Saúde

Vale a pena guardar as células estaminais do segundo ou terceiro filho?

O corte do cordão umbilical tardio, que gera igualmente muitas dúvidas, tem inúmeras vantagens, explica o obstetra Luís Vicente.
Uma decisão.

Muitos pais ponderam e acabam por guardar as células estaminais de um dos filhos. Porém, quando voltam a engravidar, a dúvida que surge é se precisam de guardar uma amostra para o novo bebé. A NiT falou com o obstetra Luís Ferreira Vicente, especialista em Medicina de Reprodução do Hospital dos Lusíadas, em Lisboa, para tentar esclarecer a questão.

O tema da preservação das células estaminais, também chamadas células mãe, é algo que ainda suscita muitas dúvidas. A colheita das células da amostra de sangue do cordão umbilical é realizada durante o parto, logo após o bebé nascer, num procedimento indolor e totalmente isento de risco. Estas células podem ser armazenadas num banco de células estaminais, de forma a estarem disponíveis para um eventual tratamento futuro. Funciona quase como um “seguro de saúde”, no sentido em que as células poderão ser usadas mais tarde (até aos 25 anos) caso surja alguma doença cujo tratamento beneficie da sua utilização.

Estas amostras estão presentes entre a placenta e o cordão umbilical, daí que a recolha tenha de acontecer na altura do nascimento. A utilização destas células em transplante é uma prática estabelecida há várias décadas, e atualmente usada para tratar mais de 80 doenças hemato-oncológicas, como leucemias e linfomas, vários tipos de anemias, doenças metabólicas e imunodeficiências. Dado o número de doenças que podem combater, existem cada vez mais casais a optar por este método da preservação das amostras de sangue do cordão umbilical.

O primeiro transplante foi realizado em 1988, em França, para salvar uma criança de cinco anos com anemia de Fanconi. É uma doença congénita causada por uma deficiência na medula óssea que impede a produção de células sanguíneas normais. O procedimento foi feito a partir de uma amostra de SCU de uma irmã compatível. O sucesso deste transplante foi tal que levou a que se estabelecessem bancos de sangue do cordão umbilical um pouco por todo o mundo. Em Portugal o primeiro procedimento do género foi realizado em 1994, no IPO de Lisboa, para tratar uma menina de quatro anos com leucemia mielóide crónica juvenil. Também neste caso se recorreu ao uso de uma amostra do sangue do cordão umbilical que pertencia a um irmão da criança.

Quem pode utilizar as células estaminais?

As células estaminais armazenadas podem ser utilizadas pelo próprio, ou então por um familiar compatível, como, por exemplo, um irmão. “Em caso de necessidade de transplante, a utilização de células do próprio é a opção preferida, quando tal é possível, pois elimina problemas de incompatibilidade e rejeição, aumentando desta forma a segurança e probabilidade de sucesso do tratamento”, explica o médico.

Em caso de dúvida em guardar para um segundo filho, o médico explica que o importante é pesar os pós e contras. “A probabilidade de utilizar estas células é remota, e acaba por ser um grande investimento. Porém, é sempre uma salvaguarda que se tem”, refere e acrescenta: “No caso dos irmãos tem de existir uma histocompatibilidade para poderem ser utilizadas, mas a probabilidade é grande”, garante.

Corte do cordão umbilical tardio

O corte do cordão umbilical tardio é outro dos assuntos que têm despertado a atenção dos pais. Este método, como explica o obstetra à NiT, tem muitas vantagens comprovadas para os bebés. Luís Ferreira Vicente adianta que “este procedimento permite que os recém-nascidos tenham uma adaptação mais fácil à vida cá fora”.

“Por continuarem a receber oxigénio materno através da placenta, permite a diminuição do risco de anemia da infância e da mortalidade neonatal em bebés prematuros.” Em relação ao tempo que se torna considerado tardio é que ainda não há um consenso claro. O normal é ser “até o cordão parar de pulsar”.

O corte tardio do cordão umbilical é compatível com a colheita de células estaminais, uma vez que é possível realizar o corte tardio até 60 segundos e, simultaneamente, guardar as células estaminais. No entanto, como recorda o especialista em obstetrícia, vai depender do momento. “Se tudo correr bem, é possível”, esclarece.

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