto a escutar a voz dela, fico muito emocionada, revelou Pamela Bogan, a mãe.

Lexi é educadora de infância e a sua nova forma de interação com os miúdos ultrapassou as expectativas. Em determinado momento pediu ao software para se rir, escrevendo “ha ha ha ha”, e o som que produziu era muito idêntico à sua gargalhada. Ficou surpreendida, pois esperava algo muito robotizado.

Graças à experiência bem-sucedida com Lexi, os médicos já começaram a clonar as vozes de outros pacientes e esperam conseguir partilhar a tecnologia com o resto do mundo. Contudo, a Voice Engine, ainda não está disponível publicamente — a OpenAI tem sido muito cautelosa relativamente à expansão do seu uso.

“Queremos ter certeza de que todas as vozes estão a ser usadas com consentimento de todos os envolvidos. Além disso, também queremos garantir que o software não será usado em contextos políticos. Adotámos uma abordagem muito limitada em relação a quem fornecemos a tecnologia,” sublinhou Jeff Harris, um dos responsáveis da OpenAI.

“Devemos estar conscientes dos riscos, mas não podemos esquecer o paciente e o seu bem-estar”, frisou a médica Fatima Mirza, que também trabalha no projeto-piloto.

“Queremos ajudar a devolver à Lexi a sua verdadeira voz e garantir que é capaz de falar da forma que considera mais verdadeira.”

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